Opinião de Leitura
O Aleph O Aleph

Autor: Borges, Jorge

Leitor: Paulo Neves da Silva

Opinião

O Aleph é uma colecção de pequenos contos do género fantástico (na sua grande maioria), onde Jorge Luis Borges realça diversos aspectos paradoxais da existência humana, das suas crenças, das suas atitudes, dos seus desejos, dos seus receios, dos seus ideais, e das suas buscas no entendimento da sua condição humana. Jorge Luis Borges encanta-nos com uma escrita superior, onde, misturando um elevadíssimo grau cultural de conhecimento com um requintado poder de cativação do leitor para cada enredo que cria, surpreende quase sempre este, quer pelo desfecho de cada conto em si, quer por tudo aquilo que o escritor nos deixa a pensar, em diferentes mas muito pertinentes ângulos sobre a forma como se pode analisar e avaliar o comportamento humano e as suas motivações.

É impossível fazer um resumo, além do exposto acima, de toda a riquíssima variedade literária dos contos incluídos neste livro. Por esse motivo, seguem-se alguns comentários a cada um desses contos:

.O Imortal
Um conto sobre alguém que procura a cidade dos imortais, onde ele próprio se torna um imortal. Retrata o absurdo que seria se os homens fossem imortais, pelo esvaziamento progressivo e definitivo de todas as motivações de viver.

.O Morto
Um conto que retrata o paradoxo da ambição cega, onde alguém muito ambicioso sente que o seu caminho até ao topo é extremamente simples, não tendo quaisquer pudores ou princípios, esquecendo-se que, quando lá chega, está lá alguém para o empurrar da ravina abaixo.

. Os Teólogos
Um conto extremamente irónico onde dois teólogos se degladiam, defendendo as suas ideias contrárias até ao extremo, levando ambos à morte, onde o mesmo Deus os recebe como iguais, retratando o paradoxo da futilidade dos diferentes caminhos que levam ao mesmo fim.

. História do Guerreiro e da Cativa
Um conto comovente sobre a fatalidade dos nossos desígnios que nem sempre controlamos ou conhecemos, levando-nos, numa situação de contrários e extremos, a mudar-nos para o outro lado. Neste caso, um guerreiro bárbaro que, num cerco a uma cidade romana, se passa para o lado dos romanos, deslumbrado pelo esplendor da civilização, contrastando com a história de uma inglesa que fica cativa de um povo índio, renegando as suas raízes ocidentais.

. Biografia de Tadeo Isidoro Cruz
Um conto que ilustra como por vezes é impossível fugir às nossas raízes. Um guerrilheiro que se torna civilizado, mas que, numa situação extrema, volta a ser guerrilheiro para ajudar outro guerrilheiro.

. Emma Zunz
Uma mulher, cujo pai foi injustiçado e expatriado, vinga-se do seu falso amigo e causador da sua desgraça, por um método em que a própria, premeditadamente, mas ortodoxamente, irá expiar a culpa do homicídio que vai cometer.

. A Casa de Asterion
Um homem que nunca saía da sua (imensa) casa, nem falava, nem escrevia, mas que conhecia tudo sobre os homens. A ponto de não precisar de conviver com eles. Uma excelente reflexão sobre a história mitológica do minotauro, que foi morto porque ninguém o compreendia.

. A Outra Morte
O homem que se acobardou numa guerra e que decidiu recrear o seu passado, fazendo com que se pensasse que tinha morrido heroicamente nessa guerra, ficando com duas datas de morte. A provar que a expiação da cobardia é muito mais penosa do que a cobarde temeridade de um mero acto heróico.

. Deutsches Requiem
A história de um nazi condenado à morte por um tribunal de guerra, onde este, através de uma longa introspecção, tenta justificar toda a motivação de um povo, inebriado e cego pela loucura de uma nova ordem que, para quem o vivia, lhe parecia fazer todo o sentido, apesar de todas as atrocidades. A prova terrível de que não é necessário ter propriamente maus instintos para se ser arrastado, de uma forma consciente e aparentemente consistente, para uma situação onde se mata sem se sentir qualquer remorso ou culpa.

