Opinião de Leitura
José Hermano Saraiva percorre... Os Labirintos da Memória José Hermano Saraiva percorre... Os Labirintos da Memória

Autor: Guimarães, Luís

Leitor: Luis Guimaraes

Opinião

INTRODUÇÃO
Não sou assim tão jovem que não me recorde de José Hermano Saraiva no ecrã, ainda a preto e branco, com os seus peculiares trejeitos e expressões e, principalmente, com aquela capacidade de cativar a atenção do telespectador, que fazia com que aquele jovem, naturalmente interessado noutras matérias mais adequadas à sua idade e época que se vivia, a década de 70, sempre que outros interesses não se sobrepunham, ficasse colado ao ecrã, a escutá-lo.
Também outros grandes comunicadores prendiam a minha atenção e, certamente, a de muitos outros, como os casos de Vitorino Nemésio, Sousa Veloso ou Vitorino de Almeida, para citar apenas estes, em áreas tão diversas, mas com um denominador comum: eram, ou são, grandes comunicadores, que sabiam e sabem, de forma única,
Cativar o interesse de quem, inopinadamente ou com hora marcada para os 'ouver', se rendia à sua capacidade de tornar atractivos assuntos que, até por preconceito, eram comummente considerados "chatos' e desinteressantes - muitas vezes fruto da incapacidade de quem tinha por obrigação abordar esses temas de forma a não disseminar um bocejo generalizado.
Por diversas vezes tive oportunidade, na condição de jornalista, de privar com o professor, em entrevistas que sabia, à partida, serem uma aposta ganha, dada a fluidez do discurso do entrevistado, o picaresco de alguns episódios com que não deixava de polvilhar a narrativa, não deixando esmorecer o interesse do discurso, que por vezes abordava assuntos pouco anódinos.
A simplicidade da relação estabelecida foi sempre constante. Hermano Saraiva não fazia, todavia, qualquer esforço para ocultar um orgulhozinho, a que chamava vaidade, em surpreender o interlocutor com factos por este desconhecidos, fruto de um saber acumulado e da investigação, por vezes original, a que vota a abordagem dos temas históricos, sociais e políticos da sua predilecção.
Invariavelmente, recebia-me na sua quinta de Palmela, de onde se desfruta uma vista soberba por léguas em redor, guardada por dois possantes mastins, com os quais estabeleci uma relação não desprovida de alguma conflituosidade, da parte deles, naturalmente, misto de respeito pelo convidado do seu senhor e de um desejo dificilmente contido em abocanhar as carnes do escriba.
Para não cercear logo ali urna carreira nas letras que o próprio desejava mais extensa, o professor vinha receber-me ao carro, de onde me resgatava das feras para me ciceronear pelo jardim, dando-me a conhecer o presépio de centenas de figuras que vai construindo nos tempos livres, incrustado num velho moinho de vento recuperado, ou acompanhando-me ao terraço de uma altaneira torre de um dos anexos do solar, local privilegiado de contemplação de toda a península de Setúbal.
O enquadramento em que decorreram as várias horas de conversa foi uma vasta sala pejada de tapeçarias, quadros, objectos de todo tipo que, cada um deles, pareciam ter uma história a contar, por si só.
Um estupendo rasgão envidraçado numa das paredes oferecia-nos uma vista fabulosa sobre o estuário do Sado, proporcionando um agradável alargamento dos tacanhos horizontes citadinos, o que não deixa de ser oportuno para quem tem de olhar para o tempo com uma amplitude que se mede por séculos.
Quanto a este livro, mais precisamente, as considerações que se podem tecer sobre o mesmo cabem essencialmente ao leitor. Sem por um instante ter pretendido que este fosse um trabalho minimamente biográfico, era inevitável que, dada a personalidade e o polícromo percurso de vida do meu interlocutor, diversos episódios e situações fossem marcados pelas experiências vividas por si, na primeira pessoa, o que só veio enriquecer a abordagem das matérias tratadas ao longo destas quase duas centenas de páginas.
Não é, tão-pouco, um conjunto de memórias sortidas, a antecipar aquelas que guarda para uma edição póstuma, mas não poderíamos passar ao lado da oportunidade de, com alguma frequência, fazer incursões nos casos particulares que tiveram o estudante, o advogado, o deputado, o embaixador, o ministro, o académico - o homem, enfim - como sujeito.
Por outro lado pretendi, em devido tempo, trazer o historiador, o impenitente para situações hodiernas, um pouco pela curiosidade e prazer de o retirar dos campos em que se movimenta com evidente à-vontade, tentando desta forma obter o seu pensamento sobre matérias candentes, mas que ele, quase invariavelmente, rápida e profusamente ilustrava com exemplos desenterrados dos baús da História. Eu a puxá-lo para os terrenos da contemporaneidade, ele a fazer agulha para factos e ilustrações que amiúde fundamentava com as memórias do passado - isto sem que se furtasse, contudo, a perspectivar o devir com projecções até arrojadas.
Por fim, um parágrafo sobre a notória “desorganização’, por vezes temática outras cronológica, dos assuntos abordados, aliás igualmente patente no meu anterior livro, Fernando Pessa - Cem Anos de Comunicação, uma vez que, ao invés de me esforçar por ter tudo muito arrumadinho, optei por transcrever o mais fielmente possível o fluir da conversa, na forma e na sequência em que a mesma decorreu, tendo a sistematização das abordagens tido lugar apenas aquando do decurso da mesma, e ainda assim com um cariz algo aleatório que decorreu do frequente entrelaçamento que os diversos assuntos apresentavam entre si.
Não se afigurou fácil, contudo, chegar a bom porto com este trabalho. As correcções do texto original foram muitas, os acrescentos, o aprofundamento dos assuntos ou a inserção de factos novos fluíam
A cada revisão de provas que entregava ao professor, num louvável esforço de rigor mas que comprometia, sem o saber, a programação da editora. A doença que entretanto o acometeu em nada veio contribuir para a celeridade de todo o processo, deixando-nos a todos acabrunhados com a triste sina que parecia vir já do livro com Fernando Pessa.
Felizmente o professor recompôs-se e, volvidas algumas semanas pude, enfim, fazer jus ao corolário do telegrama que lhe enviara para o Hospital de S.ta Marta, quando me apercebi da sua vitória sobre a doença: ‘Professor, temos homem e temos livro!...’
Dificilmente poderá alguém definir José Hermano Saraiva com absoluta propriedade e muito menos catalogá-lo com qualquer tipo de rótulo que faça justiça a uma personalidade tão rica. Saraiva não é o admirador de Salazar, mas também o é. Não é o académico e investigador, mas também o é. Não é o fenómeno de comunicação que a televisão celebrizou, mas também o é. Não é o conservador, crítico desta globalização a que assistimos, mas também o é. Não é o arauto do fim da civilização ocidental como a conhecemos, mas também o e.
José Hermano Saraiva é um homem que acredita em valores que lhe foram inoculados mas que assimilou após passarem pelo crivo do seu pensamento próprio e independente, redundando numa exegese coerente e fundamentada, que faz com que anseie, no seu mais íntimo. que o povo no seio do qual nasceu, há mais de 80 anos, assuma a sua intrínseca dignidade, para que todos possamos ser, enfim ou de novo, como quiserem, capitães da própria alma...

