Claudio Magris

Itália
n. 10 Abr 1939
Escritor

O Verão Perfeito

Um dia de verão, numa ilha de Quarnero; um daqueles dias absolutos, cuja beleza marinha dá um sentido de glória mas também um aperto doloroso, porque, tal como já se disse acerca do amor, faz sentir tudo aquilo de que se sente falta. É sábado, dia de mudança de turistas que partem e de turistas que chegam para os substituir, como as «meias centenas» de raparigas nos tempos dos prostíbulos. O calvário dos que partem é o temor das longas filas de automóveis que obrigam a horas de imóvel espera, parados, a aguardar pelos barcos, debaixo do sol e do calor pesado. Uma inesperada paragem de automóveis à frente, ao longo da encantadora e alta estrada sobre o mar, mas tortuosa e refratária para os que ultrapassam, causa agitação, ameaça possíveis paragens intermináveis. As pessoas saem dos carros, bebem dos gargalos das garrafas, põem-se a caminho da primeira curva para ver o que aconteceu. Mas depois da primeira curva há tantas outras a barrar o conhecimento do estado das coisas; de pessoas que mais adiante andam para cima e para baixo, chegam pedaços de notícias e hipóteses, deformadas na passagem de uma voz para outra, como na velha brincadeira do telefone sem fios.

De um carro sai uma senhora. Já não é nova, mas é decididamente bonita nas formas elegantes e generosas, que revelam um saboroso prazer de viver, apesar de o calor ser pouco galante com a sua amável carne; o suor escava momentâneas pregas semelhantes a rugas e amolece os braços e as maçãs do rosto florescentes. Um homem, que tem todo o ar de estar informado, dirige-se para o seu carro. A senhora vai ao seu encontro. «Uma fila enorme, estamos presos no engarrafamento?», pergunta-lhe. «Não», responde o homem, «é um acidente. Há um ferido deitado no chão; assim que chegar a ambulância voltamos a andar». «Ainda bem», diz com alívio a senhora, dirigindo-se para o seu automóvel. Os outros ficam em silêncio, gratos pelo facto de ela ter arcado com o peso de dizer aquilo que pensamos, que todos nós pensamos.

(9 de julho de 2012)

Claudio Magris, in 'Instantâneos'




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