João Lobo Antunes

Portugal
4 Jun 1944 // 27 Out 2016
Neurocirugião

39 Citações

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Em Portugal devemos ser todos salvadores. De outra forma entrase mais uma vez naquele espírito sebastianista à espera que apareça alguém que resolva tudo. O que se espera de nós é o cumprimento quotidiano e bem feito daquilo que é a nossa obrigação.

Jornal de Leiria (2009)
Aprecio muito o convívio, mas tive sempre aquilo a que Montaigne chamava uma sala no fundo da casa que nós somos. Tem diversas divisões, mas há uma que fechamos à chave e só deixamos entrar muito poucos. Aproxima-se muito do núcleo personalista, daquilo que é a nossa única pertença, aquilo que é verdadeiramente nosso.

Entrevista Jornal de Letras (2015)
A solidão pode ter uma robustez criadora, ser um refúgio.

Entrevista Jornal de Letras (2015)
Os cirurgiões têm algumas características psicológicas muito particulares, pensam que estão munidos de poderes demiúrgicos e são altamente independentes. Mas vigiam-se uns aos outros e está latente um espírito de competição, de rivalidade. É muito difícil ser-lhe imune.

Entrevista Jornal de Letras (2015)
A ideia de Justiça não pode ficar refém das ideologias. Tem que ser aplicada, vivida como uma condição de liberdade. O que fundamentalmente me preocupa são as questões da equidade, do acesso, e da reflexão que é preciso fazer e que as pessoas tendem a ignorar, porque não lhes convém olhar de frente os problemas. Refiro-me, por exemplo, ao facto de os recursos serem finitos e as despesas com os tratamentos e as tecnologias crescentes, em espiral. Atualmente mesmo com contornos abjetos. Alguns laboratórios compram patentes e isso dá-lhes a liberdade de tornar determinados medicamentos quase inacessíveis. Neste momento, estou a receber um tratamento que se tem revelado de uma enorme eficácia, mas vai custar uns milhares de euros. Haverá uma altura em que será necessário escolhermos se uns meses a mais de vida, com um custo incomportável, se justificam.

Entrevista Jornal de Letras (2015)
O que chamo a atenção é para o facto de o Estado Social não ser nada de abstrato, mas muito concreto: o Estado Social somos nós todos, independentemente do que fazemos, do nosso estatuto e da nossa situação económica ou financeira. Por isso é de uma responsabilidade fundamental preservá-lo, mas também perceber em que direção se pode orientar, tendo em conta a modernidade e as complexidades atuais.

Entrevista Jornal de Letras (2015)
Mesmo o ensino da ética poderia fazer-se quase exclusivamente a partir de livros de ficção. Está lá tudo. A Morte de Ivan Ilitch, por exemplo, cobre tudo o que se pode dizer de pertinente em relação à morte. É extraordinário como Tolstoi conseguiu captar todas as nuances. Sentimo-lo particularmente quando passamos pela experiência de uma doença séria.

Entrevista Jornal de Letras (2015)
Nunca fui capaz de usar frases mal construídas, quando conversava com um doente ou qualquer pessoa. É em mim natural esse apurar do discurso. A linguagem ensina-nos a pensar.

Entrevista Jornal de Letras (2015)
Até com palavras que nos parecem insignificantes, podemos construir uma filosofia, um poema. Sempre senti esse encanto da palavra. Quem não estudou pelos livros, nem sabe o que perdeu. E quem não aprecia as palavras também não.

Entrevista Jornal de Letras (2015)
A única maneira de operar uma transformação profunda na sociedade é através da educação. Isso é que é milagre, isso é que é aperfeiçoamento genético de uma raça. O resto é conversa.

Entrevista Diário de Notícias (2001)
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