Opinião de Leitura
«Confissões de um Franciscano» «Confissões de um Franciscano»

Autor: Guimarães, Luís

Leitor: Luis Guimaraes

Opinião

Dizia-se de Átila, o Huno, que por onde o seu cavalo passava nunca mais crescia a erva. Em contraste, pode dizer-se que por onde passa o padre Vítor Melícias tudo floresce, a começar pela alegria e pela amizade.
Ele é de facto a encarnação da alegria de viver. Mas não é uma alegria que decorra da contemplação narcísica de si próprio e dos seus êxitos, mas sim da relação com os outros, na amizade e na permanente doação de si próprio.
Uma alegria que ele vive na fé, uma fé tão autêntica quanto esclarecida, limpa das teias de aranha com que tantas vezes é adulterada e que se projecta com uma tal limpidez que estou seguro de que muitos dos que o conheceram ou conhecem a ele devem a sua própria fé, face às angústias e às dúvidas dos tempos presentes.
Homem da Igreja, sacerdote de dedicação exemplar, o padre Vítor Melícias nunca renunciou a expressão da cidadania, ao compromisso cívico com a sociedade a que pertence, sem ligações de carácter partidário, mas entregando-se a uma intensa intervenção pública em nome da Justiça, da Paz e da Solidariedade, com exemplar empenhamento.
O seu trabalho nos bombeiros, à frente da União das Misericórdias ou, sobretudo, como comissário para Timor-Leste deixa a marca indelével em tudo por onde passa.
O momento exaltante para Portugal e para a nossa própria dignidade no fim do ciclo colonial, a independência de Timor-Leste, teve no padre Vítor Melícias um dos principais, se não o principal, dos nossos protagonistas.
Mas, acima de tudo, o que a nós, os que temos ser seus amigos, marca é afinal o Ho-mem integral, o sentido e o significado da Vida e que permanentemente nos aponta o Bem.
Nenhuma biografia, nem mesmo esta, com todo o inegável talento do seu autor, o poderá alguma vez descrever, porque não é possível fixar em palavras a exaltação da Vida e a plena expressão do Bem.
                               António Guterres

Comentários

Em mais este livro de Luís Guimarães, na linha dos demais, dedicados a outras figuras de proa da vida portuguesa, ainda que em áreas diversas (Fernando Pessa, José Hermano Saraiva, Vitorino d’Almeida, António Calvário, Vítor Melícias), somos transportados igualmente – através de uma escrita fluente e de um discurso acessível - para a intimidade do seu pensamento que o explanam longamente, apesar de serem constantemente confrontados com conceitos e temas que fogem, e muito, da sua esfera de actuação profissional, com que o público está mais familiarizado.

Dir-se-ia mesmo que o autor faz gala em retirar os seus convidados dos campos em que eles estariam mais à vontade, nomeadamente não seguindo um fio lógico condutor das perguntas, daí que sejam documentos do maior interesse para se ficar a conhecer melhor quem são, em profundidade, estas figuras, que espraiam a sua criatividade plural do cinema ao teatro, do jornalismo à rádio, da escrita à música ou ainda à televisão – todos eles!...

Trata-se aqui, neste como nos demais, de um conjunto de títulos e de figuras que decerto não deixarão de suscitar a curiosidade do leitor em os folhear e percorrer as diversas fotografias de época, como que num diálogo através de entreposta pessoa (o autor) procurando redescobrir este nomes grandes da cultura nacional.

