Opinião de Leitura
O Homem sem Qualidades O Homem sem Qualidades

Autor: Musil, Robert

Leitor: Paulo Neves da Silva

Opinião

«O Homem sem Qualidades» trata-se de um romance infindável recheado de diálogos e dissertações filosóficas em torno de um personagem, Ulrich, um homem de 32 anos, que, após fugazes tentativas de se tentar tornar, à vez, um militar, um engenheiro, e um matemático, resolve tirar um ano sabático, vivendo dos elevados rendimentos do pai, em que se dedicará a descobrir o sentido da vida para além dos simples aspectos do dia a dia, numa luta constante entre a razão e a alma, com a moral como epicentro. Não se sentindo na realidade ligado a nada, define-se como um homem sem qualidades visto que encara todas as possibilidades como viáveis, mas nunca se decidindo na prática a nada de concreto, sendo a passividade analítica a sua atitude natural.

No primeiro volume (843 páginas) Ulrich é convidado e envolve-se na «Acção Paralela», que consiste na preparação de uma grande ideia e correspondente feito que faça jus à celebração do aniversário dos 70 anos de reinado do imperador Austro-Húngaro Franz Joseph (1830-1916), nas vésperas da I Grande Guerra Mundial. Tido como pessoa indispensável dado a sua largueza de horizontes e profundidade de pensamento, constantemente põe em questão as ideias dos protagonistas do circulo de Leinsdorf, onde prevalece Diotima, sua prima que promove a ascese espiritual, Tuzzi, o diplomata seu marido que conhece os meandros da alta política, Arnheim, o alemão de grande espiritualidade mas de sentido prático, e Stumm, o militar que se interessa pelos assuntos do espírito embora um tanto leigo e de pensamento curto.

As relações de Ulrich estendem-se a um casal de amigos, Walter e Clarisse, ambos intelectuais um tanto neuróticos, ele em constante e acesas discussões com Ulrich sobre qualquer assunto, onde pontifica o ciúme, ela em crescentes divagações alucinadas ao cúmulo de insistir na compreensão da atitude de um louco criminoso homicida, Moosbrugger, que é objecto de análises várias, além da descrição das suas próprias introspecções, ao longo do romance.
O futuro casal Hans Sepp e Gerda é outro pólo das relações de Ulrich, sendo Hans Sepp um adolescente fanático percursor do término de todas as morais e idelogias por um ideal maior, sumamente admirado por Gerda.

Diotima, Clarisse e Gerda, além de Bonadea, amante pontual de Ulrich sem aparentes grandes aspirações de algo mais, manifestam em momentos diversos do romance uma atracção por Ulrich que, no meio de tantos diálogos existencialistas enrola as cabeças de toda a gente sem que nasça lugar para uma relação amorosa consistente.

As crescentes indecisões e dificuldade de convergência de opiniões tão diferentes da Acção Paralela leva a um mal-entendido colossal que provoca uma sublevação popular de tal magnitude que obriga à demissão do ministro do interior, e o esfriamento da «grande ideia», no término do primeiro volume da obra.

No segundo volume (451 páginas) o ênfase é dado a uma nova personagem, Agathe, irmã de Ulrich que logo no início deste volume toma vida aquando da morte e preparativos do funeral do pai de ambos. Algo ingénua e pouco conhecedora da vida, Agathe enceta um processo de divórcio e quase que se apaixona pelo seu irmão, com quem entabula diálogos existencialistas de todo o teor, enfrentando tabus que roçam o incesto, numa relação que ambos baptizam de irmãos siameses, passando a viver na mesma casa embora com o objectivo de se arranjar um novo marido para Agathe.

Pelo meio reactivam-se as neuroses de Clarisse e a sua obsessão por Moosbrugger, pauteadas pela chegada à cena de Meingast, um grande intelectual, admirado também por Walter, que vem trazer ainda mais sabedoria e confusão à cabeça de Clarisse, que, numa desesperada visita ao manicómio de Moosbrugger conduzida por Stumm e Ulrich, emociona-se com a ténue fronteira entre a normalidade e a loucura presenciada nos vários loucos com que contacta.

Num processo litigioso de divórcio onde a ilegalidade chega a ser praticada, o feitiço vira-se contra o feiticeiro e Ulrich e Agathe, após tanta discussão filosófica sobre a moral, sentem que eles próprios é que são os idiotas morais, após uma reacção acutilante do marido de Agathe, Haugauher. Em desespero e com intenções suicidas, Agathe encontra por acaso um defensor da simplicidade das leis da auto-confiança de Ralph Waldo Emerson, Lindner, e após ouvir os seus ensinamentos mais em paz reflecte sobre o seu caminho futuro.

