Opinião de Leitura
As Velas Ardem Até ao Fim As Velas Ardem Até ao Fim

Autor: Márai, Sándor

Leitor: Paulo Neves da Silva

Opinião

Henrik e Konrad, uma amizade cúmplice apesar de carácteres bem distintos, de pendor mais extrovertido e mundano no caso de Henrik, mais introvertido e introspectivo no caso de Konrad, construída na juventude, é quebrada pelo desaparecimento súbito de Konrad em circunstâncias estranhas, ligadas a um hipotético caso de romance entre este e a mulher de Henrik, Krisztina. Ao fim de 41 anos sem se verem, Henrik recebe finalmente a visita de Konrad, o qual esperava e previa que tal acontecesse, pois para ambos tal seria essencial para celebrar o desígnio de toda uma vida, onde o cerne desta passa por uma amizade forte e desinteressada, onde quase tudo o resto, no final da vida, se revela fugaz e banal, comum a qualquer vivência humana.

Além de condições sociais bem distintas, Henrik de avultados recursos, contrastando com Konrad que consegue singrar no meio académico e militar com grande sacrifício dos pais pobres, Konrad tem uma sensibilidade e alcance de espírito que ultrapassa em muito o simples mas pleno gozo imediato da vida de Henrik, e essa dualidade, embora signifique um complemento recíproco na relação entre os dois, gera uma relação especial entre Konrad e Krisztina, que também tem o mesmo tipo de inclinação espiritual e introspectiva de Konrad.

O encontro final entre os dois amigos, em que Henrik toma a iniciativa de tentar encontrar uma explicação para o sucedido há 41 anos atrás, na posse de um diário de Krisztina que tinha falecido 8 anos após o desaparecimento súbito de Konrad, decorre em crescendo de mistério e suspense quanto ao seu desenlace, mormente por o diário nunca ter sido aberto e por várias dissertações e divagações de Henrik quanto ao sentido da vida, ao que está por detrás das relações entre as pessoas e as suas motivações, e a explicação natural, maturada ao longo dos anos, para tudo o que aconteceu. Num silêncio cúmplice, o pensamento de Henrik parece ir de encontro a uma sabedoria de vida revelada por Konrad, em que, os dois por percursos bem diferentes, parecem ter chegado.

Trata-se de um romance comovente sobre a amizade, onde alguém prefere uma ruptura a um conflito, e onde ambos aparentemente perdem mas salvam a coerência de um sentimento maior, superior a qualquer outro objectivo de vida, de forma nobre e elevada. O diálogo/monólogo de Henrik é cativante pela sinceridade e frontalidade, sem pôr em causa o sentimento comum mas explorando sem tabus todos os meandros de pensamento e comportamento de uma relação estranha mas pura.

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