Opinião de Leitura
Desopilar, Precisa-se! Desopilar, Precisa-se!

Autor: Guimarães, Luís

Leitor: Luis Guimaraes

Opinião

A publicar sem o Imprimatur da Igreja nem beneficiando de comparticipação do Ministério da Saúde mesmo para as doenças do foro hepático, maníaco-depressivas ou sequer dedutível no IRS.

    Maior fora o meu engenho e certamente que estas páginas estariam repletas de histórias originais, nunca ouvidas nem impressas, que muito poderiam enriquecer o anedotário nacional e não só. Mas tal não é o caso, e acontece que, face às resmas de material disponível, muito do qual não é do conhecimento geral, achei por bem organizar esta compilação a partir, principalmente, de anedotas de natureza e dimensão diversas, que correm de boca a orelha, impressas um pouco por todo o lado ou que, ainda, estão disponíveis em diversos sites da Internet.
    A anedota tem esta característica comum com o boato: não se sabe quem foi o primeiro a proferi-la, espalha-se com enorme rapidez e não paga direitos de autor. De acordo com cada país, ou até mesmo região, uma dada anedota pode assumir contornos diversos, de acordo com as suas realidades sociais, pelo que, com alguns retoques, uma piada sobre mineiros (de Minas Gerais), com uma roupagem adequada, pode ser transposta para Portugal e passar a ser mais uma piada de alentejanos.
    Ou outra em que o Português é o bombo da festa, invertendo ou redistribuindo os papéis, poderá vitimar uma qualquer outra nacionalidade, colocando o nosso espécime doméstico, pelo contrário, nas funções de ‘esperto’.
    Entreguei-me ao exercício de, a partir de anedotas com uma mera meia dúzia de linhas, envolvê-las com um maior número de detalhes e circunstâncias, por vezes de forma exaustiva, até que se parecesse mais com um breve conto sardónico, apenas se reconhecendo o original quando encontrado o seu fio condutor. São aquelas histórias de maior fôlego, que ocupam várias páginas, que aqui desde o início se pode encontrar
    Um aspecto que cabe sublinhar é o que se prende com a redacção dos respectivos textos. Ainda que sem querer fazer pedagogia sobre gramática e sintaxe, procurei sempre escrever de uma forma correcta, quer em termos de português quer mesmo da pontuação que lhe deve estar adjacente, mas a que nos dias de hoje se dá tão pouca importância, seja na escrita seja na leitura oral – basta para isso ouvirmos as rádios e televisões que temos.
    Na grande maioria dos casos, seja na imprensa em suporte de papel seja na electrónica, a grafia dos termos empregues brada aos céus, seja de origem nacional seja brasileira. E, quanto à pontuação, que se devidamente lida aprimora o sentido das frases, e se não o for a té o pode desvirtuar (lembram-se do episódio da vírgula, num qualquer texto parlamentar, há uns anos?) aí então nem é bom falar.
    Fruto de razões que a psicologia poderia explicar muito melhor do que eu nem sequer me atrevo, a verdade é que grande parte – não necessariamente a maioria – das anedotas versam assuntos e situações de carácter sexual, descrevendo pormenores anatómicos e comportamentais que, se de repente inseridos fora do contexto, podem pelo anacronismo suscitar a hilariedade, mas que quando usados à exaustão redundam num desbragamento da linguagem perfeitamente gratuito.
    Daí que tenha omitido um bom número das que se me depararam, em que o mau gosto e a facilidade do linguajar pareciam ser um objectivo em si mesmo, o que tornaria o material ora publicado insusceptível de ser compartilhado não necessariamente nos claustros de um qualquer convento mas pelo menos entre pessoas adultas e minimamente desempoeiradas mentalmente. Outras, pelo contrário, podem ser contadas até no recreio da escola.
    Também aquelas que exploravam sistematicamente as deficiências físicas, a xenofobia primária ou um racismo inconsequente foram postas liminarmente de parte, se bem que qualquer dos géneros apresente aqui e ali uma ou outra digna representante da espécie – apenas por princípio, nem sequer com grande preocupação de privilegiar a melhor.
