Opinião de Leitura
António Calvário - A Canção de uma Vida António Calvário - A Canção de uma Vida

Autor: Guimarães, Luís

Leitor: Luis Guimaraes

Opinião

INTRODUÇÃO
António Calvário sempre se assumiu, para mim, como um ícone da música ligeira portuguesa. De uma dada época, é certo, mas que, estranhamente, soube prolongar a sua carreira e imagem – mais ainda o cliché de um certo estilo e forma de cantar – ao longo das décadas que já conta no seu currículo.
   Não que o seu estilo musical, as suas canções, as letras que canta ou os acordes que as sustentam me sejam particularmente atractivos – de facto partilho outros valores, outras estéticas.
   Não olvido, contudo, e permanece perene num qualquer backup do meu disco rígido interno, a sua prestação, a preto e branco, no único canal de TV que o país tinha à época e que levou a Oração até uma Europa que muitos desconhecíamos. Teria eu uns 10 anos e recordo que até gostei, não tanto pela canção como pela interpretação, em que Calvário se entregava com denodo, embora as circunstâncias políticas não tenham permitido que dela se fizesse uma justa apreciação no areópago dinamarquês para onde foi catapultado.
   O que mais me fascina no seu caso – e considerando outras tantas figuras de eleição, seus pares, que ficaram pelo caminho – é a sua capacidade de sobrevivência. Calvário estava fadado para ser um ‘animal’ de palco, fosse a interpretar canções ou recriando caracteres sobre as tábuas ou, ainda, à frente das lentes de uma objectiva de cinema.
   Muitos houve que tentaram percorrer a mesma via-sacra e que, paulatinamente, foram ficando pelo caminho, por razões naturais, da vida, ou porque sentiram (ou lhes foi feito sentir) que não tinham mais nada a acrescentar à sua passagem pelo mundo do espectáculo – e aqui estamos a falar tanto do teatro como do cinema, ou da canção, como é a situação mais marcante na carreira do meu interlocutor, ao longo destas páginas.
   Não foi o seu caso. Obstinadamente, prosseguiu na sua senda, desespoletada um belo dia, em Portimão, quando a desatenção de um professor o terá escolhido e ‘condenado’ ao estrelato então possível, numa festa de escola, e que até aos dias de hoje, com altos e baixos, nunca esmoreceu, mesmo naqueles anos difíceis na sequela do 25 de Abril, em que apenas os baladeiros tinham os holofotes sobre si direccionados e outros simples profissionais da canção, por terem sido alvo de parangonas e encómios durante o regime deposto, viram-se conotados com esse mesmo statu quo e ostracizados – aliás, não foram apenas cantores os visados.
   Pôs então de lado pruridos de vedeta e, adaptando-se aos novos tempos, indo ao encontro do seu público que, de forma algo clandestina, continuava a manter o seu apreço, ‘desceu’ a terreiros que não tinham sido jamais os seus, como se de um recém-chegado se tratasse, mas não traindo o interesse e o afecto que os seus admiradores não negavam reiterar-lhe.
   Com o passar dos tempos soube assumir um papel mais consentâneo com os gostos e estéticas sonoras preponderantes, mas o seu público não espera dele arrojos techno ou sequer laivos de um Ricky Martin a desoras travestido – o que lhe pedem, isso sim, nos espectáculos que faz por todo o país e junto das comunidades no estrangeiro, são os seus grandes êxitos de sempre, da Oração à Mocidade, Mocidade, passando pelo Sabor a Sal e tantos outros. Datados, com letras remurmuradas vezes sem fim, de acordes mais que decorados e amiúde sibilados de forma alegre e prazenteira.
   No campo das suas ideias e posições sobre os mais diversos assuntos, como são afloradas neste livro, perde talvez – por excesso de delicadeza para com o seu público, que tantos momentos de glória e felicidade lhe proporcionou – em não marcar de forma mais ostensiva as baias que o respaldam.
   Repare-se que não o ouvimos falar, no desporto, se é do Benfica, do Sporting ou do FC Porto; na política pode-se tentar perscrutar alguma coisa, mas dificilmente o catalogamos na direita, no centro ou na esquerda – se já cantou na Festa do Avante não terá sido por militância mas no estrito cumprimento de um contrato de âmbito meramente profissional; se uma morena de olhos azuis está, indelevelmente, ligada à sua carreira (e neste livro logo no prefácio, nas páginas iniciais), muitas louras fizeram parte da sua coorte de fãs, colegas e admiradoras; se se diz católico impenitente, não deixa de defender algumas posições que vão ao arrepio dos catecismos, como no caso da homossexualidade e do uso de preservativo.
   Enfim, dir-se-ia que António Calvário assume uma postura que denota actualmente um certo low profile, por contraponto ao que acontecia nos idos de ’60, em que a sua passagem pelo Rossio, a caminho do Chiado, obrigava a inusitadas precauções policiais que garantissem a sua integridade física, tal era o impacte que causava nos seus admiradores.
   Assumindo as posições de que dá conta a este vosso escriba ao longo destas páginas, retém-se a certeza de que muito mais ficou para ser dito, talvez mais tarde, quem sabe se a título póstumo, quando enfim, liberto da reverência devida aos seus fãs, poderá dar a conhecer tantas outras histórias e opiniões, facetas e segredos, que aqui e agora não tiveram lugar.
   No entanto, não quero passar em claro sobre a sua colaboração activa e interessada em tudo o que poderia contribuir para aprimorar este livro, o que natural e reconhecidamente agradeço.
   Para já, este é o relato possível de um senhor da chanson portuguesa. Uma Oração em discurso directo, não tanto com o criador como, e sobretudo, com aqueles que fizeram de António Calvário aquilo que ele hoje ainda é.

