Opinião de Leitura
Ensaio Sobre a Lucidez Ensaio Sobre a Lucidez

Autor: Saramago, José

Leitor: Paulo Neves da Silva

Opinião

Numas eleições regionais, surpreendentemente, e sem qualquer sinal prévio de que tal fenómeno pudesse acontecer, a esmagadora maioria da população vota em branco. Ainda não refeitos de tal acontecimento, o poder político convoca novas eleições e o fenómeno repete-se. É o sistema político que está em causa, dizem uns, é a própria democracia que está em causa, dizem outros. É preciso encontrar uma explicação para este facto, é preciso prevenir que tal fenómeno não volte a acontecer; sim, principalmente e antes que tudo, é preciso que tal fenómeno não volte a acontecer. O governo, democraticamente eleito, resolve, tal como se fosse um governo ditatorial, aplicar medidas excepcionais, daquelas que encheriam de orgulho um qualquer ditador. À lucidez da população, que exerceu um voto de protesto sobre o sistema político de partidos no qual não se revia, responde energicamente o poder político que, desbaratando a porventura pouca lucidez de que ainda dispunha, com um ataque de cegueira que o leva a colocar toda uma cidade em estado de sitio, sem qualquer tipo de protecção policial, com o objectivo de que os cidadãos, com o passar do tempo, se arrependam amargamente da acção que tiveram e que tudo volte rapidamente à normalidade.

Com muitas disputas políticas pelo meio, dentro do poder político, gera-se um impasse que é quebrado pela chegada de uma carta, de um cidadão que denuncia a possível causa de todo aquele estranho fenómeno que foi o voto em branco. Aqui, dá-se a ligação com os personagens do Ensaio sobre a Cegueira, e o romance muda completamente de rumo dando-se o agudizar da cegueira do poder político, que, à vista de um bode expiatório, envida todos os esforços por forma a seguir uma pista que os leve aos culpados de toda esta situação, mesmo que estes não existam; mas forçosamente estes terão que existir (nem que sejam inventados), terão que ser responsabilizados e assim o poder político, tal e qual uma vulgar ditadura, para que possa distrair toda uma população do seu suposto inconsciente acto de voto em branco, quer levá-los a crer que foram vítimas de uma cegueira, neste caso uma brancura, da qual, segundo esse mesmo poder, se vão encontrar os culpados e tudo voltará depois à normalidade. Evidentemente, tal como tem sucedido em todas as histórias das ditaduras e dos poderes cegos, o poder é impotente face à marcha inexorável da verdade, ainda que, mesmo em face dos factos, o poder mantenha, cega e implacavelmente, todos os seus planos de fria execução até ao fim.

O romance tem claramente duas partes: uma de pendor mais global, em que se satiriza toda uma situação de votação anormal, e as suas consequências quer em termos sociais quer em termos políticos; e uma segunda, onde o plano de acção passa para uma investigação policial a cargo de três homens, que vai incidir sobre um grupo particular de pessoas, e as suas interacções com essas mesmas pessoas, que vai levar a que um dos polícias sofra o mais carismático ataque de lucidez de todos os personagens deste romance, através do qual Saramago vai provar que à conta da lucidez de um só indivíduo se pode alterar completamente o rumo e destinos de toda uma sociedade. Segundo as próprias palavras desse personagem, após o seu ataque de lucidez, «Quando nascemos, quando entramos neste mundo, é como se firmássemos um pacto para toda a vida, mas pode acontecer que um dia tenhamos de nos perguntar Quem assinou isto por mim, eu perguntei».

Dado o mediatismo ocorrido aquando da edição deste livro de Saramago, impõeem-se algumas notas finais: com ou sem paralelismo deste Ensaio sobre a Lucidez com o Ensaio sobre a Cegueira, denota-se, para quem já tenha lido outros livros de Saramago, uma certa superficialidade na exploração do tema e na própria elaboração da narrativa, que, não obstante a aplicação do seu estilo inconfundível, não chega a entusiasmar da mesma forma que um Ensaio sobre a Cegueira, livro de narrativa épica e extremamente rico de emoções e de demonstração de aspectos caricatos dos indivíduos e de toda uma sociedade num ambiente de completo caos onde se revela tudo o que de bom e sobretudo de mau o ser humano é capaz, denunciando todas as fragilidades de organização da actual sociedade moderna. Ensaio sobre a Lucidez fica muito aquém desse grande livro, valendo ainda assim como outro original exemplo de descrição da fragilidade da sociedade política, embora fracamente explorado face à mestria que Saramago nos habituou em outros grandes romances da sua notável obra.
Além do facilitismo e queda frequente em lugares-comuns de acontecimentos recentes da nossa sociedade, com pobre desenvolvimento por parte do autor, a própria evocação dos personagens do Ensaio sobre a Cegueira parece um remendo de que Saramago se serve para dar um rumo mais condigno à evolução da narrativa, como que se servindo dos seus peso-pesados, mas aqui assiste-se a uma segunda desilusão, pois parece ser um Saramago desinspirado que vulgariza mais uma vez a narrativa, sem que o romance alcance aqueles momentos apoteóticos a que Saramago nos habituou em outros romances,.

Concluindo, Ensaio sobre a Lucidez é um livro que se recomenda a quem já tenha lido outros livros de Saramago, como complemento à sua obra, mas sem acrescentar nada de significativo a esta, valendo pela tentativa que Saramago fez, e qualquer tentativa literária de Saramago merece ser lida por aquilo a que o habitual leitor de Saramago aprendeu a respeitar da mestria de escrita deste invulgar escritor e do seu invulgar estilo de escrita, mas, a fim de preservar a merecida reputação de grande escritor de Saramago, não é o livro que aconselharia a alguém que nunca leu nada de Saramago, a não ser que o leitor iniciado se digne, logo após a leitura deste livro, ler um dos seus romances «maiores», tais como O Ano da Morte de Ricardo Reis, Memorial do Convento ou Ensaio sobre a Cegueira, apenas para citar alguns dos que a crítica, por unanimidade, considera grandes romances deste grande escritor, e assim ficar com uma ideia mais fidedigna da real valia literária do nosso prémio Nobel.

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