Opinião de Leitura
Nenhum Olhar Nenhum Olhar

Autor: Peixoto, José Luís

Leitor: jm

Opinião

   Este é o livro que lançou José Luís Peixoto em definitivo na literatura portuguesa e no mercado do livro. Ganhou o prémio José Saramago e já foi traduzido em várias línguas. Este é o livro que por uma ou outra razão descreve parte da história real de muitos e de um imaginário surreal de outros. O autor reúne os dois factores: a realidade de muitas vidas alentejanas e o surrealismo que se desprende das vidas que se viveram/vivem em determinados locais do Alentejo.
   É importante, julgo, ter a certeza de que falamos do Alentejo. Neste livro conta-se a história de algumas vidas num lugar todo ele feito o mundo inteiro. Neste livro, muitos que o lêem reconhecem traços da sua vida e da sua aldeia de origem: existe um velho muito velho, que resiste a tudo e sobrevive a todos: existe a prostituta da terra, que necessariamente tem alguma deficiência que a impede de realizar o trabalho normal das gente: existe o desgraçado, que por muito avisado que seja acaba sempre por ir ao local errado: existe a religião católica - invocada por uma figura que bem espelha o seu significado em terras do sol que arde -, que desequilibra as relações sociais: existem os cães e as ovelhas e o sol: muito sol: muito muito quente. José Luís Peixoto retrata-nos o Alentejo povoado da gente pobre, cuja única riqueza - a vida - é destruída por, talvez, ali terem nascido ou permanecido.
   O autor escreve o livro numa belíssima prosa poética, com construções visuais excepcionais e repetições voluntárias como que nos obrigando a sentir a dor do tempo/sol infligida na pele.

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