Citalivre - Temas



  

840 Citações

>>

bevilacqua , wellington

test

test
Paulo Neves da Silva, Oeiras

Kandahar, Wallace , Silva de Oliveira

Qualquer coisa, a qual não se possa renunciar, quando termina a sua utilidade, irá possuí-lo, e nesta era materialista, muitos de nós estão possuídos pelas suas posses.

http://pt-br.facebook.com/pages/Frases-de-Criminal-Minds/279408472087151
Elsa Carmo, Faro

Freire , Paulo André

QUERO MORRER No concelho de Cantanhede, entre a Comunidade de S. José e S. Caetano, escondido e protegido no meio dos pinhais, corre um pequeno lago a que os admiradores chamam, com respeito e afabilidade, a Ilha. Não é uma ilha no verdadeiro sentido literário da palavra, mas tem todo o encanto, toda a beleza e toda a serenidade que idealizamos quando pensamos numa ilha. É de tal maneira assim, que desde que lá fui pela primeira vez aos 6 ou 7 anos, me recuso a chamar-lhe outra coisa que não seja a Ilha. A Ilha é o meu primeiro destino de férias e hoje, tal como da primeira vez, o meu primeiro gesto foi mergulhar as mãos na água. As margens não mudaram e a água parece a mesma de há 15 anos atrás. O tempo não parece ter passado por aqui. Mas estas mãos já não têm a mesma leveza e o rosto que a corrente teima em reflectir não tem a inocência de outrora. O tempo tem passado por mim. Se cá puder voltar daqui a 15 anos, o rio e o leito estarão por ventura imutados, mas as mãos mergulhadas na água serão menos sensíveis do que hoje e o rosto espelhado não será, com certeza, tão contemplativo. O tempo não passará por aqui, mas continuará a passar por mim... Toda a nossa existência esta organizada por dicotomias: estamos felizes ou infelizes, estamos contentes ou tristes, estamos doentes ou com saúde, amamos ou odiamos, estamos apaixonados ou de mal com o mundo, estamos vivos ou mortos... A vida é insossa ou salgada, nunca tem o sabor que gostaríamos que ela tivesse. Experimentamos e aceitamos estas dicotomias em todos os momentos das nossas vidas. Às vezes até nos fazem jeito. Mas há uma de que fugimos todos os dias: a morte como parte da dicotomia com a vida. No caminho de incertezas que defrontamos diariamente, a morte é talvez a única coisa que sabemos certa, mas ainda assim é ela que nos apanha mais desprevenidos. Nunca estamos preparados para morrer porque em vida nos preparamos sempre para viver o dia seguinte. Nunca estamos preparados para perder alguém de quem gostamos muito porque nunca lhe dissemos o que realmente sentíamos. E o tempo, como diz o povo, não perdoa. Se um dia o mestre da lâmpada descesse do mito à realidade não tenho a menor dúvida de que o desejo mais escolhido seria o da imortalidade. Mas que faríamos com uma vida sem fim? Apenas teríamos sempre mais um dia para fazer o que devíamos fazer já. Uma vida eterna faria desaparecer um dos sentimentos que mais nos distingue: a saudade. Alguém disse que a “saudade não significa que estamos longe, significa que um dia estivemos juntos”. A singularidade desse dia só é possível numa existência limitada. Jamais trocaria a saudade pela imortalidade. O tempo não é o mau da fita. O tempo dá sentido às coisas e, por consequência, à vida. O tempo é simultaneamente o “pai” rígido que nos lembra as nossas obrigações e a “mãe” compreensiva que nos dá espaço para o encontro com os outros. A morte representa o fim do nosso tempo e a peça chave da nossa última dicotomia. A morte é o último privilégio de quem teve o privilégio de viver. Não adianta pedir perdão ao tempo ou sonhar com o génio da lâmpada. Quero viver até ao último dia da minha vida mas quero morrer no dia da minha morte. Se puder viver até aos 80 anos, não permitirei que ninguém me vete o prazer de voltar à Ilha. Quero voltar a mergulhar as mãos, ou pelo menos a bengala, no seio da corrente e quero ver o reflexo do rosto enrugado, para depois fechar os olhos e recordar, com saudade mas sem tristeza, a imagem do miúdo de 6 anos que com a Ilha aprendeu a contemplar a natureza e a perceber o significado do tempo.

