Opinião de Leitura
Fernando Pessa - Cem Anos de Comunicação Fernando Pessa - Cem Anos de Comunicação

Autor: Guimarães, Luís

Leitor: Luis Guimaraes

Opinião

PREFÁCIO

Conheci o Fernando Pessa em Londres, no edifício da BBC. O decano do jornalismo português foi visitar a Secção Portuguesa em Bush House, ao fundo da King’s Way, e a sua entrada encheu de magia as pessoas que ali estavam.
Corria o ano de 1988, tinha ele 86 anos e a sua figura era objecto de grande deferência da parte de todos os que o rodeavam.
Uma das coisas que depressa saltaram à vista é que aquele homem não era um velho. Movia-se com agilidade e, sobretudo, era senhor de um raciocínio rápido, inteligente, lúcido, algo que se reflectia de forma clara na maneira como usava o humor.
A sua piada fácil e sempre a prop6sito eram bem o sintoma de uma saúde mental invejável, batendo neste aspecto qualquer jovem que com ele tentasse competir.
Por detrás daquele aspecto venerável está uma pessoa especial. “Em coisas de idade”, disse-me uma vez, meditando amenamente sobre uma das ironias da sua vida, “sempre fui o ‘mais’».
Queria ele dizer que, quando era novo, era sempre o mais jovem de qualquer grupo. Era o mais jovem locutor
da Emissora Nacional, era o mais jovem jornalista da Secção Portuguesa, era o mais jovem nisto ou naquilo.
E agora, por ironia do destino, é sempre o mais velho. O mais velho jornalista português, o mais velho repórter do Mundo em actividade, o mais velho em qualquer coisa.
E também uma das nossas mais velhas referências. Pela sua voz passaram as notícias da Emissora Nacional e as novidades da guerra, da resistência e do desafio, transportadas pelas ondas curtas da BBC a partir de Londres.
Foi a sua voz que, em 1945, encheu o éter com o anúncio do final da guerra, foi a sua voz que descreveu a parada da vitória no The Mall, foi ainda a sua voz que ilustrou os documentários noticiosos da United Newsreel que passavam nas salas de cinema em Portugal antes dos filmes de Humphrey Bogart, Lauren Bacall e Greta Garbo.
Para a minha geração, Fernando Pessa confunde-se com a história da televisão. À sua voz característica e ao seu estilo inconfundível veio acrescentar-se o seu rosto afável, a sua figura distinta, o seu porte de gentleman. Porque é de um gentleman, na velha e nobre acepção da palavra, que estamos a falar. Um gentleman que personifica o século XX português.
So long, Fernando, old chap.

             José Rodrigues dos Santos

Comentários

Em mais este livro de Luís Guimarães, na linha dos demais, dedicados a outras figuras de proa da vida portuguesa, ainda que em áreas diversas (Fernando Pessa, José Hermano Saraiva, Vitorino d’Almeida, António Calvário, Vítor Melícias), somos transportados igualmente – através de uma escrita fluente e de um discurso acessível - para a intimidade do seu pensamento que o explanam longamente, apesar de serem constantemente confrontados com conceitos e temas que fogem, e muito, da sua esfera de actuação profissional, com que o público está mais familiarizado.

Dir-se-ia mesmo que o autor faz gala em retirar os seus convidados dos campos em que eles estariam mais à vontade, nomeadamente não seguindo um fio lógico condutor das perguntas, daí que sejam documentos do maior interesse para se ficar a conhecer melhor quem são, em profundidade, estas figuras, que espraiam a sua criatividade plural do cinema ao teatro, do jornalismo à rádio, da escrita à música ou ainda à televisão – todos eles!...

Trata-se aqui, neste como nos demais, de um conjunto de títulos e de figuras que decerto não deixarão de suscitar a curiosidade do leitor em os folhear e percorrer as diversas fotografias de época, como que num diálogo através de entreposta pessoa (o autor) procurando redescobrir este nomes grandes da cultura nacional.