. A Busca de Averróis
A história de um homem que se propõe um fim (em termos de procura do conhecimento) que não está vedado a outros, mas apenas a ele próprio, não obstante a sua grande inteligência. Percebendo tudo o que está por trás do Islão, não conseguia perceber o que queria dizer os termos gregos tragédia e comédia. Corroborando a sua própria tese, onde dizia que só é incapaz de uma culpa quem já a cometeu e já se arrependeu, e que ninguém sentiu nunca que o destino é forte e rude, que é inocente e é também desumano, até viver essa mesma experiência.

. O Zahir
O homem que ficou com a obsessão pelo Zahir (uma pequena moeda), assim como outros ficaram com a obsessão pela imagem de um tigre. Numa única imagem, pode-se concentrar o universo inteiro, ou Deus está por trás dessa imagem. Provando que não é preciso muito para se encontrar a essência do universo, mas que se pode ficar obcecado com essa mesma imagem.

. A Escrita do Deus
Um homem está no cárcere, para toda a vida, mais um jaguar que está separado dele por uma pequena grade. Passa anos e anos a pensar, a tentar encontrar o sentido do universo, e a divindade superior. Acaba por encontrar esse sentido, numa fórmula de catorze palavras casuais. Quem entreviu o universo, quem entreviu os ardentes desígnios do universo, não pode pensar num homem, mesmo que seja nele próprio. Tudo se reduz a uma insignificância brutal, sendo indiferente se se vive livre ou numa prisão.

. Abejacan, o Bokari, Morto no seu Labirinto
Macabra história com duas interpretações possíveis, completamente antagónicas, de um vizir que matou o seu rei ou do rei que matou o seu vizir, em que um atraiu o outro ao seu labirinto, guardado por um escravo e por um leão, onde um deles foi morto e a sua cara desfeita. O rei que matou o seu vizir por saber que ele não era de confiança, ou o vizir que matou o seu rei pela mesma razão? Os efeitos trágicos numa história mágica que dita a perdição da desconfiança.

. Os Dois Reis e os Dois Labirintos
Pequeníssimo mas deslumbrante conto, onde um Rei goza outro por este se ter perdido num muito engenhoso labirinto criado por ele, mas em que este se vinga remetendo-o para um labirinto paradoxalmente inexistente, mas letal.
A soberba de se conhecer algo que o outro não conhece, abusando desse facto, pode pagar um preço muito elevado quando as posições se invertem.

. A Espera
Um homem é perseguido por tempos sem fim, vivendo numa constante ansiedade terrível que o impede de viver. Tanto que o consumar da perseguição se torna um alívio que acaba com a longa tortura, não importando o preço a pagar.

. O Homem no Umbral
A história de um homem violento que foi nomeado para governar uma cidade e pôr tudo em ordem, e que escolheu ser julgado por um louco em vez de outro juiz qualquer, após a revolta empreendida pela população.

. O Aleph
Num único ponto, algures na cave de uma casa, olhando para ele, escrutinava-se todo o universo: todos os acontecimentos e toda a realidade num único instante de contemplação... através dessa mesma contemplação um escritor medíocre e incompreendido escreveu uma obra-prima.

. A Intrusa
Dois irmãos, que viviam sozinhos, e que tudo faziam juntos, em perfeito entendimento, até que um deles trouxe uma mulher para casa. A harmonia desequilibrou-se, e a vida deles tornou-se um inferno. Só havia uma coisa a fazer...
Nem sempre interessa adicionar algo quando aquilo que se tem já é bom.

Em suma, um pequeno livro que encerra um mundo imenso de histórias e paradoxos sobre o homem, em cenários mágicos e habilmente construídos, com muita imaginação, pelo autor, juntando também um extenso conhecimento sobre a história universal, num estilo único que torna este conjunto de contos uma autêntica pérola de literatura, de um autor que, embora nunca tenha escrito um romance na verdadeira acepção da palavra, qualquer um dos seus contos poderia perfeitamente ser a substância de um destes.
É impossível abarcar todos estes contos numa única leitura, tal a quantidade e diversidade de horizontes que estes constroem e que são impossíveis de ser absorvidos de uma só vez.

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