Paulo Freire Publicado no Jornal "Auri Negra" em 2000
Paulo Freire, Coimbra

Freire , Paulo André

NIRVANA Finalmente o dia acaba. Tiro a bata, arrumo a mala apressadamente, ajeito a roupa pelo corredor e abalo para o carro. Desde há 3 meses que esta é a melhor parte do dia. As nossas vidas são entrecortadas por inúmeros momentos importantes. Os carinhos e devaneios de criança. O primeiro beijo, o primeiro amor, a primeira relação sexual. O primeiro desgosto e o fim do mundo ali tão perto. O primeiro trabalho e o primeiro ordenado. A dor de perder alguém que amamos, quando tudo deixa de fazer sentido de repente e o tempo, em vez de ajudar, acentua a saudade do que ainda faltava viver. O nosso passado é feito de todos estes marcos, de todas estas dúvidas e encruzilhadas, de todos estes episódios que a memória nos relembra sob a forma de recordações. Mas, mais do que de tudo o que possamos viver, do que todo o sofrimento que consigamos suportar, do que a maior alegria, do que o mais arrebatador dos amores ou do que a tristeza que nos dilacera irreversivelmente, só um acontecimento na vida, e apenas esse, é capaz de dividi-la em duas partes irremediavelmente diferentes: o nascimento de um filho. A partir daí já nada mais será igual. Podemos esquecer tudo o que fizemos, tudo o que dissemos, as definições que conhecemos, às vezes até aquilo em que acreditamos. Esse dia mágico muda tudo e para sempre. Tudo, mesmo tudo, passou a tê-lo como fulcro. Não há nada, mesmo nada, que lhe possa ser indiferente. A nossa própria saúde passa a ser mais importante, não porque tenhamos passado a gostar mais de nós, mas porque somos invadidos por um súbito altruísmo que cria o instinto da necessidade de estar vivo para poder dar-lhe tudo o que ele precisa. As prioridades adquirem o carácter singular duma só prioridade: ele. O que antes nos parecia indispensável ganha o estatuto de supérfluo. E percebi que o passado foi apenas o que tive de viver até te encontrar. Que tudo começa realmente aqui. Que a vida afinal tem sentido e que o futuro só existe ao teu lado. Que o enamoramento não é o cume do amor e que a paixão é um consolo menor. Que os dias não são todos iguais e que o quotidiano é um coração entediado. Que o tempo foi inventado e as horas só servem para poder contar quanto falta para estar contigo. Que a estrada só existe para me levar até ti e que o meu coração só bate para te ver. Que tu és, simplesmente, tudo…tudo o que preciso para viver o resto da minha vida. Que não voltaria a acordar sem o teu olhar. Que és o fado da minha vida e que me fizeste entender os anseios dos teus avós. O ranger da fechadura irrompe pelo silêncio integral da casa. Na sala, no sofá, o André e a mãe dormem serenamente, ele sobre o peito dela e ela a embalá-lo com as expansões torácicas. Resisto à tentação da máquina fotográfica ali ao lado. Sento-me no sofá oposto e decoro cada pormenor para quando me fizerem falta. São tão simples os momentos mais felizes da nossa vida…

Paulo Freire Publicado no jornal "Diário de Coimbra" em 11/IX/2007
Paulo Freire, Coimbra

