Alberto Caeiro
(Heterónimo de Fernando Pessoa)

Portugal
n. 16 Abr 1889
Poeta

116 Poemas

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O Mundo não se Fez para Pensarmos Nele (21)

O meu olhar é nítido como um girassol./ Tenho o costume de andar pelas estradas/ Olhando para a direita e para a esquerda,/ E de, vez em quando olhando para trás.../ E o que vejo a cada momento/ É aq...

A Noite É Muito Escura (22)

É noite. A noite é muito escura. Numa casa a uma grande distância/ Brilha a luz duma janela./ Vejo-a, e sinto-me humano dos pés à cabeça./ É curioso que toda a vida do indivíduo que ali mora, e que n...

Talvez quem Vê Bem não Sirva para Sentir (23)

Talvez quem vê bem não sirva para sentir/ E não agrada por estar muito antes das maneiras./ É preciso ter modos para todas as coisas,/ E cada coisa tem o seu modo, e o amor também./ Quem tem o modo d...

Vi Jesus Cristo Descer à Terra (24)

Num meio-dia de fim de primavera/ Tive um sonho como uma fotografia./ Vi Jesus Cristo descer à terra./ Veio pela encosta de um monte/ Tornado outra vez menino,/ A correr e a rolar-se pela erva/ E a a...

Falaram-me os Homens em Humanidade (25)

Falaram-me os homens em humanidade,/ Mas eu nunca vi homens nem vi humanidade./ Vi vários homens assombrosamente diferentes entre si./ Cada um separado do outro por um espaço sem homens./ / Albert...

Nunca Busquei Viver a Minha Vida (26)

Nunca busquei viver a minha vida/ A minha vida viveu-se sem que eu quisesse ou não quisesse./ Só quis ver como se não tivesse alma/ Só quis ver como se fosse eterno./ / Alberto Caeiro, in Fragmen...

O Amor É uma Companhia (27)

O amor é uma companhia./ Já não sei andar só pelos caminhos,/ Porque já não posso andar só./ Um pensamento visível faz-me andar mais depressa/ E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tud...

No Entardecer dos Dias de Verão (28)

No entardecer dos dias de Verão, às vezes,/ Ainda que não haja brisa nenhuma, parece/ Que passa, um momento, uma leve brisa.../ Mas as árvores permanecem imóveis/ Em todas as folhas das suas folhas/ ...

Se Depois de Eu Morrer, Quiserem Escrever a Minha Biografia (29)

Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,/ Não há nada mais simples/ Tem só duas datas — a da minha nascença e a da minha morte./ Entre uma e outra cousa todos os dias são meus./ /...

Querem uma Luz Melhor que a do Sol! (30)

AH! QUEREM uma luz melhor que/ a do Sol!/ Querem prados mais verdes do que estes!/ Querem flores mais belas do que estas/ que vejo!/ A mim este Sol, estes prados, estas flores contentam-me./ Mas, se ...

Os Meus Pensamentos são Todos Sensações (31)

Sou um guardador de rebanhos./ O rebanho é os meus pensamentos/ E os meus pensamentos são todos sensações./ Penso com os olhos e com os ouvidos/ E com as mãos e os pés/ E com o nariz e a boca./ Pensa...

Se Eu Morrer Novo (32)

Se eu morrer novo,/ Sem poder publicar livro nenhum,/ Sem ver a cara que têm os meus versos em letra impressa,/ Peço que, se se quiserem ralar por minha causa,/ Que não se ralem./ Se assim aconteceu,...

Aceita o Universo (33)

Aceita o universo/ Como to deram os deuses./ Se os deuses te quisessem dar outro/ Ter-to-iam dado./ / Se há outras matérias e outros mundos/ Haja./ / Alberto Caeiro, in Poemas Inconjuntos / ...

Ontem à Tarde um Homem das Cidades (34)

Ontem à tarde um homem das cidades/ Falava à porta da estalagem./ Falava comigo também./ Falava da justiça e da luta para haver justiça/ E dos operários que sofrem,/ E do trabalho constante, e dos qu...

Quem Ama É Diferente de quem É (35)

Todos dias agora acordo com alegria e pena./ Antigamente acordava sem sensação nenhuma; acordava./ Tenho alegria e pena porque perco o que sonho/ E posso estar na realidade onde está o que sonho./ Nã...

A Criança que Pensa em Fadas (36)

A CRIANÇA que pensa em fadas e acredita nas fadas/ Age como um deus doente, mas como um deus./ Porque embora afirme que existe o que não existe/ Sabe como é que as cousas existem, que é existindo,/ S...

Eu Queria Ter o Tempo e o Sossego Suficientes (37)

Eu queria ter o tempo e o sossego suficientes/ Para não pensar em coisa nenhuma,/ Para nem me sentir viver,/ Para só saber de mim nos olhos dos outros, reflectido./ / Alberto Caeiro, in Poemas In...

Verdade, Mentira, Certeza, Incerteza (38)

Verdade, mentira, certeza, incerteza.../ Aquele cego ali na estrada também conhece estas palavras./ Estou sentado num degrau alto e tenho as mãos apertadas/ Sobre o mais alto dos joelhos cruzados./ B...

Noite de S. João (39)

Noite de S. João para além do muro do meu quintal./ Do lado de cá, eu sem noite de S. João./ Porque há S. João onde o festejam./ Para mim há uma sombra de luz de fogueiras na noite,/ Um ruído de garg...

Esqueço do Quanto me Ensinaram (40)

Deito-me ao comprido na erva./ E esqueço do quanto me ensinaram./ O que me ensinaram nunca me deu mais calor nem mais frio,/ O que me disseram que havia nunca me alterou a forma de uma coisa./ O que ...
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