Opinião de Leitura
À Espera no Centeio À Espera no Centeio

Autor: Salinger, J. D.

Leitor: Paulo Neves da Silva

Opinião

A história de um adolescente de 16 anos, numa fase crucial da sua vida, retratada de uma forma assaz mordaz, divertida, e ao mesmo tempo séria, a sabedoria da juventude ou a sabedoria rebelde de quem passa pelas primeiras agruras da vida sem que o seu espírito se adapte ou se molde à cultura mole e insípida da sociedade. É de uma simplicidade e clareza a toda a prova que Salinger consegue transmitir a forma de pensar de um adolescente inconformado, e o contraste entre a sua sabedoria, vincada por tudo o que ele transmite dos seus pensamentos, e o choque com o mundo em que vive, provando aquele cenário de que o mundo é normal para os que cá vivem, mas um verdadeiro circo sem muito sentido para aqueles que começam a viver e tomar consciência dele. E onde têm que fazer uma escolha, entre adormecerem tal como todos os outros, anestesiados pela complexa teia de relações sociais e normas da cultura vigente, e viverem na modorra tépida da massa normalizada, ou darem a volta por cima construindo uma verdadeira sabedoria que consiste em saberem conviver de forma equilibrada com todos os outros mas viverem a sua própria vida com maior plenitude, mantendo uma postura de independência e de (in)satisfação consigo próprios, com o seu olhar mais abrangente sobre a sociedade, tentando dar um contributo para a melhoria da mesma e/ou um testemunho humilde, mas exemplar e único, de vida.

Caulfield recebe essa lição do professor Antonioni, cimentada por alguns episódios práticos com a sua irmã Phoebe, no final do livro, mas é ao longo do romance que Caulfield vai a pouco e pouco se apercebendo dos sucessivos erros que comete, fruto do seu inconformismo, rebeldia e inconsciência de actos que num ritmo alucinante vai cometendo.

Mas seria extremamente redutor limitar a opinião acerca deste livro aos dois parágrafos acima. Salinger tem um estilo de escrita que cativa pela utilização de uma linguagem solta e descontraída, decalque perfeito do estilo de pensamento e de acção de um adolescente, ou daquilo que pensamos que seja o estilo de pensar de um adolescente, quer um actual, quer, noutros leitores mais velhos, o sentir de formas de pensar e situações análogas pelas quais passaram, mas descritas de uma forma que nos faz compreender melhor a nós próprios, e os limites que nós próprios tivemos que nos impor, e uma lufada de ar fresco na identificação de eventuais conceitos e/ou preconceitos que criámos ao longo dos anos e que, porventura, não são tão fruto de uma maturidade, mas sim de uma adaptação forçada a normas da sociedade que, em muitos casos, fazem tanto sentido como quaisquer outras. Ou não fosse o choque cultural entre os vários tipos de sociedade actuais, às vezes até dentro de uma mesma sociedade dentro de um único país ou região, a exemplificar isso.

É um livro que se lê quase sem parar, passe a vulgaridade da expressão, que, aparentemente previsível e corriqueiro quando se inicia a sua leitura, rapidamente eleva em grande medida o seu valor graças ao estilo único de Salinger, que, sentindo-se o perfume de alguns grandes escritores na sua prosa, Salinger, de forma natural, faz esquecer eventuais referências a grandes (Dostoievski ou Kafka nas magníficas introspecções do jovem Caulfield, por exemplo) ou pequenos escritores (muitos que têm também um estilo espontâneo e leviano, mas cuja mediocridade cresce ao correr das páginas), identificando-o como mais um grande escritor que não pode ser rotulado mas sim lido (como qualquer grande escritor) para ser compreendido e para aprendermos mais algo sobre nós próprios através dos seus romances.

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