Freire , Paulo André

O QUE É O AMOR Quando aprendi a ler, decidi vingar-me de todas as letras que tinha em casa e que durante anos me tinham olhado a sorrir por saberem que não as podia entender. Era tempo de eu me rir delas. Lia tudo o que me aparecia e depois colocava-o na gaveta, com a displicência de quem pode dizer “já te conheço de ginjeira”. O meu dicionário Lello Escolar é uma relíquia que guardo desde esses tempos. Foi um importante amigo que me ajudou a compreender as palavras que se faziam difíceis. Há medida que o tempo tem passado, tenho vindo a perder o encanto por esta amizade porque, ao contrário de antes, não encontro no meu amigo as respostas integrais para as duvidas que me assolam. Quando o questiono sobre o significado da amizade, da saudade, da felicidade, do amor e de outros sentimentos, oiço uma resposta que já não me sacia como nos tempos de outrora. Tenho a sensação que fica sempre algo por dizer. Sobre o amor, por exemplo, disse-me que é um sentimento que nos induz a obter ou a conservar a pessoa ou a coisa que nos agrada sobremaneira. É isso o amor? É só isso o amor? Que amigo tão ingrato! Não fosse o respeito que todos estes anos me exigem e eu dizia-te onde ias parar! Tento com este texto acrescentar um pouco a esta definição. Não tenho a presunção de a completar porque duvido que seja capaz. Aliás, este parágrafo que agora termina, à semelhança dum prefácio, foi escrito depois das linhas que se seguem, e assumo que no meu intimo sinto que algo, algo muito grande, ficou por dizer... O amor é o alimento da vida e o antídoto para o veneno da morte. É mais difícil morrer depois duma vida preenchida de amor mas é impossível, ou no mínimo insuportável, viver sem ele. O amor é o alimento da vida. E o mais paradoxal é que até os desgraçados que vêem chegado o seu último dia antes de serem invadidos pelo amor, davam tudo para viver só mais um momento desde que esse momento fosse preenchido desse raro sentimento. É mais difícil morrer a quem em vida foi discípulo de Cupido, mas sofre-se mais se nunca se perdeu a cabeça por um amor. O amor é o antídoto da morte. Quem amou tem pena de morrer porque adorou amar, mas não sofre porque voltaria a amar da mesma maneira. Quem fugiu do amor ou não soube amar não tem pena de morrer, mas é destroçado pelo sofrimento de quem gostaria de ter feito as coisas de forma diferente, mas já não tem tempo para o mudar. Um amor arrependido é sempre um amor que não se viveu. O pior que pode acontecer a um amor vivido é passar a recordação. A melhor maneira de morrer é ter o coração cheio de amor ou preenchido de recordações. O amor é totalitário e egoísta. Podem amar-se várias pessoas mas não se podem amar da mesma maneira. Há amores diferentes em qualidade, mas não há diferentes quantidades para a mesma qualidade. Cada qualidade de amor só permite uma pessoa. Amamos o nosso pai, a nossa mãe, os nossos irmãos e o nosso amor (este último merece o nome de nosso amor porque é o único que foi escolhido por nós e o único que nos podemos dar ao luxo de ilusoriamente substituir). São todos amores reais, intensos e compensadores. Mas são também todos diferentes e por isso compatíveis e não excludentes. No entanto, cada um deles, quando verdadeiro, exclui outro amor da mesma categoria, ou seja, da mesma qualidade. Não é possível amar com o mesmo sentimento um pai e um padrasto da mesma forma que é impossível amar o conjugue e um amante. O coração só permite uma pessoa em cada gavetinha. Quando nos iludimos com um novo amor da mesma qualidade, é disso mesmo que se trata – duma ilusão. A gavetinha estava vazia e assim continuará, porque o suposto novo amor que não implica o fim do suposto primeiro, também não é o amor de “gavetinha”. O amor de “gavetinha” é aquele que depois de preencher a gaveta, a fecha e atira as chaves para um local a quem nunca ninguém teve nem nunca terá acesso. É triste, ou até talvez seja