Excerto

INTRODUÇÃO

Não é todos os dias que se comemora um centenário, e só por isso a ocasião merece ser celebrada. No caso, Fernando Pessa é o oposto do exemplo vivo de quem quisesse considerar, nomeadamente com vista ao tratamento de excepção em sede de IRS, a profissão de jornalista como de desgaste rápido — ou, quanto muito, seria esta a excepção que confirmaria a regra.
   O decano dos jornalistas portugueses, e provavelmente mesmo a nível mundial, não arrumou as botas e estava apenas a convalescer de um acidente doméstico, aborrecendo-se em casa, contando os dias para poder “regressar a sua casa”, ao ambiente que tão bem conhece e viu evoluir, ao longo de décadas, a RTP.
   Fomos, entretanto, surpreendidos com a sua hospitalização — já quando nos encontrávamos em trabalho de elaboração destas páginas —, com um problema respiratório que, da mesma forma como evitou as V1 teutónicas, saberá rapidamente contornar, para comemorar com saúde o seu século de vida.
   A ideia de escrever estas páginas surgiu a partir de uma entrevista que lhe fiz para um jornal, no âmbito de um evento que teve lugar há poucos meses, direccionado para a chamada terceira idade. Falámos a este propósito e, posteriormente, fiz urna outra abordagem com ele, já numa perspectiva mais alargada, de que dou conta e transcrevo também no final deste livro.
   Palavra puxa palavra. dei-me conta do manancial sem fim que é a vida deste homem, não só pela sua longevidade — que se deseja ainda maior — mas igualmente pelos períodos temporais particulares que atravessou, para mais numa posição privilegiada, para dar conta dos acontecimentos entretanto decorridos, fruto das suas actividades profissionais..
   Foi, praticamente, todo um século, dos mais importantes na história da Humanidade e até no nosso quintalzinho, em que ocorreram factos da maior importância, nomeadamente para nós, enquanto nação plurissecular, cujos efeitos ainda se hão-de fazer sentir por muitos anos — para o bem e para o mal.
   Daí que, a partir do convite que me foi endereçado por parte da Garrido Editores, decidiu-se avançar não com uma biografia do velho senhor, que fica para quem se sinta habilitado para tal, mas meramente com uma singela homenagem comemorativa, por ocasião da efeméride do seu centenário.
   Para tanto optei por um modelo informal, sem espartilhos na forma, como numa mera conversa — sem pretender fugir a todo o custo das inúmeras e repetidamente relatadas situações por si vividas, na imprensa ou nas televisões, quer em Portugal quer no estrangeiro —, em que se desse uma ampla liberdade de esta testemunha privilegiada do século transacto expressar os seus pontos de vista sobre os mais diversos temas, fruto da experiência acumulada ao longo dos anos.
   Naturalmente que não resistimos a procurar esgravatar :nas suas memórias algo de novo ou mais aprofundado sobre a sua vida profissional, , desde os tempos do agente bancário ou de seguros aos do então novel repórter da Emissora Nacional
   Até aos tempos dos “bilhetes postais” que enviava na televisão, principalmente aos responsáveis pela edilidade lisboeta, passando, naturalmente, pelos conturbados tempos da blitz em Londres, aquando da II Guerra Mundial.
   Mas, por outro lado, quis-se conferir alguma contemporaneidade ao discurso, através da análise dos factos candentes dos nossos dias, preocupações de nós todos e dúvidas que se nos levantam quanto ao tempo em que vivemos e dos quais Fernando Pessa traça aqui as suas perspectiva e visão pessoais.
   Como disse, o formato de pergunta-resposta não é linear, sendo mais propriamente um diálogo entre duas gerações, em que uma apela ao comentário da outra sobre temas que suscitem a reflexão.
   Daí também os comentários, ora desmultiplicadores do assunto abordado ora sardónicos, do autor, ainda que sem resposta à altura porque emitidos a posteriori.
   Desta forma, e com este espírito, estivemos, de facto, à palheta com Fernando Pessa, numa das raras oportunidades em que — pelo menos por uma boa razão — o jornalista é notícia.
Não foi obviamente fácil obter a aquiescência do homenageado para fazer este trabalho.
   Decididamente, Fernando Pessa está in em 2001 e os convites para estar presente nos mais diversos programas, nomeadamente de televisão, e para dar entrevistas são mais que muitos à medida que se aproxima a data do seu aniversário.
   Ele já contou tudo sobre a sua experiência durante a I Guerra Mundial, os tempos da Emissora Nacional, a sua infância e adolescência, a paixão pelos cavalos, os seus famigerados “bilhetes postais”, etc.
   A certa altura decidiu que não dava mais entrevistas, até devido ao estado de convalescença em que se encontrava, depois de uma queda em casa, que o levou a três intervenções numa perna, mas, seja fruto da pertinácia do autor seja da velha máxima “Se não os podes vencer, junta-te-lhes”, Fernando Pessa acedeu a mais esta invasão da sua privacidade e, de forma perfeitamente informal, falou com o autor ao correr da conversa., que fluiu livremente, com intervenções a propósito ou a despropósito do plumitivo escriba, passe o pleonasmo, limitando-nos a registar as suas impressões, ainda que incentivando-o a explicitar determinados trechos e — com risco próprio — comentando as suas opiniões, acrescentando por vezes as próprias.
   Diga-se, em abono da verdade, que “o mais velho” dos jornalistas portugueses prestou-se, talvez de forma determinista, às incursões na sua privacidade, recebendo telefonemas frente ao inquiridor ou mesmo tomando as suas refeições em sua companhia, sob o olhar atento da governanta, que não facilitava no que à composição das mesmas dizia respeito — pois havia que comer os legumes, mesmo que mesmo que não apetecesse, assim como a fruta (“que tem muitas coisas boas”) e o suplemento vitamínico.
   Uma palavra especial impõe-se, para o autor do prefácio deste trabalho, o jornalista José Rodrigues dos Santos, de uma outra geração de repórteres de guerra que não a do homenageado, mas que tem em comum com ele o facto de trabalharem de alma e coração na mesma casa, constituindo igualmente parte integrante e inalienável do seu património humano, ter de igual modo passado pela BBC no seu percurso jornalístico e ainda terem sido, para grande parte dos portugueses, a voz, por um lado, e o rosto, por outro, de duas guerras distintas — a II Guerra Mundial, com Fernando Pessa aos microfones da BBC, e a Guerra do Golfo, que entrou em nossas casas através de José Rodrigues dos Santos, à qual ficou iniludivelmente ligado.

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