Opinião de Leitura
O Insólito Mr Mee O Insólito Mr Mee

Autor: Crumey, Andrew

Leitor: António Manuel Venda

Opinião

   José Eduardo Agualusa, o escritor angolano que anda quase sempre em viagem pelo mundo, lamenta-se por ter os seus livros espalhados pelas casas de amigos de vários países. O que o salva, já o ouvi confessar uma vez, é a Internet, que considera «a maior biblioteca do mundo». Agualusa não terá sido o primeiro a constatá-lo, e não será certamente o último. Já bem depois dele, o escritor escocês Andrew Crumey arranjou um simpático velhinho para aparentemente fazer igual descoberta, ainda que dentro do universo da própria ficção. É apenas o ponto de partida para este livro, O Insólito Mr Mee.
   O romance de Andrew Crumey faz-se de muitas histórias e de muitas (mas mesmo muitas) confusões que levam o insólito Mr. Mee, o tal velhinho, a descobrir o sexo e as drogas, entre outras coisas que parece ter dificuldade em perceber se são maiores ou menores. Mais histórias e mais confusões que houvesse e em nada ficaria a perder a escrita de uma das vozes seguras da nova literatura europeia.
   Um bocadinho do livro:
   «Seria impossível transmitir-lhe o fascínio do site que encontrei, se não tivesse acontecido o que aconteceu a seguir: a imagem continuou no meu ecrã, mas começou a refrescar-se - uma outra palavra que, entretanto, descobri; suponho que há aqui um uso impróprio, pois suponho que a origem é francesa e que tem a ver com a recuperação da saúde e do vigor através de um reforço alimentar. Só por uma extensão metafórica se pode associar isto à renovação espontânea da imagem que estava no meu ecrã, como se fosse uma bandeira a desenrolar-se, mostrando uma mulher deitada na tal cama, completamente nua. Num momento tinha à frente uma cama vazia e, no seguinte, a imagem imóvel de uma jovem nua, a ler um livro deitada na cama, com uma mão a apoiar a cabeça e a outra a segurar o livro. Fiquei muito intrigado por aquele fenómeno se designar por live video link. Para mim, live queria dizer que o acontecimento a que estava a assistir estava a acontecer naquele preciso momento; e quanto à palavra link, não pode ser latim, nem francês, nem grego. Suponho que deve ter uma ligação nórdica - podemos investigar isso noutra altura.
   Havia tanta coisa intrigante naquele fenómeno que abandonei a jovem na cama ainda antes de a imagem poder refrescar-se outra vez, e voltei ao simpático motor de busca para procurar mais exemplos de live video. Cheguei assim à descoberta verdadeiramente fascinante de um site que mostra a actividade de uma rua de Aberdeen, observada por uma câmara de segurança colocada do lado de fora de um banco. Quem poderia imaginar que seria possível ter acesso a um mundo tão detalhado, com a compra de uma caixinha (ou melhor, de três caixas) por menos de duas mil e quinhentas libras?»

   [Texto retirado da página de António Manuel Venda, www.antoniomanuelvenda.com, Secção 'Crónicas - O Livro da Semana', 16.09.02 – 22.09.02]

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