    A religião também não foi poupada, seja de forma directa seja através das ‘desfuncionalidades’ dos seus ministros, mas também aqui não se pretendeu exacerbar essa vertente, que corresponde a um foro em que a sensibilidade das pessoas frequentemente parece mais à flor da pele.
    Aliás, a exemplo de outras áreas, como a pedofilia ou o incesto, que – não por receio da incompreensão do leitor devido à actualidade do assunto – no actual momento e timing não teriam lugar num livro como este, que se pretende popular e abrangente, não polémico e muito menos provocador. No entanto, principalmente no espaço de liberdade sem regras que é a ‘net’, há-as em profusão e, se anestesiarmos a moral e nos remetermos simplesmente para a ironia, o absurdo ou o ridículo, não podemos, em alguns casos, deixar de dar umas boas gargalhadas.
    Seria preciso, isso sim, que todos soubessem contextualizar e pôr de lado arquétipos mentais ainda que socialmente ténues e, como não se pode dizer que seja o caso da maioria, optei por não arriscar face à possibilidade de incompreensão do contexto em que seriam reproduzidas.
      O mundo é o que é e as pessoas são assim – tal como frequentemente as crianças –, por vezes corrosivas, cruéis, ainda que perspicazes, na abordagem de temas que, no fundo, as chocam e repudiam.
Não é por acaso que logo a seguir ao 11 de Setembro circulavam piadas sobre Bin Laden e os americanos atingidos por aquele desastre, ou na sequência dos casos de pedofilia em Portugal rapidamente corriam anedotas, algumas soezes, que envolviam crianças, o ‘Bibi’ ou Carlos Cruz, por exemplo. A sociedade cria estes escapes para, de alguma forma, exorcizar os fantasmas que de outro modo teria dificuldade em ‘digerir’.
      Uma nota final para as imagens que ilustram o livro. Esteve fora de cogitação, desde logo, que as ilustrações correspondessem objectivamente aos assuntos abordados, até pela anarquia com eles estão distribuídos. Ainda assim, quis-se apresentar um conjunto de imagens que em maior ou menor grau, tivessem a ver com o universo da sátira, do absurdo, do erotismo, tentando paralelamente não transigir com o mau gosto declarado ou a pornografia ou, menos ainda, imagens escandalosas no sentido de se obter um efeito imediato.
    Tal não seria difícil, pelo contrário, mas não iria ao encontro daquele nível de subtileza mínimo com que se pretendeu dos textos em si mesmos. Julgo até que algumas das ilustrações fazem, aqui ou ali, o contraponto da crueza de algumas piadas mais ‘duras’.
    Dizia-me alguém, a propósito: ‘Pois, mas por uma questão de coerência, e não de quota, também deverias mostrar homens nus, e não quase exclusivamente mulheres!...’
    Até poderia ser, poderia haver mais imagens de rapagões e dos seus atributos, ou mesmo de situações de actos sexuais mais ou menos explícitos, tendo como pretexto certas anedotas publicadas. Contudo, há que pensar, com bom senso, no nível de aceitação com que a sociedade em que vivemos poderia contemporizar.
    Por uma questão cultural, ainda se aceita melhor – e refiro-me mesmo às mulheres – imagens de nudez feminina, até mesmo de comportamentos homossexuais, de donzelas do que de efebos.
Isto sem pôr em causa a legitimidade das publicações especializadas ou os apreciadores militantes do género, que podem sempre encontrar no papel ou na ‘net’ os seus locais de eleição.
    Exemplo disso é o facto de, na maioria dos filmes que usam a nudez corporal, ser rara a contemplação ostensiva do falo masculino, o que já não acontece com os ‘jardins proibidos’ delas. Concordo, ainda assim, com a crítica, pelo que tão-só poderão visualizar a verga ao seu estado de pousio mas já não terei os mesmos pruridos, se assim se lhes pode chamar, com os atributos do sexo oposto – tempos outros virão. Aliás, a justificação já vai longa para o que não merece tanta tinta.

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