Opinião de Leitura
As Intermitências da Morte As Intermitências da Morte

Autor: Saramago, José

Leitor: Paulo Neves da Silva

Opinião

«As Intermitências da Morte» é um romance com duas partes que se podem dizer claramente distintas: na primeira, é ensaiado um cenário global de cessação da morte por um determinado período num determinado país, em que Saramago especula sobre todas as acções e reacções que os vários sectores da sociedade vão naturalmente exercer. Passando pelo governo, igreja, hospitais, agências funerárias, seguradoras, lares de terceira idade e a criação de uma máfia própria que explorará o negócio da morte, este relato encerra uma série de trivialidades lineares que só a grande mestria de escrita de Saramago consegue salvar da vulgaridade e previsibilidade. Vale o exercício e lição (moral?) de que se as pessoas se tornassem imortais seriam mais os problemas, de toda a espécie, que os benefícios, e que a morte (mais a sua imprevisibilidade) é o verdadeiro regulador da sociedade.

Na segunda parte, tomando como balanço o enredo anterior, Saramago envereda por outra história em que a morte, personificada, se vê surpreendida, pela primeira vez na sua vida(!), por uma pessoa a quem ela ordena morrer mas não morre. Segue-se então uma busca e investigação das razões para que tal esteja a acontecer, vendo-se a morte a braços com um caso sem explicação mas que, fatalmente, se encontra para além das suas capacidades: o amor.

Valendo principalmente pelo estilo de escrita de Saramago, cativante e mirabolante para todos os seus apreciadores, «As Intermitências da Morte» valem mais pela segunda parte do livro que propriamente pelo seu todo, sendo contudo um livro razoável se deixarmos um pouco de parte os seus grandes livros do passado («Memorial do Convento», «A Morte de Ricardo Reis», «Ensaio sobre a Cegueira») como referência de comparação.

Comentários

Nota do Editor: «No dia seguinte ninguém morreu». Assim começa este novo romance de José Saramago. Colocada a hipótese, o autor desenvolve-a em todas as suas consequências, e o leitor é conduzido com mão de mestre numa ampla divagação sobre a vida, a morte, o amor e o sentido, ou a falta dele, da nossa existência. Foi na morte que o primeiro escritor de língua portuguesa a receber o prémio Nobel da Literatura procurou material para o seu novo romance. Cansada de ser detestada pela Humanidade, a grande ceifeira resolve suspender as suas actividades. De repente, num certo país fabuloso, as pessoas simplesmente deixam de morrer. E o que no início provoca um verdadeiro clamor patriótico logo se revela um grave problema. Um por um, ficam expostos os vínculos que ligam o Estado, as religiões e o quotidiano à mortalidade comum de todos os cidadãos.

Excerto

Sobre a mesa há uma lista de duzentos e noventa e oito nomes, algo menos que a média do costume, cento e cinquenta e dois homens e cento e quarenta e seis mulheres, um número igual de sobrescritos e de folhas de papel de cor violeta destinados à próxima operação postal, ou falecimento-pelo-correio. A morte acrescentou à lista o nome da pessoa a quem se dirigia a carta que tinha regressado à procedência, sublinhou as palavras e pousou a caneta no porta-penas. Se tivesse nervos, poderíamos dizer que se encontra ligeiramente excitada, e não sem motivo. Havia vivido demasiado para considerar a devolução da carta como um episódio sem importância. Compreende-se facilmente, um pouco de imaginação bastará, que o posto de trabalho da morte seja porventura o mais monótono de todos quantos foram criados desde que, por exclusiva culpa de deus, caim matou a abel. Depois de tão deplorável acontecimento, que logo no princípio do mundo veio mostrar como é difícil viver em família, e até aos nossos dias, a cousa tinha vindo por aí fora, séculos, séculos e mais séculos, repetitiva, sem pausa, sem interrupções, sem soluções de continuidade, diferente nas múltiplas formas de passar da vida à não-vida, mas no fundo sempre igual a si mesma porque sempre igual foi também o resultado. Na verdade, nunca se viu que não morresse quem tivesse de morrer. E agora, insolitamente, um aviso assinado pela morte, de seu próprio punho e letra, um aviso em que se anunciava o irrevogável e improrrogável fim de uma pessoa, tinha sido devolvido à origem, a esta sala fria onde a autora e signatária da carta, sentada, envolta na melancólica mortalha que é seu uniforme histórico, com o capuz pela cabeça, medita no sucedido enquanto os ossos dos seus dedos, ou os seus dedos de ossos, tamborilam sobre o tampo da mesa.

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