Opinião de Leitura
Primo Basílio Primo Basílio

Autor: Queirós, Eça

Leitor: José Reguera

Opinião

   1 - Argumento
   A Luísa é uma mulher casada, nova, que mora em Lisboa. Ela é feliz com o marido. Pode-se dizer que pertencem a uma classe-média acomodada, pois têm criados em casa, bem que também não são aristocratas.
   Na casa tinham uma criada, Juliana, e uma cozinheira. A Luísa não simpatiza com a criada, isto pode-se ver já desde o princípio da história.
   O marido da Luísa vai fazer uma viagem ao Alem-Tejo, viagem que demora muito. No tempo em que ela decorre, a esposa recebe a visita dum primo seu, o Basílio, com quem tivera um namoro antes de casar com seu actual marido, e quem não via há vários anos. A Luísa apaixona-se de novo do Basílio, quem se transformará no seu amante, o que descobre a Juliana, quem rouba algumas cartas comprometedoras.
   Daí em diante a criada submete à sua dona a uma ferrenha tirania, sob a ameaça de, ao regresso do marido, pôr no conhecimento dele a aventura amorosa. Deste jeito pretende extorsioná-la, e obter dela o dinheiro que não pôde tirar do Basílio, a quem a amante conta a tirania a que se vê submetida. Ele, que realmente viu em Luísa só o lazer do aborrecimento que acha em Lisboa, rejeita a proposta da mulher para fugirem juntos até Paris, onde ninguém obstaculizasse a sua relação. O Basílio foge e a Luísa, sozinha, vai ter que suportar a mais cruel das tiranias, exercida pela Juliana, pessoa muito bem caracterizada psicologicamente por Eça: maltratada pela vida, doente e ressentida; anseia fortemente aproveitar a situação para obter o dinheiro preciso para poder viver o resto da sua vida sem servir senhores que odeia visceralmente.
   Ora, fugido Basílio, compreende facilmente que a Luísa realmente não dispõe desse dinheiro (pertence à burguesia, e não à aristocracia). Então, contenta-se com obrigar a sua ama a fazer o trabalho que a ela correspondia. Dá-se neste momento uma verdadeira inversão de papéis entre dona e criada. A Luísa acaba fazendo a limpeza da casa, e vê-se obrigada a oferecer continuamente prendas à criada, enquanto esta dorme, descansa ou passeia. A cozinheira, que não chega a comprender o que se passa, estranhada com aquilo, põe-se da parte da Luísa, mas a Juliana, vendo naquela uma inimiga, obriga a sua dona a pô-la na rua, ao que a Luísa não tem outra saída que aceder.
   O regresso do homem, que por sua vez tivera a sua aventura lá no Além-Tejo, o que acidentalmente chega ao conhecimento da esposa por outra carta; não cambeia as cousas. A tirania faz-se insuportável e o marido começa a suspeitar. A Luísa que, abandonada pelo Basílio, continua a amar o seu marido, cai doente, mas conta tudo a um amigo da família, o qual, com a ajuda dum polícia, consegue, na ausência dos senhores, entrar na casa, surprender a criada e recuperar as cartas. Ela, enraivecida, morre nesse mesmo instante, vítima dum ataque ao coração.
   Daí em diante tudo vai melhor, a Luísa melhora da doença, mas o marido tinha descoberto a traição da sua esposa, por uma carta do primo Basílio, na qual oferece à sua antiga amante dinheiro para contentar a criada. Reposta a Luísa da sua doença, o marido conta-lhe que sabe tudo e repreende duramente à sua esposa. Ela, sabendo-se descoberta, adoece de novo e morre em poucos dias.
   Ao cabo duns dias, o Basílio regressa de Paris e fica sabendo da morte da sua amante, o que não perturba muito o seu ânimo, pois para ele só vinha sendo apenas um passatempo.
   Acaba o livro com uma cínica conversa entre o Basílio e um amigo, quem diz que afinal, a Luísa não tinha classe, comentário ao que Basílio, cinicamente, nem sequer responde, indiferente a tudo.