Comentários

Em mais este livro de Luís Guimarães, na linha dos demais, dedicados a outras figuras de proa da vida portuguesa, ainda que em áreas diversas (Fernando Pessa, José Hermano Saraiva, Vitorino d’Almeida, António Calvário, Vítor Melícias), somos transportados igualmente – através de uma escrita fluente e de um discurso acessível - para a intimidade do seu pensamento que o explanam longamente, apesar de serem constantemente confrontados com conceitos e temas que fogem, e muito, da sua esfera de actuação profissional, com que o público está mais familiarizado.

Dir-se-ia mesmo que o autor faz gala em retirar os seus convidados dos campos em que eles estariam mais à vontade, nomeadamente não seguindo um fio lógico condutor das perguntas, daí que sejam documentos do maior interesse para se ficar a conhecer melhor quem são, em profundidade, estas figuras, que espraiam a sua criatividade plural do cinema ao teatro, do jornalismo à rádio, da escrita à música ou ainda à televisão – todos eles!...

Trata-se aqui, neste como nos demais, de um conjunto de títulos e de figuras que decerto não deixarão de suscitar a curiosidade do leitor em os folhear e percorrer as diversas fotografias de época, como que num diálogo através de entreposta pessoa (o autor) procurando redescobrir este nomes grandes da cultura nacional.

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