Miguel Torga

Portugal
12 Ago 1907 // 17 Jan 1995
Escritor/Poeta

13 Citações



Estes meus contemporâneos lembram-me certos arbustos que nascem no côncavo de uma rocha, onde só uma rasa de terra é o possível pasto de qualquer avidez. Vivem de vagar, cautelosamente, não vá uma raiz mais imprudente consumir numa hora o que há-de ser comido em oitenta anos.
Em Portugal, as pessoas são imbecis ou por vocação, ou por coacção, ou por devoção.
Uma história triste agrada sempre. No seu sentido mais profundo, a vida é bela e alegre. Todos nós tivemos já a experiência disso milhares de vezes. Provas sobre provas de que não há primavera sem flores, nem outono sem frutos. Mas, apegados como estamos à aparência de tudo, esquecemos a voz do profundo, e ouvimos deliciados o som da superfície. Temos o vício da tristeza.
Não me sinto um destruidor; o que quero é que tudo nasça com a força que as cousas verdadeiras e naturais merecem, e que o ranço velho não estrague o azeite novo.
O homem só peca contra o homem e contra as suas criações. Só para olhos verdadeiramente impuros é que a nudez de Miguel Ângelo precisava de camisas.
É urgente acabar com a hipocrisia do mundo moderno e regressar à sinceridade grega: ser conviva dum banquete universal, e fazer por pensar bem durante ele.
Enchi com frequência uma página de lamúrias, quando na verdade estava cheio de força e de alegria.
As teorias de Freud estarão certas; mas o mito que fez nascer Vénus da espuma, também está.
As coisas do instinto e da natureza têm este condão: não envelhecem. Passa a filosofia mais transcendental, esgota-se o livro mais profundo. Mas é com um viço cada vez mais promissor que regressam as verdades simples e naturais.
A infância não se repete, nem na lembrança, nem na imaginação. Quando, muito, dá-se outra infância. As cenas ingénuas, porque eram ingénuas, não tinham consciência; e as humilhações, de tão pungentes, não há memória que consinta na sua perfeita expressão.
Creio que a vida não tem sombra de interesse, concebida e vivida em termos de mentira e de conveniência. As sociedades que já só assentam em tais fundamentos, estão por pouco. Julgo, antes, que a própria natureza aviva de quando em quando as suas arestas para que os seres e as coisas saibam claramente que a cada verdade corresponde um fruto, e a cada mentira uma desilusão.
É preciso fazer um esforço contínuo para amar o presente. Viver pelo passado, pelo que se fez, pelo que se conseguiu, é o mesmo que alimentar uma fome premente com banquetes de outrora.
Os antigos tinham razão em pintar anjos nos tectos dos quartos. Parte da vida passa-se a olhar para eles.
 

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