O Último Voo do Flamingo

por: Mia Couto
Moçambique
n. 5 Jul 1955
Escritor/Biólogo

49 Citações

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Há perguntas que não podem ser dirigidas às pessoas, mas à vida. Pergunte à vida, senhor. Mas não a este lado da vida. Porque a vida não acaba do lado dos vivos. Vai para além, para o lado dos falecidos.
Uns não vivem por temer morrer; eu não morro por temer viver.
Viver é fácil: até os mortos conseguem. Mas a vida é um peso que precisa ser carregado por todos os viventes.
A vida é um beijo doce em boca amarga.
Cada coisa tem direito a ser uma palavra. Cada palavra tem o dever de não ser nenhuma coisa.
A lágrima nos universa, nela regressamos ao primeiro início. Aquela gotinha é, em nós, o umbigo do mundo. A lágrima plagia o oceano.
A guerra nunca partiu, filho. As guerras são como as estações do ano: ficam suspensas, a amadurecer no ódio da gente miúda.
Se temos voz é para vazar sentimento. Contudo, sentimento demasiado nos rouba a voz.
Não será que deveríamos cuidar melhor da vida das massas? Porque a verdade é que o caracol nunca deita fora a sua concha. O povo é a concha que nos abriga. Mas pode, repentemente, tornar-se no fogo que nos vai queimar.
Vocês, homens, vêm para casa. Nós somos a casa.
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