Comentários

Em mais este livro de Luís Guimarães, na linha dos demais, dedicados a outras figuras de proa da vida portuguesa, ainda que em áreas diversas (Fernando Pessa, José Hermano Saraiva, Vitorino d’Almeida, António Calvário, Vítor Melícias), somos transportados igualmente – através de uma escrita fluente e de um discurso acessível - para a intimidade do seu pensamento que o explanam longamente, apesar de serem constantemente confrontados com conceitos e temas que fogem, e muito, da sua esfera de actuação profissional, com que o público está mais familiarizado.

Dir-se-ia mesmo que o autor faz gala em retirar os seus convidados dos campos em que eles estariam mais à vontade, nomeadamente não seguindo um fio lógico condutor das perguntas, daí que sejam documentos do maior interesse para se ficar a conhecer melhor quem são, em profundidade, estas figuras, que espraiam a sua criatividade plural do cinema ao teatro, do jornalismo à rádio, da escrita à música ou ainda à televisão – todos eles!...

Trata-se aqui, neste como nos demais, de um conjunto de títulos e de figuras que decerto não deixarão de suscitar a curiosidade do leitor em os folhear e percorrer as diversas fotografias de época, como que num diálogo através de entreposta pessoa (o autor) procurando redescobrir este nomes grandes da cultura nacional.

Excerto

PREFÁCIO
   António, falar de ti será o mesmo que falar de nós.
Começámos num certo tempo, ao mesmo tempo. A nossa carreira musical foi percorrida com passos a par, quer nas canções, em discos como em televisão e no cinema.
   Transversalmente, obtivemos o calor e a admiração de muitos públicos em muitos espectáculos, em muitos festivais e um pouco por todo o mundo.
Contudo, não é do nosso trabalho que desejo falar, mas sim de ti. Muito jovens nos tornámos colegas, amigos, quase irmãos e cúmplices, nos nossos desabafos e até - porque não dizê-lo? - nos nossos desgostos, ansiedades, angústias e solidão.
   Sim, porque (hoje ambos sabemos) por mais ‘ídolo’ que se seja, o nosso sentir e emoções passam pelo ser que somos e pelo processo das emoções de qualquer outro mortal.
   Porém, António, a tua elegância e fino trato – fruto de uma requintada educação – sempre prevaleceram na nossa convivência, atravessando os anos, e transportando-te como muito querido, amigo, da família que construí.
    Resistindo ao desgaste do tempo e da emoções, continuas a ser, ‘o senhor, uma primeira grande figura do nosso (porque também o sinto meu) meio artístico, lugar que com toda a justiça e mérito conquistaste e ocupas.
   Este livro contribui para repor um pouco dessa justiça e reconhecimento a que tens direito.
   É um necessário testemunho, ainda que limitado e insuficiente, do caminho percorrido.
   Faz bem aos que agora começam olhar com respeito os que deram o melhor de si pela música e pela cultura portuguesas.
   António, Deus te bendiga e proteja.

   Tua amiga e admiradora,
                                                                              Madalena Iglésias

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