Excerto

Introdução


Não podemos evitar, quando o conhecemos pessoalmente ou o vemos na pantalha televisiva, sim-patizarmos de forma automaticamente empática com ele. Não cultiva um semblante carregado e circunspecto, antes pelo contrário, nem se arroga um distanciamento de superioridade moral ou intelectual tão comum em tantos que, aos mais diversos níveis, não ombreiam com a sua estatura já nem sequer de clérigo mas tão simplesmente de ser humano.
Lembra-nos, talvez, mais que um avozinho de cabelos brancos, um simpático tio de sorriso afável, sabedor e de verbo fácil, que nos incita a princípios aparentemente comezinhos mas que, por-ventura devido a essa mesma simplicidade, são quotidianamente menosprezados por muitos de nós e cuja observação faria grande diferença na nossa vida de todos os dias.
Mas o jornalista é pessoa avisada e não se deixa levar por impressões epidérmicas. Aqui e ali, por uma eventual deformação profissional, na intenção de o confrontar com algumas matérias mais esconsas, escolhe alguns temas para o efeito, armadilhando, ainda que de forma não acintosa, meia dúzia de perguntas mais acres, considerando o destinatário: Fátima, as dificuldades do celi-bato, as isenções fiscais dos clérigos, o prazer da tourada, a convivência com o poder, a ‘vida so-cial’ de que alguns o acusam, etc.
Vítor Melícias gosta deste exercício e faz gala em prodigalizar um sem-número de opiniões que es-capam, frequentemente, à mais avançada ortodoxia (passe a contradição) que caracteriza a Igreja portuguesa. Ele sabe-o e gere com prudência a sua rebeldia face à letargia das instituições, desde logo daquela a que pertence. Quase sempre tem as ideias arrumadas e gosta de exercitar o verbo, que frequentemente redobra com conceitos que lhe são caros e noutro qualquer poderiam soar a lugares-comuns. Mas são os seus, aqueles que defende e em que acredita, porfiadamente.
Considera que a questão do casamento dos padres ou a da ordenação de mulheres são assuntos menores que deveriam há muito estar resolvidos, e se cuida que o uso de preservativo, em de-terminados contextos, é um imperativo moral, se estivesse no seu lugar, já teria resignado das funções de sumo pontífice desempenhadas pelo actual papa, mas não deixa de contrapor, como que para restabelecer algum equilíbrio, que a homossexualidade é uma forma não natural de rela-cionamento, que a eliminação injustificada de qualquer forma de vida – como no aborto ou na eutanásia – é pecaminosa, que os símbolos religiosos ou o próprio hino nacional têm lugar no sistema de ensino, ou ainda que os prémios de lotarias ou os vencimentos dos futebolistas deve-riam estar sujeitos a uma taxa social.
Se tivesse sido contemporâneo de Malatesta ou Bakunine, Melícias poderia ter enveredado pelo anarquismo, não fosse a vertente ateia daquela doutrina, tal a sanha com que parece querer ex-purgar a sociedade do papel omnipresente do Estado, ou pelo menos desejaria remetê-lo à forma mais homeopática possível.
Gosta da vida e tem dela uma apreciação positiva, não obstante reconhecer as enormes chagas que pustulam a que apelida de casa comum da Humanidade. Reconhece tentações, mas a elas con-trapõe as convicções; deleita-se com uma canja de pombo mas farta-se e regozija-se se lhe servi-rem um bacalhau com grão; priva com os poderosos mas fá-lo para advogar as causas dos desfa-vorecidos; ama Cristo mas convive prazenteiramente com Maomé ou Sidarta (vulgo Buda).
O padre Vítor Melícias é um aristocrata, no bom sentido, ressalve-se aqui alguma contradição, da Igreja. É detentor de uma formação académica exemplar, domina vários idiomas (deixa amiúde zonzos os destinatários das suas asserções em latim) e causa engulhos aos mais acérrimos e por vezes acéfalos detractores da Igreja, ao postular noções éticas e morais, tanto ao nível dos prin-cípios como do mais terreno pragmatismo, que tão depressa vão ao arrepio dos mais tradicionais cânones eclesiásticos como não se enquadram nas ideias preconcebidas que o vulgacho atribui aos sacerdotes.
Apesar de assumir frisadamente a sua condição de franciscano, com tudo o que isso acarreta de comedimento, desprendimento e dádiva pessoal, tem como fito superior a aplicação dos seus ta-lentos em prol de quem deles necessita, pelo que não enjeita nem se coíbe de integrar os elencos directivos seja de uma instituição bancária, dos seguros ou dos bombeiros, de ter lugar em Bru-xelas em sede do Conselho Económico e Social, da Confederação Internacional das Misericór-dias, ou ainda de ter desempenhado as inúmeras funções que, de forma extensa mas não exausti-va, enumero nas páginas finais.
Deveria o nosso conhecido P.e Melícias remeter-se à mais estrita condição de frade Vítor Lopes, mais um franciscano em recolhimento introspectivo e frugal que não mais aproveitaria se não a si próprio, em termos pessoais e eventualmente espirituais? Ou será que todos ganhamos em contar com o judicioso Vítor Melícias a exercer um apostolado em que a sua mais-valia poderá aproveitar, com grande benefício, aos que necessitam de uma voz ousada e competente, cordata mas sem subserviências, para fazer vingar os pontos de vista que denunciam as suas carências?
A resposta poderá e deverá ser dada por aqueles que ele visa nesse apostolado.
Os detractores não deixarão de lhe apontar a mediatização de que é alvo e a que jovialmente se presta, ao mesmo tempo que insinuam que terá um comportamento mais de relações públicas das instituições por que passa do que de um frade franciscano – cativos que estão ainda de for-mas medievas e autistas de servir o transcendente e o Homem.
Os que o apreciam e com ele se identificam exaltarão e subscreverão a forma desempenada como aborda as questões, a operacionalidade com que faz desenvolver estruturas, nas mais diversas áreas, que sem refutar a alma que habita o corpo cuidam das mais elementares carências deste, para que, então, possa louvar o seu criador.
Ao leitor cabe formular uma opinião, para cujos alicerces espero que este livro possa ter contribuí-do. Sobretudo ao serviços dos valores, único argumento com que consegui atraí-lo a anuir e a colaborar neste trabalho.

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