António Gomes Leal

Portugal
6 Jun 1848 // 29 Jan 1921
Poeta/Crítico Literário

A Ultima Serenada do Diabo

No tempo em que elle, nas lendas,
Era amante e cortezão,
Jogava, e tinha contendas,
Cantava assim em Milão:

..........................................
..........................................
..........................................

Ó flores meigas, ó Bellas!
Para prender os toucados,
Eu dar-vos-hia as estrellas:
- Os alfinetes dourados!

Só pelo amor quebro lanças! -
A Rainha de Navarra
Enleou um dia as tranças
No braço d'esta guitarra!

Sou um heroe perseguido!...
Mas inda ha luz nos meus rastros;
A lança que me ha ferido
Foi feita do ouro dos astros!

Mas um dia, ó bem amadas!
Eu tornaria ás alturas...
Subindo pelas escadas
Das vossas tranças escuras!

O amor que em meu peito cabe
Não conta diques, ó bellas!
Só minha guitarra o sabe,
E aquellas velhas estrellas!

Ó batalhas amorosas!
- Era d'aventuras cheia!
Ó brancas noutes saudosas
Que eu andei pela Judea!

Ó flores apetecidas!
Livros escriptos com beijos!
Ó brancas aves fugidas
Dos jardins dos meus desejos!

Não me deixeis no abandono
Ó tristes olhos leaes!
Como as pombas, no outomno,
Que abandonam os pombaes!

Que fosse eu crucificado
N'alguma bem alta Cruz!...
- E vos tivesse a meu lado,
Como vos teve Jezus!...

Esses olhos me consomem!...
Mas, Mulher, da lucta ao cabo,
Se perdeste o antigo Homem...
- Tu matarás o Diabo!

António Gomes Leal, in 'Claridades do Sul'
// Consultar versos e eventuais rimas




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