A Acção Paralela, com pouco destaque no início do segundo volume, a pouco e pouco toma de novo o protagonismo: a desilusão de Diotima relativamente aos livros espirituais, a descoberta dos propósitos materialistas de Arnheim, os interesses práticos do ministério da guerra e de Stumm em encobrir a corrida ao armamento sob um propósito pacifista, desencadeiam um grande encontro das elites, onde, sob a égide da descoberta de um novo poeta, Feuermaul, que defende a bondade do homem acima de tudo, leva a Acção Paralela ao encontro de todos os seus participantes, uns iludidos, outros cientes que os propósitos para o grande público serão uns mas a realidade será outra, todos unidos em redor de interesses de alta política num altar onde a bondade será glorificada, mas confusos pelas últimas dissertações de Ulrich sobre o eterno desequilibrio entre a moral e a sensibilidade, provocador da eterna efemeridade em que o mundo vive, mais ainda nos tempos modernos, como se veio a provar poucos meses depois com o eclodir da I Grande Guerra Mundial.

Resumidamente, um romance de elevadíssima qualidade que foi escrito e reescrito ao longo de muitos anos e onde pontifica a discussão de todas a espécie de ideias com uma profundidade pouco habitual para um livro não filosófico. Caracterizador da amplitude abissal do pensamento humano e da obscuridade das suas intenções desde a noite dos tempos, lança pistas em todas as direcções num acumular estonteante de sentimentos e ideias complexos e nunca lineares, tornando o leitor espectador de loucuras sem fim e onde a normalidade não existe mesmo quando aparentemente presente.

Comentários

Segue uma lista de referência de alguns dos temas abordados em «O Homem sem Qualidades», por capítulo:

Vol. I

Cap. 4 - O homem sem qualidades - O homem sem sentido de realidade e que encara todas as possibilidades como eventualmente viáveis.
Cap. 13 - Campeão desportivo ou campeão intelectual.
Cap. 15 - A revolução intelectual de mudança do século, enferma de mediocridade.
Cap. 16 - A aversão universal.
Cap. 24 - A cultura e a civilização.
Cap. 26 - Recuperar a alma, a interior, contra a razão (a Acção Paralela).
Cap. 27 - O cura espiritual.
Cap. 28 - Prós e contras de dedicar a mente ao pensamento.
Cap. 34 - O comodismo à vida ou o rompimento dos costumes
Cap. 35 - PDRI - Parece inútil, mas desencadeira processos.
Cap. 39 - As qualidades dissociadas do carácter.
Cap. 40 - Dissertação sobre o espírito.
Cap. 46 - Os ideais e a moral são o melhor meio de preencher esse grande buraco a que se chama alma.
Cap. 48 - Mesmo nas ideias, o todo é mais que a soma das partes.
Cap. 53 - A liberdade de um homem que se libertou do desejo de viver.
Cap. 54 - O excesso de racionalismo dos tempos modernos e a consequente fragmentação do sentido da vida.
Cap. 57 - As grandes ideias nunca podem ser completamente realizadas.
Cap. 58 - Não há regressos ao passado, o homem está sempre em marcha.
Cap. 59 - A relatividade no comportamento.
Cap. 60 - Julgamentos nos limites da lógica e da moral.
Cap. 61 - A utopia da vida exacta - relatividade e subjectividade, ou utopia.
Cap. 62 - O pouco valor das regras fixas e a evolução vazia da humanidade.
Cap. 65 - Os negócios são semelhantes à literatura. Todas as formas de poder são importantes.
Cap. 66 - O pensamento e a acção. A acção é sempre limitação do pensamento que a origina.
Cap. 67 - A prática versus a profundidade do pensamento.
Cap. 68 - A influência do corpo sobre o espírito.
Cap. 69 - Ninguém faria o que deseja. A realidade muda-se a si própria.
Cap. 71 - Cada grande pensador é uma totalidade e isola-se em si próprio. O homem de acção fica pessimista perante os homens das palavras.
Cap. 72 - O mal como superficialidade do pensamento, incluindo o científico, como retrocesso metafísico.
Cap. 73 - O fatalismo ideologico próprio dos adolescentes.
Cap. 75 - A falsa importância da ordem, que não contribui para o progresso. A história como momentos de inspiração, um poema.
Cap. 76 - A vida autêntica torna-nos mais simples. A razão não basta para uma vida dotada de força.
Cap. 77 - O valor de uma ideia. A importância da actualidade.
Cap. 81 - A política realista. As associações como ópio do povo.
Cap. 83 - A História repete-se ou por que razão não se inventa a História?
Cap. 84 - A vida normal é de natureza utópica. A utopia de uma vida baseada em ideias, impossível mas ideal de uma vida humana.
Cap. 85 - Tentativa de sintetização da sabedoria universal.
Cap. 86 - Todos os caminhos para o espírito partem da alma, mas nenhum a ela regressam.
Cap. 87 - A realidade toma várias formas, dependendo do pensamento e do estado de espírito.
Cap. 88 - As grandes coisas esvaziam o espírito. O perigo da superficialidade.
Cap. 90 - A ideocracia destronada. A força criativa da superfície. Colectividade versus individualidade.
Cap. 91 - A diplomacia como forma de idealismo em baixa.
Cap. 92 - O efeito da riqueza na relação com os outros.
Cap. 93 - A genialidade do movimento do corpo.
Cap. 95 - A escrita ligeira e optimista para as massas.
Cap. 96 - Segredo do grande escritor: nunca radicalizar.
Cap. 100 - O cúmulo refinar da ideia é a morte da ideia.
Cap. 103 - A falta de objectividade e o lirismo do fanatismo adolescente.
Cap. 105 - O pico da felicidade por intermédio do amor espiritual.
Cap. 106 - A indecisão entre a alma e a razão. O home precisa de ser violentado.
Cap. 108 - Um mundo em ordem não necessita do espírito.
Cap. 109 - A força do quotidiano social e dos costumes.
Cap. 110 - A verdade instantânea.
Cap. 111 - A ordem moral é insuficiente para julgar os criminosos.
Cap. 113 - A ascese de uma sociedade de seres puros e sem tabus, culimar de um fanatismo adolescente.
Cap. 114 - A grandeza humana tem raízes no irracional. Cada um deve fazer a sua realidade, a realidade deixou de fazer sentido. O sentimento é limitado.
Cap. 118 - O génio ou a decadência.
Cap. 120 - No limite da teoria e a necessidade de passar à prática, à acção.
Cap. 123 - A contínua dúvida do sentido a dar à vida.


