José Sobral de Almada Negreiros

Portugal
7 Abr 1893 // 15 Jun 1970
Artista plástico/Poeta/Ensaísta/Romancista/Dramaturgo e Coreógrafo

A Sésta

Pierrot escondido por entre o amarello dos gyrassois espreita em cautela o somno d'ella dormindo na sombra da tangerineira. E ella não dorme, espreita tambem de olhos descidos, mentindo o sôno, as vestes brancas do Pierrot gatinhando silencios por entre o amarelo dos gyrassois. E porque Elle se vem chegando perto, Ella mente ainda mais o sôno a mal-resonar.

Junto d'Ella, não teve mão em si e foi descer-lhe um beijo mudo na negra meia aberta arejando o pé pequenino. Depois os joelhos redondos e lizos, e já se debruçava por sobre os joelhos, a beijar-lhe o ventre descomposto, quando Ella acordou cançada de tanto sôno fingir.

E Elle ameaça fugida, e Ella furta-lhe a fuga nos braços nús estendidos.

E Ella, magoada dos remorsos de Pierrot, acaricia-lhe a fronte num grande perdão. E, feitas as pazes, ficou combinado que Ella dormisse outra vez.

Almada Negreiros, in 'Frisos - Revista Orpheu nº1'
// Consultar versos e eventuais rimas




Outros Poemas de José Sobral de Almada Negreiros:

Facebook

© Copyright 2003-2018 Citador - Todos os direitos reservados | SOBRE O SITE