bom, mas só se ama realmente uma vez. Podem viver-se amores mas só se vive um amor. Pode morrer-se de amor mas nunca se morre de amores. O amor é por natureza único e intransmissível. Muitas vezes não se vive toda a vida, nem sequer a maior parte da vida, com quem nos preencheu a gaveta. Por vezes vivemos mais tempo e até mais coisas com alguém que já não pode entrar na gaveta preenchida. Mas tudo é melhor do que viver toda a vida com a gaveta vazia, mesmo que durante todo esse tempo se tenha estado acompanhado. O amor é uma simbiose de emoção e admiração. No início gostamos de alguém que admiramos e mais tarde admiramos alguém de que gostamos. Um amor verdadeiro inicia-se com admiração e é no domínio da admiração que dá os primeiros passos. À medida que se vai desenvolvendo, a admiração vai cedendo importância à emoção que se vai tornando cada vez mais preponderante e acaba mesmo por assumir o fulcro do amor. No entanto, a admiração tem de permanecer presente, porque órfã de admiração, a emoção não vive muito tempo. O amor implica admiração. Dizer que se ama e que se admira alguém é proferir um pleonasmo. Podemos admirar sem amar, mas é impossível amar sem admirar. Um amor sem admiração é um carinho ou um devaneio de ternura, mas não é um amor. Amar implica gostar com o coração e a cabeça, que é como quem diz, com emoção e razão. Gostar só com emoção é não gostar, ou melhor, é querer gostar. O amor é gostar sem querer e não conseguir deixar de gostar mesmo que se queira. As razões que a razão desconhece só surgem quando se gosta também com a razão. Porque a razão só se deixa fintar quando esta enamorada. O amor é uma tragédia. A mais bonita e empolgante tragédia que se pode viver. A tragédia mais complicada e paradoxal que a vida nos permite experimentar. O amor é o que não sei dizer e é tudo o que digo. É indizível mesmo quando se diz. E é muitas vezes dito sem se dizer. O amor é tudo o que vale a pena, tudo o que nos basta, tudo o que nos resta. Quando aprendi a ler, decidi vingar-me de todas as letras que tinha em casa e que durante anos me tinham olhado a sorrir por saberem que não as podia entender. Era tempo de eu me rir delas. Lia tudo o que me aparecia e depois colocava-o na gaveta, com a displicência de quem pode dizer “já te conheço de ginjeira”. O meu dicionário Lello Escolar é uma relíquia que guardo desde esses tempos. Foi um importante amigo que me ajudou a compreender as palavras que se faziam difíceis. Há medida que o tempo tem passado, tenho vindo a perder o encanto por esta amizade porque, ao contrário de antes, não encontro no meu amigo as respostas integrais para as duvidas que me assolam. Quando o questiono sobre o significado da amizade, da saudade, da felicidade, do amor e de outros sentimentos, oiço uma resposta que já não me sacia como nos tempos de outrora. Tenho a sensação que fica sempre algo por dizer. Sobre o amor, por exemplo, disse-me que é um sentimento que nos induz a obter ou a conservar a pessoa ou a coisa que nos agrada sobremaneira. É isso o amor? É só isso o amor? Que amigo tão ingrato! Não fosse o respeito que todos estes anos me exigem e eu dizia-te onde ias parar! Tento com este texto acrescentar um pouco a esta definição. Não tenho a presunção de a completar porque duvido que seja capaz. Aliás, este parágrafo que agora termina, à semelhança dum prefácio, foi escrito depois das linhas que se seguem, e assumo que no meu intimo sinto que algo, algo muito grande, ficou por dizer... O amor é o alimento da vida e o antídoto para o veneno da morte. É mais difícil morrer depois duma vida preenchida de amor mas é impossível, ou no mínimo insuportável, viver sem ele. O amor é o alimento da vida. E o mais paradoxal é que até os desgraçados que vêem chegado o seu último dia antes de serem invadidos pelo amor, davam tudo para viver só mais um momento desde que esse momento fosse preenchido desse raro sentimento. É mais difícil