Vol. II

Cap. 3 - Reflexões sobre ser homem ou ser mulher.
Cap. 7 - O homem genial tem o dever de atacar.
Cap. 8 - O conceito de indíviduo e familia. Considerações sobre o destino.
Cap. 10 - As motivações do agir. A moral do nosso tempo, a do passo seguinte.
Cap. 11 - Dissertações sobre a moral. O misticismo. A beleza do coração sem fundo e o espírito sem forma.
Cap. 12 - O limite da normalidade. O estado de graça. Razão e misticismo são uma dualidade essencial em todo o indivíduo.
Cap. 15 - Princípios morais à prova.
Cap. 17 - A desilusão das leituras espirituais.
Cap. 18 - Reflexões sobre a moral e o que deve ser o verdadeiro ideal da evolução humana.
Cap. 19 - Considerações sobre a redenção e caminhos para o futuro.
Cap. 20 - A salvação pela alma e pelo universalismo, contra o nacionalismo.
Cap. 21 - Reflexões sobre o corpo, a idade, a alma e a fusão do espírito.
Cap. 22 - Sentimento versus acção.
Cap. 23 - Reflexões sobre a sexologia e o amor.
Cap. 24 - O embaraço e o encanto da intimidade.
Cap. 25 - Infância e maturidade. A procura da outra metade espiritual e total.
Cap. 26 - A redenção dos pecados. O prazer supremo.
Cap. 27 - O amor inocente.
Cap. 30 - Os idiotas morais no final de tanta sabedoria sobre a moralidade.
Cap. 31 - A confiança em si próprio e os ensinamentos de Emerson.
Cap. 36 - O ser humano é bom se o deixarem em paz.
Cap. 37 - Na superestrutura das elites todos são irresponsáveis.
Cap. 38 - O eterno desequilibrio entre a sensibilidade e a moral como motivo da constante mudança no mundo. O ser humano não consegue viver sem paixão. A História repete-se sempre, com tonalidades diferentes.

Excerto

O ser humano não consegue viver sem paixão. E a paixão é o estado no qual todos os seus sentimentos e ideias se encontram no mesmo espírito. Tu podes pensar, quase ao contrário, que é o estado em que um sentimento se torna todo-poderoso, um único sentimento que atrai a si todos os outros - um arrebatamento! Não, não querias dizer nada? Seja como for, é assim. Também é assim. Mas a força de uma tal paixão é imparável. Os sentimentos e as ideias só ganham continuidade quando se apoiam uns nos outros, na sua totalidade, têm de se orientar no mesmo sentido e arrastam-se uns aos outros. E o ser humano tenta por todos os meios, pela droga, pela ilusão, pela sugestão, pela crença, pela convicção, por vezes apenas recorrendo ao efeito simplificador da estupidez, criar um estado semelhante àquele. Acredita nas ideias, não por elas às vezes serem verdadeiras, mas porque tem de acreditar em alguma coisa. Porque tem de manter os afectos em ordem. Porque tem de tapar com alguma ilusão o buraco entre as paredes da vida, para não deixar que os seus sentimentos se espalhem ao vento. O caminho certo seria o de, em vez de se entregar a estados ilusórios, procurar pelo menos as condições da autêntica paixão. Mas, feitas as contas, embora o número de decisões que dependem do sentimento seja infinitamente superior ao daquelas que se podem tomar com a pura razão, e todos os acontecimentos decisivos para a humanidade nasçam da imaginação, só as questões da razão se mostram ordenadas de forma suprapessoal; para o resto, nunca se fez nada que mereça o nome de esforço comum ou que sugira sequer a consciência da sua desesperada necessidade.

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