João Lobo Antunes

Portugal
4 Jun 1944 // 27 Out 2016
Neurocirugião

8 Citações



A ideia de que a tecnologia, os valores do dinheiro, da beleza, da vitória e da competição são os que prevalecem na sociedade contemporânea, precisa de ser vista com outro sentido crítico. Temos hoje uma sociedade vertical e multi-geracional, em que cada vez mais os avós olham pelos netos e vice-versa. Prevalecem valores muito sólidos pelos quais vale a pena afirmar e lutar, para que perdurem no tempo e se transformem em actos.
Talvez não seja politicamente correcto o que vou dizer, mas toda a forma de ensino é um exercício de autoridade. Esta tolerância máxima nas escolas e aquilo que se reclama com os direitos dos alunos, mais do que com os seus deveres, parece ofuscar o facto fundamental de que há uma assimetria de autoridades. O professor sabe, o aluno aprende. O professor ensina, o aluno é o receptor. Portanto, tudo o que de alguma forma ameace a assimetria de autoridades acaba por ferir a própria ciência do acto de ensinar.
O exercício de autoridade é sempre este deslizar para um despotismo não esclarecido. A autoridade não se impõe pela força, mas pelo respeito. E também por outro sentimento que está muito fora de moda e a que o George Steiner chamou «reverência». A reverência tem que existir relativamente à pessoa, mas também tem que existir pela carga simbólica do cargo. Quando oiço pessoas com responsabilidade usarem relativamente ao Presidente da República certas expressões, espanto-me como é que esses indivíduos poderão exigir aos alunos respeito pelos professores.
O professor merece reverência, a começar pelo cargo que representa, pelo simples facto de ser professor. A partir do momento em que se mina esse sentimento, tudo pode acontecer.
Um dos enormes disparates da pedagogia moderna foi desvalorizar a memória. A educação escolar é hoje, em grande medida, um exercício de amnésia programada. Recordo que a minha aprendizagem de Medicina foi, desde sempre, um exercício de musculação da memória. A memória é essencial para a vida, em geral, e para o exercício de uma profissão, em particular.
A minha primeira palavra é de respeito para os que conseguem ser políticos. Qualquer cargo desta natureza é de uma enorme delicadeza e complexidade. Tenho encontrado muitos com sentido de Estado e do dever. Nutro uma enorme admiração pelo poder autárquico, tendo-me cruzado, ao longo destes anos, com gente admirável e empenhada. Independentemente dos pecadilhos que possam ter, seja de ambição pessoal, vaidade, etc. Isso a mim não me interessa. Um político vale basicamente pela obra, o que não quer dizer que aprove todas as maneiras de a colocar em prática.
Como dizia o Fernando Gil, provavelmente o melhor filósofo português do século XX, sem a Filosofia perde-se «a capacidade de ver para lá da aparência das coisas». Digo que também que se perde sentido crítico, a percepção das contingências da verdade e da evidência e o sentido da administração do transcendente. A outra dimensão da nossa existência. No fundo, a escola e o mundo sem a Filosofia tornam-se num enorme empobrecimento.
Não gosto dos políticos que mancham o serviço público com a intolerância, que recorrem ao insulto por não terem liberdade intelectual para reconhecer a bondade de opiniões opostas. Confesso que também não gosto dos políticos que nasceram na política e nunca fizeram outra coisa na vida e que desconhecem o mundo real e as verdadeiras dificuldades das pessoas. Tenho uma enorme suspeita por quem nasce, cresce e acaba por morrer dentro da política, sem ter tido outra experiência qualquer. É preciso reconhecer que da mesma forma que há maus médicos e jornalistas desonestos, é possível que também haja políticos incompetentes. Acontece que eu tenho uma enorme tolerância para com as fraquezas da natureza humana.
 

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