morrer a quem em vida foi discípulo de Cupido, mas sofre-se mais se nunca se perdeu a cabeça por um amor. O amor é o antídoto da morte. Quem amou tem pena de morrer porque adorou amar, mas não sofre porque voltaria a amar da mesma maneira. Quem fugiu do amor ou não soube amar não tem pena de morrer, mas é destroçado pelo sofrimento de quem gostaria de ter feito as coisas de forma diferente, mas já não tem tempo para o mudar. Um amor arrependido é sempre um amor que não se viveu. O pior que pode acontecer a um amor vivido é passar a recordação. A melhor maneira de morrer é ter o coração cheio de amor ou preenchido de recordações. O amor é totalitário e egoísta. Podem amar-se várias pessoas mas não se podem amar da mesma maneira. Há amores diferentes em qualidade, mas não há diferentes quantidades para a mesma qualidade. Cada qualidade de amor só permite uma pessoa. Amamos o nosso pai, a nossa mãe, os nossos irmãos e o nosso amor (este último merece o nome de nosso amor porque é o único que foi escolhido por nós e o único que nos podemos dar ao luxo de ilusoriamente substituir). São todos amores reais, intensos e compensadores. Mas são também todos diferentes e por isso compatíveis e não excludentes. No entanto, cada um deles, quando verdadeiro, exclui outro amor da mesma categoria, ou seja, da mesma qualidade. Não é possível amar com o mesmo sentimento um pai e um padrasto da mesma forma que é impossível amar o conjugue e um amante. O coração só permite uma pessoa em cada gavetinha. Quando nos iludimos com um novo amor da mesma qualidade, é disso mesmo que se trata – duma ilusão. A gavetinha estava vazia e assim continuará, porque o suposto novo amor que não implica o fim do suposto primeiro, também não é o amor de “gavetinha”. O amor de “gavetinha” é aquele que depois de preencher a gaveta, a fecha e atira as chaves para um local a quem nunca ninguém teve nem nunca terá acesso. É triste, ou até talvez seja bom, mas só se ama realmente uma vez. Podem viver-se amores mas só se vive um amor. Pode morrer-se de amor mas nunca se morre de amores. O amor é por natureza único e intransmissível. Muitas vezes não se vive toda a vida, nem sequer a maior parte da vida, com quem nos preencheu a gaveta. Por vezes vivemos mais tempo e até mais coisas com alguém que já não pode entrar na gaveta preenchida. Mas tudo é melhor do que viver toda a vida com a gaveta vazia, mesmo que durante todo esse tempo se tenha estado acompanhado. O amor é uma simbiose de emoção e admiração. No início gostamos de alguém que admiramos e mais tarde admiramos alguém de que gostamos. Um amor verdadeiro inicia-se com admiração e é no domínio da admiração que dá os primeiros passos. À medida que se vai desenvolvendo, a admiração vai cedendo importância à emoção que se vai tornando cada vez mais preponderante e acaba mesmo por assumir o fulcro do amor. No entanto, a admiração tem de permanecer presente, porque órfã de admiração, a emoção não vive muito tempo. O amor implica admiração. Dizer que se ama e que se admira alguém é proferir um pleonasmo. Podemos admirar sem amar, mas é impossível amar sem admirar. Um amor sem admiração é um carinho ou um devaneio de ternura, mas não é um amor. Amar implica gostar com o coração e a cabeça, que é como quem diz, com emoção e razão. Gostar só com emoção é não gostar, ou melhor, é querer gostar. O amor é gostar sem querer e não conseguir deixar de gostar mesmo que se queira. As razões que a razão desconhece só surgem quando se gosta também com a razão. Porque a razão só se deixa fintar quando esta enamorada. O amor é uma tragédia. A mais bonita e empolgante tragédia que se pode viver. A tragédia mais complicada e paradoxal que a vida nos permite experimentar. O amor é o que não sei dizer e é tudo o que digo. É indizível mesmo quando se diz. E é muitas vezes dito sem se dizer. O amor é tudo o que vale a pena, tudo o que nos basta, tudo o que nos resta.

