Opinião de Leitura
António Vitorino d'Almeida sem Pautas na Língua António Vitorino d'Almeida sem Pautas na Língua

Autor: Guimarães, Luís

Leitor: Luis Guimaraes

Opinião

PREFÁCIO
A obstinação de prosseguir as entrevistas criptobiográficas de diversas personalidades públicas de reconhecido valor, em áreas díspares da nossa sociedade, advém do facto de Portugal, enquanto nação de limitados recursos a vários níveis, não reconhecer, precisamente, os seus filhos que, por alguma razão que não vem aqui ao caso, se elevaram da mediania e daquilo que seria expectável num meio periférico, aonde as inovações chegam sempre atrasadas, em que as condições são mais propícias à emigração do que ao estabelecimento.
Por vezes, contudo, e contra ventos e marés, como sói dizer-se, estas figuras conseguem o reconhecimento generalizado por mérito próprio, já que a organização social, as instituições e mesmo os seus pares amiúde apenas contribuiriam para que a regra uma vez mais se aplicasse e o seu valor tendesse a ser esquecido, afogado pela mediania, quando não pela mediocridade, atirando-os para as prateleiras dos supranumerários.
   Felizmente, por distracção ou por maquinação subterrânea de quem também ainda luta contra este estado de coisas, figuras como os meus anteriores entrevistados — Fernando Pessa e José Herman Saraiva ou, no caso em apreço, o maestro Vitorino de Almeida — onseguiram ‘furar’ esse bloqueio cultural e, uma vez chegados à sociedade civil, como agora se diz, cativaram-na e, contrariamente ao que comummente é propalado de que o povo não sabe o que melhor para si, obtiveram o apreço e o reconhecimento daqueles quem o seu esforço era dedicado.
   António Vitorino de Almeida é um dos raros casos em que movimentando-se numa esfera que infelizmente de forma alguma é acessível à generalidade dos cidadãos, além das virtudes e virtuosidades do seu trabalho específico, detêm uma inestimável capacidade de transmitir, com paixão, aos outros, aquilo que e a sua razão primeira de vida — no caso em apreço, a música.
   Testemunhei, presencialmente, que apesar de afastado há anos dos ecrãs televisivos, exceptuando-se o programa numa televisão privada atirado para horas obscenas, mais próprias para actividades de lençóis do que de sofá (desculpe o plágio do estilo irónico-mordaz, maestro), Vitorino de Almeida é reconhecido e cumprimentado por anónimos, em plena rua, o que, como ele denuncia, dá que pensar na veracidade dos números propalados pelas sondagens de audiências televisivas.
   A sua forma simples e narrativa, quase novelesca, de nos introduzir nas cortes da aristocracia europeia para situar o meio (social, político, económico, cultural) em que determinado autor ou compositor viveu devolve-nos a esperança de que, um dia, encontremos personalidades equiparadas em esferas de que estamos tão carenciados, como a matemática, a física, a biologia, a ciência tout court, e que ao invés de usarem manuais bolorentos e aproximações catedráticas para difundir conceitos, sejam mais humanistas e abrangentes no seu explanar e assim consigam criar a apetência por essas matérias, em vez de gerarem ‘anticorpos’ de que o país já se ressente, na carência de quadros nestas áreas tão importantes nos dias que correm, numa sociedade moderna e que aspira a integrar quaisquer pelotões de vanguarda nos areópagos internacionais.
   Temos interiorizado que figuras como a do maestro, ‘para mais’ sendo músico, são personalidades excêntricas, fora do rebanho, a excepção que confirma a regra. Infelizmente, até pode ainda ser. Mas se se apresenta num encontro, em que serão feitas algumas fotos, com a barba por fazer e o cabelo revolto, não é por mimetismo das excentricidades dalinianas, mas porque o que mais lhe interessava então era dar conta do seu pensamento, a imagem seria apenas um acessório.
   Se cultiva uma silhueta em que a bengala sobressai é porque olhamos mais para o dedo do que para aquilo que ele aponta, mas, transigindo, consegue assim fazer passar a mensagem.
A culpa (não o seu filme) é à partida nossa. Conhecemos-lhe a bengala, o cabelo em desalinho, a mediaticidade das filhas, a sua irreverência. Provavelmente muitos dos que apreciam a sua verve e telegenia nunca se deram ao trabalho de o ouvir ou os compositores por si abordados, de reflectir sobre as situações em que eles viveram ias e outros tantos vivem nos nossos dias, só reconhecidos décadas após a sua morte — o quotidiano é exigente e não se compraz com acordes, quando as batatas primam pela ausência do prato.
   Mesmo assim vale a pena o trabalho, frequentemente de sapa, que o maestro desenvolve, numa dignificação da imagem de Portugal quando actua no estrangeiro e de divulgação da ‘outra música’ (a que não está nos tops nem tem telediscos na TV), nos múltiplos concertos que efectua nos mais insuspeitos lugares do país e que, frequentemente, deixam esta cada vez mais parvónica capital a pedir meças ao que se passa pelo ‘país real’ afora.
António Vitorino de Almeida, em termos da elevação da fasquia, em termos culturais, da nossa exigência, deveria, a par de muitos outros, noutras tantas áreas, ser considerado património nacional.
   Nós, parolamente, continuamos esbugalhados perante os matos estrangeiros que nos impingem, seja nas letras, no entretenimento, nos horizontes a atingir. Pelo contrário, apreciam o seu labor e não seria de admirar que Viena, um dia, o considere cidadão honorário, enquanto Lisboa o mantém (se dela dependesse) sem honorários, altiva e orgulhosa apenas das marchas populares e operetas bufas, que na ânsia de ‘agradar ao povo’ se multiplicam à exaustão.
   Não sei se Camões assim o terá dito (ou sei, mas não gosto de citações), no entanto, a ideia que prevalece desse seu, de Camões, desabafo vai no sentido de que é uma triste pátria aquela que seus melhores filhos assim escarnece - ou prescinde.
   Camões teve a sorte que lhe conhecemos. Vitorino de Almeida, além e principalmente pela sua pertinácia em lutar contra a ‘cultura de nádega’ (alusão às salas com cadeiras ergonómicas mas sem acústica de jeito), e ressalvadas as devidas proporções, não poderá aspirar a melhor... cinco séculos volvidos!

Comentários

Em mais este livro de Luís Guimarães, na linha dos demais, dedicados a outras figuras de proa da vida portuguesa, ainda que em áreas diversas (Fernando Pessa, José Hermano Saraiva, Vitorino d’Almeida, António Calvário, Vítor Melícias), somos transportados igualmente – através de uma escrita fluente e de um discurso acessível - para a intimidade do seu pensamento que o explanam longamente, apesar de serem constantemente confrontados com conceitos e temas que fogem, e muito, da sua esfera de actuação profissional, com que o público está mais familiarizado.

Dir-se-ia mesmo que o autor faz gala em retirar os seus convidados dos campos em que eles estariam mais à vontade, nomeadamente não seguindo um fio lógico condutor das perguntas, daí que sejam documentos do maior interesse para se ficar a conhecer melhor quem são, em profundidade, estas figuras, que espraiam a sua criatividade plural do cinema ao teatro, do jornalismo à rádio, da escrita à música ou ainda à televisão – todos eles!...

Trata-se aqui, neste como nos demais, de um conjunto de títulos e de figuras que decerto não deixarão de suscitar a curiosidade do leitor em os folhear e percorrer as diversas fotografias de época, como que num diálogo através de entreposta pessoa (o autor) procurando redescobrir este nomes grandes da cultura nacional.

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