Vasco Pulido Valente

Portugal
n. 21 Nov 1941
Escritor / Ensaísta

A Corrupção em Portugal

O advogado Marinho Pinto, bastonário da Ordem, denunciou estentoriamente a corrupção do Estado e o mau funcionamento da justiça. Como os tempos são o que são, ninguém ouviu ou se importou com o que ele disse sobre a justiça (de resto, muito interessante e oportuno) e toda a gente se agarrou com volúpia e gula ao velho e gasto assunto da corrupção. Pacheco Pereira, por exemplo, exigiu o regresso à «ética republicana», embora não se conheça qualquer república, nem a romana, com a mais vaga sombra dessa «ética». E o general Garcia Leandro, que dirige o Observatório de Segurança, ameaçou o país com «uma explosão social» contra o regime e, surpreendentemente, revelou que já o convidaram para «encabeçar um movimento de indignação». Pior ainda, o general confessa que a sua própria «capacidade de resistência» a «tanta desvergonha» começa a «enfraquecer» e fala ominosamente do «final» da monarquia.

Talvez convenha perceber duas coisas sobre a corrupção. Primeira, onde há poder, há corrupção. E onde há pobreza, há mais corrupção. Destes dois truísmos resulta necessariamente que quanto maior é o poder ou a pobreza, maior é a corrupção. Portugal junta a uma atávica miséria um Estado monstruoso e autoritário e, por consequência, tem as condições perfeitas para produzir uma enorme quantidade de corrupção. Em Portugal nada se salva da corrupção: nem a administração local, nem a administração central, nem os partidos, nem os «negócios», nem os governos, nem o futebol. A corrupção está íntima da cultura «nacional», no centro da ordem estabelecida, na maneira como os portugueses tratam de si e se tratam entre si.

Não vale a pena, por isso, declamar, perorar, rugir e chorar. O mal só tem dois remédios: o enriquecimento do país, por um lado, e, por outro, uma drástica redução do Estado e, principalmente, da autoridade do Estado. Quanto ao enriquecimento, não parece próximo. Quanto à redução de um Estado com 700.000 funcionários, ninguém até hoje o conseguiu reformar. Pelo contrário, aumentou sempre, intocável e triunfante. Quarta ou quinta-feira, o dr. Silva Lopes perguntava na televisão porque não se metiam, pelo menos, meia dúzia de corruptos na cadeia. Como em Espanha. Ou em França. Ou na América. Não se metem, porque, a meter meia dúzia, acabavam por se meter uns milhares, ou umas dezenas de milhares. E também, evidentemente, porque nenhuma sociedade se persegue a si mesma.

03/02/2008

Vasco Pulido Valente, in 'De Mal a Pior'




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