Opinião de Leitura
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Autor: Queirós, Eça

Leitor: Paulo Neves da Silva

Opinião

Artur Corvelo é um jovem tipicamente cheio de ilusões e ambições sobre a vida, com ideais alimentados por todos os exemplos que leu e estudou desde a sua protegida infância de precoces ensinamentos eruditos, instigados e alimentados pelos seus pais, igualmente iludidos quanto ao potencial do seu rebento para uma carreira sonante na sociedade.
Desde cedo Artur Corvelo revelou uma veia poética na qual todos acreditaram e que viria a ser o cerne das suas perenes ilusões quanto à vida, alicerçando-se no exemplo de grandes poetas do passado que foram incompreendidos durante muito tempo até serem reconhecidos. Após um estágio em Coimbra, onde estudou durante dois anos, conheceu a vida boémia dos supostos intelectuais que frequentavam a Universidade, onde foi vagamente aceite mais pela sua admiração e devoção à cultura, que propriamente pelas suas ideias e talento.

Com a trágica morte da sua mãe, e, pouco depois, do seu pai, é obrigado a fazer uma estada na província com umas tias suas, onde, vítima dos seus ideais, arranja uma série de conflitos com toda a gente, sendo salvo por uma súbita herança que lhe permite realizar o sonho de estar num sítio onde todas as suas ambições poderiam ser alcançadas, na capital, Lisboa.

A partir daqui segue-se uma odisseia hilariante e sarcástica da tentativa humilde e ingénua de Artur Corvelo de se evidenciar numa sociedade lisboeta onde reina o egoísmo brutal dos nichos de sociedade e indivíduos que apenas se aproximam dos outros por algum interesse de sua conveniência. Desta forma, vítima de toda a gente, Artur Corvelo, apesar de imensos momentos de ilusória felicidade e ascensão social, intelectual, política, e amorosa, leva revés atrás de revés mas, pacientemente, vai sempre acreditando numa última réstea de esperança, de ambições cada vez mais limitadas, para a sua vida.

O romance é um magnífico retrato da sociedade, não apenas pela descrição detalhada dos costumes da época (final do século XIX), embora o suficiente para não entediar o leitor, mas pela construção psiológica e motivações dos imensos personagens que se cruzam na vida de Artur Corvelo, das suas personalidades mesquinhas e aviltantes, de todas as classes sociais, com os seus círculos de relacionamento hipócritas e enganadores, onde, comparando a vida social na cidade com a vida social na província, as duas diferem apenas no grau e complexidade dos jogos de interesses que se geram entre as pessoas, onde a ingenuidade, a sinceridade e o bom coração são espezinhados e desprezados.

Por ser uma excelente caricatura da sociedade que facilmente identificamos com a sociedade dos nossos dias, onde os costumes são diferentes mas a motivação dos grupos sociais a mesma, e por estarmos perante um enredo de constantes acontecimentos, trágicos e cómicos, com Artur Corvelo constantemente em sarilhos, que causam ao leitor uma grande empatia pela personagem, uma vez que ele é o foco e vítima de toda a marcha cega e fútil da sociedade, este é um romance inesquecível, clássico exemplo de uma aprendizagem de vida e suas frustrações, enriquecido pela diversidade e complexidade das situações que são narradas.

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