Francisco José Lahmeyer Bugalho

Portugal
26 Jul 1905 // 29 Jan 1949
Poeta

15 Poemas



Chuva (1)

Chuva, caindo tão mansa,/ Na paisagem do momento,/ Trazes mais esta lembrança/ De profundo isolamento./ / Chuva, caindo em silêncio/ Na tarde, sem claridade.../ A meu sonhar d'hoje, vence-o/ Uma infi...

Tudo quanto Sonhei se Foi Perdido (2)

O que sonhei e antes de vivido/ Era perfeito e lúcido e divino,/ Tudo quanto sonhei se foi perdido/ Nas ondas caprichosas do destino./ / Que os fados em mim mesmo depuseram/ Razões de ser e de não se...

Dois Meninos (3)

Meu menino canta, canta/ Uma canção que é ele só que entende/ E que o faz sorrir./ / Meu menino tem nos olhos os mistérios/ Dum mundo que ele vê e que eu não vejo/ Mas de que tenho saudades infinitas...

Dor (4)

Passa-se um dia e outro dia/ À espera que passe a Dor,/ E a Dor não passa, e porfia,/ Porque trás dia, outro dia/ Que traz Dor inda maior;/ / Porque embora a Dor aflita/ Calasse há muito seus ais,/ A...

Caminhos (5)

Para quê, caminhos do mundo,/ Me atraís? — Se eu sei bem já/ Que voltarei donde parto,/ Por qualquer lado que vá./ / Pra quê? — Se a Terra é redonda;/ E, sempre, tem de cumprir-se/ A sina daquela ond...

Casa Abandonada (6)

Minha saudade não larga/ Certa casa abandonada./ E sinto, na boca, amarga,/ Essa lágrima chorada/ Quando a deixei.../ / Caía, de leve, a tarde.../ E, olhando para trás, vi/ Aquela porta fechada./ / N...

Humildade (7)

As águas beijei,/ As nuvens olhei,/ Às árvores cantei,/ Na sua beleza./ / Os bichos amei,/ Na sua bruteza,/ Na sua pureza,/ De forças sem lei./ / E porque os amei/ E os acompanhei,/ Não me senti rei/...

Dúvida (8)

Eu corro atrás da memória/ De certas coisas passadas/ Como de um conto de fadas,/ De uma velha, velha história.../ / Tão longe do que hoje sou/ Que nem sei se quem recorda/ Foi aquele que as passou,/...

Sabedoria (9)

Nos dias em que nada vale a pena,/ E em que as árvores amigas/ São iguais e estão vistas,/ A vida é tão parada e tão serena/ Que afinal já não há que contar mais,/ E prevejo, com olhos anormais,/ As ...

Solidão (10)

Vago aroma de esteva, ao mesmo tempo ardente e virgem,/ E este murmúrio doce da folhagem,/ São o falar do mato, na estiagem,/ Segredando os mistérios da origem./ / Calma profunda, doce, resignada.../...

Obsessão (11)

Dentro de mim canta, intenso,/ Um cantar que não é meu:/ Cantar que ficou suspenso,/ Cantar que já se perdeu./ / Onde teria eu ouvido/ Esta voz cantar assim?/ Já lhe perdi o sentido:/ Cantar que pass...

Oh, Vida! Fugitiva Companheira (12)

Oh, Vida!/ Fugitiva companheira,/ Eu sinto que não posso acompanhar-te./ Por isso, nesta hora feiticeira,/ Quisera erguer-te uma barreira/ E fazer-te parar/ E abraçar-te;/ E abraçar-te tão íntimo e t...

Poeta (13)

Poeta, a construíres sonhos contraditórios!/ Tu tens na vida uns ideais burgueses/ Que não te satisfazem!/ / Poeta, tu desejas/ Misérias e reveses/ Que te façam cantar./ E amas o conforto,/ E gostas ...

Glória (14)

Vive dentro de mim um mundo raro/ Tão vário, tão vibrante, tão profundo/ Que o meu amor indómito e avaro/ O oculto raivoso ao outro mundo/ / E nele vivo audaz, ardentemente,/ Sentindo consumir-se a s...

Herói Vencido (15)

Naquele dia/ Parti/ A hora em que a cidade era saudosa/ Das vidas que eu viveria/ Se me não fora impossível./ Ali,/ Tudo me prometia/ O perdido para sempre,/ E tudo me era sensível,/ Como se fosse de...


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