Nenhum Olhar

por: José Luís Peixoto
Portugal
n. 4 Set 1974
Escritor

27 Citações

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Sei agora, o fim e o desespero são a serenidade de uma solidão eterna e irremediável, são uma mágoa que é um sofrimento eterno e irremediável, tudo eterno e tudo irremediável, são o silêncio de quem chora sozinho numa noite inteira.
Já não posso voltar atrás, porque nunca se pode voltar atrás. Só o arrependimento daquilo que não escolhemos persiste, existe.
Chega devagar, mas vem; aproxima-se e será um dia infinito, uma noite eterna, um instante parado que não será um instante; e os assuntos grandes serão menores que os mais ridículos, e os assuntos grandes serão ainda maiores porque serão os únicos.
A solidão era um céu maior que a noite e onde não havia mais que noite e frio, era um lugar negro que o olhar via.

Dor

A dor: um silêncio de sentido sobre todos os gestos, um abismo a calar o significado de todas as palavras, um véu a tornar o tempo inútil.
Penso: o lugar dos homens é uma linha traçada entre o desespero e o silêncio.
Eu morrer não é nada na ordem implacável do mundo.
Nunca nenhum homem suportou a escuridão sem nenhuma luz.
O teu olhar ficará no meu olhar quando morrer e, morto, contemplar as planícies que serão o teu olhar a anoitecer lento. O teu olhar ficará nas minhas mãos esquecidas e ninguém se lembrará de o procurar aí. Penso: nunca ninguém se lembra de procurar as coisas onde elas estão, porque nunca ninguém sabe o que pensa o fumo, ou as nuvens, ou um olhar.
Para cada um existe uma morte, e essa morte que é diferente de homem para homem, como é diferente a vida, faz-nos caminhar entre tudo o que é negro para nós, entre toda a solidão, gritando para ninguém tudo o que podemos amar.
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