Sophia de Mello Breyner Andresen

Portugal
6 Nov 1919 // 2 Jul 2004
Poeta

15 Citações

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Houve uma fase em que reflecti muito sobre a natureza da escrita. Agora não me interrogo muito sobre o modo, o quê e o como do que escrevo. Vou navegando. Vou encontrando, vou dizendo o que surge e o que faço. Sem dúvida, a palavra é uma forma de não se ser devorado pelo caos, pela confusão, pela contradição e o tumulto, apesar de ter um pacto com tudo isso e de sem isso não atingir a sua plenitude.
Há uma noção de abismo que é imanente a toda a experiência humana. A Terra é uma bola suspensa no espaço segundo um equilíbrio que não dominamos. E eu sei que há abismo também na poesia. Mas esta muitas vezes funciona como esconjuro do mal e da sombra e tem uma dimensão catártica que talvez seja o que faz com que o medo não me assalte do mesmo modo. Com a prosa, surge uma dúvida dentro de nós. Não sabemos nunca se estamos a esconjurar, se a convocar. É uma espécie de jogo muito estranho. Porque há esta diferença, não sei bem. Mas é o que se passa comigo. A poesia e a prosa são duas navegações diferentes.
O que eu penso é que a poesia exige uma certa transparência como o amor exige uma certa transparência e como a santidade exige uma certa transparência. São transparências de natureza diferente e, sobretudo, a poesia é uma transparência em relação ao Universo, o amor éuma transparência entre duas pessoas e a santidade é uma transparência total, como que em todos os planos.
É verdade que a política da nossa época é de tal maneira contraditória, de tal maneira cheia de fraudes, de oportunismos, de confusões que, neste momento, não se vê resposta clara. Tem que se procurar um caminho... e esse caminho passa ainda necessariamente pela política. Mas eu direi que fundamentalmente o que está na base da minha opção política é o não aceitar o escândalo. É o não aceitar que haja pessoas inteiramente sacrificadas. O considerar que não é possível passar por cima do cadáver dos outros ou por cima de vidas diminuídas e desumanizadas.
O poema não é o caos, percebe? O poema é arrancado ao caos e traz ainda a sua ressonância, os seus ecos. Eu não sei se é isso que o faz um bom poema. Sei que nos poemas de que eu gosto há sempre essa dimensão.
Tenho medo de tudo. Só não tenho medo da polícia. Só não tenho medo da política. De resto, tenho medo de tudo. Tudo é para ter medo! Vivemos sempre rente à deriva e a destruição corre atrás de nós...
Eu penso que há uma diferença entre o homem e a mulher, e os feminismos não podem... Para mim o machismo não é considerar que há uma diferença entre o homem e a mulher, o machismo é tentar fazer um negócio dessa diferença... Os feminismos são teorias. Eu acho que a teoria na nossa época tem desempenhado um papel terrível na política, tem desempenhado um papel terrível na arte, e também na vida... A vida tem sido muito sacrificada à teoria...
Se eu sei alguma coisa? Não sei, talvez saiba de uma maneira muito especial. Se sei está na minha poesia. A máscara é a forma de alguém dizer o que é. Ninguém diz o que não é. O resto é confessional e a poesia é anticonfessional. Por isso é que eu não gosto de dar entrevistas.
a literatura actual é uma literatura muito esvaziada, parece que as pessoas não têm nada para dizer. É rara uma história que seja realmente uma história, quer dizer: uma narração de actos com significado. Muitas vezes a história não tem sentido. Para mim a história faz parte da revelação do real. E uma história que faça parte desta revelação e da natureza das coisas, é rara. e eu penso que é por os escritores se desentranharem em análises e explicações, lerem muitas teorias.
Estou com mais atenção às coisas visíveis, às coisas concretas. Auando escrevo uma história começo-me a lembrar de sítios, de lugares, de casas, de caras, de coisas que aconteceram. Não construo teorias, não invento, vejo, lembro-me do que vi e do que vivi.
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