Opinião de Leitura
A Estrada A Estrada

Autor: McCarthy, Cormac

Leitor: Paulo Neves da Silva

Opinião

Um pai mais o seu filho caminham por uma estrada em direcção à costa, num cenário apocalítico de um mundo que foi completamente destruído por armas nucleares há alguns anos atrás, com escassos víveres que lhes permitam sobreviver, vasculhando casas que já há muito foram pilhadas, derradeiros sobreviventes entre poucos outros que tentam a sua sorte numa realidade horrível onde tudo é válido para se poder viver mais uns dias. Atravessando cidades e montanhas, num clima de Inverno rigoroso, cada dia é sempre um último dia perante as ameaças adicionais de a qualquer momento poderem ter um encontro imediato e serem mortos e comidos por qualquer bando de desesperados como eles.

Na relação do pai com o filho, a inocência e a humanidade do mais novo permanecem apesar de tantas contrariedades e espectáculos macabros a que assiste, mantendo o bom coração que é a restéa de esperança do pai que vacila constantemente entre o suicído dos dois e uma salvação para o filho que não vislumbra, agravada por uma doença que com dificuldade esconde e que adivinha a sua morte para breve.

Numa narrativa de grande qualidade, onde não se poupa o leitor às descrições que se podem esperar numa catástrofe humanitária desta envergadura, é um daqueles livros onde a literatura invade um cenário típico dos livros de ficção científica, e onde os dois géneros se combinam de forma superior trazendo ao de cima o extremo bom e mau do ser humano num combate que vislumbra a salvação através da pureza de um coração jovem que não se desvirtua e que transporta o futuro da humanidade dentro de si.

Excerto

Naqueles primeiros anos, as estradas estavam cheias de refugiados amortalhados nas suas roupas. Usavam máscaras e óculos de protecção, sentados na berma com os seus andrajos no corpo, quais aviadores reduzidos à indigência. Traziam carrinhos de mão a abarrotar de bugigangas, puxavam carroças ou reboques. De olhos a brilhar no crânio. Carapaças de homens sem uma réstia de fé aos tropeções pelos viadutos, como bandos migratórios numa terra fértil. A fragilidade de todas as coisas enfim revelada. Velhos dilemas inquietantes esvaziados de sentido, dando lugar ao nada e à noite. O derradeiro exemplo de uma coisa leva consigo toda a categoria. Apaga a luz e desaparece. Olha à tua volta. Nunca é imenso tempo. Mas uma coisa o rapaz sabia. Que nunca é um breve instante.
(...)
Os dias passavam, vagarosos, sem que ninguém os contasse, os assinalasse num calendário. Lá longe, ao longo da interestadual, enormes filas de carros calcinados e cobertos de ferrugem. O metal despido das jantes mergulhado numa pasta dura e cinzenta de borracha derretida, em anéis enegrecidos de arame. Os cadávares incinerados, mirrados até ao tamanho de crianças e apoiados nas molas molas nuas dos assentos. Milhares de sonhos sepultados naqueles corações reduzidos a lascas de pedra. Eles continuaram a caminhar. Palmilhavam o mundo sem vida como ratinhos numa roda. De noite, silêncio de morte e trevas sepulcrais. Tanto frio. Quase nem falavam um com o outro. Ele tossia constantemente e o rapaz ficava a vê-lo cuspir sangue. Avançavam curvados. Sujos, andrajosos, sem esperança. Ele parava e apoiava-se no carrinho e o rapaz continuava a caminhar e depois parava e olhava para trás e ele erguia os olhos lacrimejantes e via-o ali na estrada, estático, a olhá-lo de um futuro inimaginável, a cintilar naquela aridez como um tabernáculo.

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