Conta-Corrente III

por: Vergílio Ferreira
Portugal
28 Jan 1916 // 1 Mar 1996
Escritor

36 Citações

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A saudade não está na distância das coisas, mas numa súbita fractura de nós, num quebrar de alma em que todas as coisas se afundam.
A honestidade é própria das classes médias. As de baixo não a ignoram, mas não sabem para que serve. As de cima não a ignoram, mas não sabem para que ainda serve.
Quando se dão dois beijos é sinal de amizade; quando se tem amor dá-se só um. O amor é exclusivista. Ou concentracionário...
A razão é um formulário para se provar o que já provámos para nós próprios. E é por isso que a metafísica continua e a filosofia analítica vai ficando para trás.

Dor

Uma dor de que se fala já não é dor sentida.
O silêncio só existe em contraste com o barulho. Se não há barulho a contrastar, é ele próprio barulhento. E então apetece o ruído para ele ser menos ruidoso.
A «firmeza de princípios», de «opiniões», pode ser uma forma vistosa de camuflar a estupidez. Ser inteligente é ser disponível.
A liberdade. Como é difícil. Numa carroça, quem tem menos problemas é o cavalo.
Há dentro de nós a exigência absoluta de sermos eternos e a certeza de o não sermos. O absurdo é a centelha do contacto destes dois opostos.
Quanto mais intenso é um sentimento (de emoção ou de cómico) mais discretos têm de ser os meios que os promovem.
Oh, a dedicação, a estima, a generosidade. A razão fundamental por que os cães são estimados é que a sua carne não é boa para comer.
O homem é capaz de dar a vida por um valor; só que não sabe que esse valor a merece, antes de ser capaz de a dar.
A honestidade é uma forma de se ser conscientemente modesto.
Não se tem simpatia se não houver seja o que for de admiração: tem-se apenas tolerância ou piedade.
O tempo é uma construção artificial que sobrepomos a nós e à qual nos submetemos como a um boneco de horror ou lascivo que pintássemos e que nos subjugasse na sua realidade exterior e inventada por nós. É quando perdemos a noção do tempo que medimos bem o seu artificialismo.
O respeito pela liberdade do espectador só tem igual no respeito do autor por si próprio. Porque é por respeito por si próprio que ele não se comove nem se ri, a não ser pelo que sobra ou é um excedente da sua vontade de rir e de se comover. É da sua estabilidade ou «indiferença» que transborda o que há-de comover ou fazer rir os outros.
A verdade faz-se com a força ou o desplante com que se nega ou afirma; com a razão faz-se apenas um parecer.
O grande segredo da «profundidade psicológica» é que a verdade de um homem aguenta tudo.
Ser forte à custa alheia é ser fraco à custa própria.
Há erros tão grandes que são quase do tamanho da verdade. A verdade, aliás, é um erro à espera de vez.
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