Paulo Freire Publicado no Jornal "Diário de Coimbra" em 2001
Paulo Freire, Coimbra

Freire , Paulo André

A PERVERSA BUSCA DA FELICIDADE A felicidade, classicamente o mais democrático e transversal dos sentimentos, é cada vez mais uma ditadura da actualidade que vivemos. A felicidade, mais até que o amor, é uma imposição tácita dos nossos dias. Arroga-se com facilidade, coragem e determinação a ausência do enamoramento, da paixão e do amor, mas ninguém é capaz de assumir, com tranquilidade e esperança, um estado que não seja de felicidade. Não estar feliz passou a ser um feito ilícito, uma fraqueza, até mesmo um acto de cobardia se não for acompanhado duma qualquer atitude reactiva que destrua tudo o que se construiu. A felicidade tornou-se um dever, uma obrigação, algo a que somos permanentemente coagidos. A felicidade deixou de ser algo que acontece para ser algo que se procura, converteu-se em algo que se pode encontrar em vez de algo que se pode dar. A felicidade não se pode preparar como quem segue uma receita ou erige um edifício previamente planeado. Não é programável, conjecturável nem passível de indução. Não vai lá com uma ajudinha, com umas velas a compor um jantar nem com umas ilhas gregas a disfarçar os problemas. A felicidade é simples e imprevisível. Mora na conivência dum olhar, na ternura dum beijo, no conforto do silêncio, na obscuridade dum gesto, nos despretensiosos e imponderáveis momentos de vida de que o acaso se incumbe com a cumplicidade do amor. A felicidade não é algo que se seja. O ser implica constância, continuidade, quotidiano, rotina, crescimento e maturação, características que a felicidade não pode congregar. A felicidade é algo que se pode estar. Que se pode estar hoje, agora, neste momento, sem condições, sem promessas, com ilusões mas sem cobranças. É um desejo que adicionado de tempo se transforma na esperança de vir a estar feliz. Querer ser feliz em vez de querer estar feliz, é hiperbolizar o protagonismo do desejo desprovendo-o da indispensável ponderação que o tempo lhe confere, asfixiando a esperança no futuro, criando a urgência dum presente que não existe, instalando a angústia onde antes reinava a expectativa. Não ser feliz é ser infeliz. Não estar feliz não implica necessariamente que se esteja infeliz. Ser alguma coisa é dicotómico: ou se é ou não se é, ponto final. O estar é diferente. Pode estar-se uma coisa ou outra, ou simplesmente não estar coisa nenhuma, uma espécie de intervalo até que alguma coisa aconteça de novo. A maioria dos problemas das nossas vidas resulta disto mesmo: de querermos ser o que afinal só podemos estar. Exasperados com aquilo que não somos nem sequer nos resta lucidez, tempo e longanimidade para estar o que queríamos ser. No final não somos nem estamos nada do que queríamos e acabamos por ser exactamente aquilo que não desejávamos: infelizes. Há caminhos que não têm retorno e há retornos que não são caminhos. Os sensatos procuram a felicidade nos caminhos, os infelizes perdem-se nos retornos. A felicidade é irrepetível. Poderemos estar felizes várias vezes, até com a mesma pessoa, mas nunca da mesma maneira. A felicidade renova-se mas não se repete. É por isso que nos move a busca da felicidade. É por isso que é bom estar feliz. É por isso que custa viver depois da felicidade. A felicidade regenera-se mas não se substitui. Nenhum momento feliz relativiza a importância e a memória duma felicidade passada. Cada felicidade vive de si própria e vale por si mesma e quando decide morrer, morre, mesmo que não haja outra felicidade para ser vivida. E quando morre deixa-nos a memória, que é como quem diz, a sua alma, lembrança indelével para quem se iludiu e acreditou que a viveria para sempre. A felicidade é um momento. Um momento onde pode caber uma vida e valê-la também…