2 - Observações
   Acho algumas cousas a pôr em destaque. Umas são comuns a outras obras do autor; outras, específicas da obra da que falamos:
   a) Quanto ao primeiro, cuido que Eça é um escritor certamente minucioso nas suas descrições, tanto físicas (ambientes, vestimentas, fisionomias), como psicológicas das suas personagens.
   Eça descreve admiravelmente o pensamento, sentimentos, temores, etc. das pessoas que intervêm nos seus romances.
   Julgo que isto situa o nosso autor como um dos grandes da literatura europeia do século dezanove. No entanto, esta minuciosidade faz que, por vezes, a leitura das suas obras possa resultar um tanto cansativa.
   Comum também com outras suas obras é a crítica à aristocracia lisboeta, bem como ao clero, curiosamente. A crítica ao clero, porém, não está presente em O Primo Basílio, como está presente, azeda e mordaz, em A Relíquia, ou em O Crime do Padre Amaro.
   Ora, esta crítica quer ao clero, quer à aristocracia (n'O Primo Basílio será mais bem à burguesia lisboeta), tem alguns pontos comuns nestas obras: o cinismo das personagens, que costuma pôr-se de manifesto no final destas obras. O causante do mal, pertencente ao estamento criticado, conversa amigavelmente com outras pessoas da sua mesma classe social, não se importando com o mal feito, como que sem nem sequer dar por isso (tal acontece com o Padre Amaro ou com o Primo Basílio). Nisto Eça mostra uma grande ironia, que faz parte fundamental da crítica a estes estamentos e aos seus costumes.
   Um outro ponto comum com O Crime do Padre Amaro, ou A Tragédia da Rua das Flores; é o seu final trágico, com a morte da Amélia no primeiro, e da amante do protagonista que depois resultou ser a sua mãe no segundo.
   Ora, cuido que há um Eça completamente diferente ao Eça trágico e azedo destas obras, em A Cidade e as Serras: aqui existe um certo idealismo, idealização da vida da aldeia em contraposição à corrupção e vício que impera na cidade; não isento de intenção moralizante. Aqui o estilo é fresco, não tão carregado de descrições psicológicas, mas paisagísticas. Acho aqui não um escritor de cidade, mas um escritor rural, ou, melhor, um escritor de cidade a idealizar o mundo rural (notação esta comum a muitos escritores portugueses, bem como galegos), numa linguagem mais singela mais livre de galicismos.
   Em conclusão, um outro Eça, que é também o Eça dos contos, nalguns dos quais recria um ambiente rural, noutros urbano, ou medieval, mais situado nas tradições nacionais, menos afrancesado, menos de cidade e mais de vila ou de aldeia; mas sem chegar ao emprego das expressões populares de um Trindade Coelho, por exemplo.
   Nada disto há, porém, em O Primo Basílio, que se pode agrupar com as obras já citadas do autor que se situam no ambiente puramente urbano lisboeta: A Tragédia da Rua das Flores, Os Maias, A Relíquia e em parte O Crime do Padre Amaro (ainda que esta se ambienta numa vila, não numa cidade). Pouco tem a ver com o Eça dos Contos ou d'A Cidade e as Serras.
   b) Quanto ao segundo, quer dizer, o mais específico da obra que comentamos, acho que se pode sintetizar na admirável pintura psicológica que se nos faz da inversão dos papéis ama/criada. Como a criada, na posse das cartas de amor da ama, vai subtilmente dominando quem poucos meses antes tinha todo o poder sobre ela, vai dando a volta a umas rígidas relações impostas ferrenhamente pela sociedade de há um século e que, lembremos, não são as de hoje. Como a vai subjugando até se inverterem completamente aquelas rígidas convenções sociais, nascidas de uma forte diferenciação que na altura operava entre as distintas classes sociais. Muito bem descrita a psicologia da criada, a sua amargura, o seu ressentimento, o seu ódio pela Luísa, a afouteza desesperada de quem, condenado pela sua origem e condição humilde, a ser essencialmente desprezível; vê miraculosamente, acaricia, o fim das suas humilhações, na passagem de dona para criada e de criada para dona, mas sem cair numa idealização falsa do oprimido, pois que, ao tempo e com grande realismo, põe de manifesto o veneno e a maldade que há no coração sem escrúpulos da criada, a qual não duvida em recorrer à ameaça e à extorsão para conseguir os seus propósitos. Eça descreve-nos uma mulher certamente desprezível do ponto de vista moral, o que mesmo na sua morte é posto em destaque: mesmo na sua forma de morrer, a berrar contra a ama e a ameaçar vingança no momento em que é surprendida e obrigada a restituir as cartas roubadas; com uma forte dor no peito produto da sua doença que lentamente lhe ia a tirar a vida. A sua morte acelera-se no momento em que, recuperadas as cartas, tudo vai voltar a ser como dantes. Na verdade, o leitor sente nesse momento um certo alívio, não direi alegria, pela morte da velha criada.
   Há, porém, um ponto que chamou poderosamente a minha atenção, que é o facto de o marido da Luísa também ter cometido adultério na sua viagem ao Além-Tejo. Ora, só o adultério da Luísa é que acaba com a morte dela, enquanto ele, que também foi infiel à sua esposa, não recebe nenhum castigo da sociedade por isso. Ele reprende-a, enquanto ela não ousa dizer nada da infidelidade do homem, mesmo ficando a saber o assunto. Acho fiel reflexo da sociedade da época, benévola com o homem, mas implacável com a mulher, mas curiosamente o facto passa-se quase desapercebido e Eça não carrega aí nas suas críticas, muito fortes contra certos estamentos sociais (clero....) mas aqui, bem que alvo fácil, não parece dar por isso.

3 - Conclusão
   Profundidade psicológica, descrições físicas e psíquicas muito minuciosas e bem logradas, crítica e realismo nas personagens, trágico final, ambiente urbano lisboeta. Tudo isto na linha doutros seus romances: A Relíquia, O Crime do Padre Amaro, A Tragédia da Rua das Flores, Os Maias, ...

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