Paulo Freire Publicado na “Revista C” (29/IX/2011)
Paulo Freire, Coimbra

Freire , Paulo André

O QUE A VIDA É Em 1994, tinha eu 16 anos, aquela idade em que as dúvidas da existência se cruzam com a vertigem da vida real, quando vi um filme marcante para a época e insofismável no meu percurso. Forrest Gump era o título da obra e também o nome da personagem principal interpretada por Tom Hanks, um indivíduo peculiar, louco dirão alguns, cujo percurso e estranha perseverança sublinhavam a essência e a simplicidade da vida que tantas vezes nos encarregamos de complicar. A vida é, estou a citar, “uma caixa de chocolates”, uma espécie de sortido à mercê das nossas escolhas, alegorizando o papel que as opções e a aleatoriedade têm nas nossas vidas. Essa perspectiva de vida enraizou-se no meu intimo à medida que se acumularam no meu percurso os múltiplos exemplos comprobatórios da sua veracidade, sem espaço sequer para a célebre excepção que deveria confirmar a famigerada regra. E foi assim até que o meu filho, com 4 anos, me fez perceber que a vida é outra coisa: a vida é o carro do Noddy do André! E estou em condições de o comprovar… O dito automóvel, presente que o André recebeu quando tinha um ano de idade, andava quando o Noddy era posicionado no assento, mantendo a marcha até à finitude das baterias ou à ordem de ejecção do boneco determinada pelos dedos em pinça do meu pequeno comandante, movimento repetido exaustivamente com uma alegria que o tempo vai ter dificuldade de me fazer esquecer. Ao contrário dos outros brinquedos automatizados que repousam no sótão depois de aviarem meia dúzia de pilhas, o carro do Noddy mantém um lugar de garagem privilegiado na estante que fica ao lado da cama. E porquê? Porque o seu sistema de funcionamento se avariou e o André passa os dias a imaginar alternativas para o fazer funcionar. Debaixo do assento já colocou, entre outros, pedaços de papel, borracha e plasticina, todos com sucesso parcial e transitório. De manhã, quando acorda, é frequente vê-lo a olhar fixamente o automóvel e sou capaz de jurar que procura encontrar um novo esquema mais perfeito… As relações que funcionam, que duram, que valem a pena, acontecem entre pessoas que não encaixam na perfeição, que têm de mudar coisas, procurar equilíbrios, exigir e ceder. Quando se compatibilizam funcionam algum tempo até que voltam a emperrar e têm de reflectir novamente, limar arestas, granjear trilhos distintos, remodelar o que haviam construído. Amar, sobretudo continuar a amar, dá muito trabalho. As relações perfeitas, construídas sem negociações, sem necessidade de ajustes, funcionam mais cedo e até porventura melhor, mas não tarda esgotam-se as pilhas e a imaginação e resta-lhes um “sótão” para repousar. É por isso que não acredito no amor à primeira vista e fugi das relações em que éramos feitos um para o outro. Numa dessas manhãs, sem desviar o olhar hipnotizado, o André perguntou-me: “Podes pedir àquele mágico das roupas pretas que aparece na televisão para criar uma magia que faça o meu carro andar quando bato palmas?”. Caro Luis de Matos há alguma coisa que se possa fazer?

Paulo Freire Publicado no jornal "Diário de Coimbra" (14/09/2011)
Paulo Freire, Coimbra

Freire , Paulo André

AMOR TRAÍDO PELO PASSADO Não há volta a dar: o amor é estúpido. Esta verdade é tão inabalável que não acredito em nenhum amor que não seja estúpido nem em nenhum enamorado que não esteja estupidificado. Quando se consegue racionalizar, analisar prós e contras, ser ponderado, ver a nossa perspectiva e a recíproca de quem esta connosco, quando se é capaz não só de perdoar mas também de esquecer, de desagregar a vida profissional da afectiva, de separar o passado do futuro, de resistir à tentação de cobrar a nossa entrega e se consegue dar um tempo como quem tira umas férias…é porque ainda não se esta suficientemente estúpido e de amor não se tem mais do que uma ilusão. No dia em que se dissiparem as certezas, se questionarem as verdades irrefutáveis, se dispensar a lógica que deixa de ter lógica alguma, se revolverem as entranhas em sintonia com alma, quando a lucidez passar a ser uma coisa que se teve, o ritmo circadiano abandonar a prática para ser algo que só conhece dos livros e se apagarem as datas transformando o passado e o futuro num contínuo que ensombra o presente…nessa altura esta em marcha a extrema e perigosa estupidez do amor. A partir daqui devia ser obrigatório ser portador duma identificação que assinalasse o estado de “totó inimputável”. As chatices, os equívocos e os julgamentos de carácter que se poupariam se fosse possível incluir este conceito no código de direito civil. E o pior disto tudo é que um totó, mesmo que melhore e ganhe algum auto-controlo, não consegue evitar as recaídas. A “totisse” é um estado crónico recidivante. Uma vez totó… totó o resto da vida… As próximas frases são só para totós. Há coisas que só os totós entendem, uma espécie de código só deles, uma linguagem inscrita nos genes que se mantém silenciada até que aquele alguém a desbloqueie. Se não é totó tenha a bondade e lucidez de voltar mais tarde porque o que será dito a seguir não fará nenhum sentido para si. Porque é que nos dói o passado da pessoa que amamos? Porque é que nos arrasa saber que o nosso amor já foi amor doutra pessoa? Porque é que as insónias insistem em alternar com os pesadelos em que ela aparece escondida nuns braços que não são os nossos? Porque é que é insuportável imaginar que aquela boca perfeita foi capaz de articular a palavra amo-te sem nos ter à sua frente e de já ter sido completada na ausência dos nossos lábios? Não faz sentido mas dói. Dói até ao âmago, até à célula mais profunda e desnervada, até à mais ínfima molécula. Dói porque amamos e nos tornámos estúpidos, tão estúpidos que não nos lembramos sequer que aquilo faz parte daquele tempo que deixámos de conhecer: o passado. Instala-se uma iniquidade de espírito que nos leva a acreditar que ela devia ter antevisto a nossa entrada na sua vida e simplesmente aguardar a chegada do dia mágico, como se a vida, os encontros, as pessoas e os sentimentos tivessem alguma coisa de previsível. Não podemos apagar o passado nem mudar a história. E mesmo que o pudéssemos fazer não era bom que o fizéssemos. O rumo que se toma, as avaliações que se fazem e os sentimentos que se experimentam só acontecem porque houve um caminho que nos trouxe até ali. Um passado diferente conduziria inevitavelmente a um presente distinto e em última análise foi esse pretérito que os juntou. Mas nem tudo é inevitável e o passado só os separará se eles deixarem. Depende deles a partilha desse passado e a capacidade de resistir à tentação de o ocultar. Porque só há uma coisa mais dolorosa do que a consciência plena do passado da pessoa que se ama: ficar a saber que afinal não se conhece esse passado. Essa ocultação vai ser irremediavelmente sentida como uma traição e impor exactamente a mesma reacção: a perda de confiança e o indeclinável desmoronar do sentimento que deveria ter sido para sempre. Não há alturas fáceis para partilhar a nossa história da mesma maneira que não há alturas fáceis para ouvir a história da pessoa que se ama. Porque nunca é fácil. Porque ambos estão estupidificados pelo carácter das limitações que os seus sentimentos lhes impõem. Mas há um tempo limitado para que tudo isso possa ser partilhado. Esse tempo é aquele que medeia entre o primeiro amo-te e o encontro seguinte. Ou, o mais tardar, suceder a pergunta directa de quem nos ama e nos questiona sobre o nosso passado. Depois disso, qualquer altura será sempre tarde demais... A necessidade de conhecer o passado de quem se ama não tem nada a ver com a decisão sobre o futuro da relação. Nenhuma história é negra o suficiente para ser capaz de aniquilar um amor. Já um passado oculto, mesmo que inócuo, poderá minar um relacionamento irremediavelmente. Quando alguém nos bate à porta perguntamos quem é. Quando alguém nos bate ao coração temos de saber, por mais que custe, quem foi…

Publicado na "Revista C" em 5 de Janeiro de 2012
Paulo Freire, Coimbra

Einstein , Albert

Se não pode explicar algo de maneira simples, é porque não compreende este algo bem o suficiente.

If you can't explain it simply, you don't understand it well enough
Giuliano de Almeida Sandri, Brasil

Sagan , Carl

Se você quer fazer uma torta de maçã desde o começo, tem que primeiro criar o universo.

Giuliano de Almeida Sandri, Brasil
>>
 

Facebook

loading...
© Copyright 2003-2018 Citador - Todos os direitos reservados | SOBRE O SITE