Alexandre Search
(Heterónimo de Fernando Pessoa)

Portugal



13 Poemas



Ao Meu Maior Amigo (1)

Quando eu morrer, eu sei, tu escreverás/ Triste soneto à morte prematura;/ Dirás que a vida cansa em amargura/ E, pálido e frio, tu me cantarás./ / Nas quadras, reflectido se lerá/ De como, vã e brev...

Quem Sonha Mais? (2)

Quem sonha mais, vais-me dizer —/ Aquele que vê o mundo acertado/ Ou o que em sonhos se foi perder?/ / O que é verdadeiro? O que mais será —/ A mentira que há na realidade/ Ou a mentira que em sonhos...

Mania da Dúvida (3)

Tudo para mim é um duvidar/ Com a normalidade sempre em cisão,/ E o seu incessante perguntar/ Cansa meu coração./ As coisas são e parecem e o nada sustém/ O segredo da vida que contém./ ...

Perseverança (4)

Não digas que o trabalho é desperdiçado,/ Nem que o esforço falha ou parece, no fundo;/ Não digas que aquele ao dever curvado/ É um entre os tantos sonhos do mundo./ / Pois não é em vão que em golpes...

Morte em Vida (5)

Um dia mais passou e ao passar/ Que pensei ou li, que foi criado?/ Nada! Outro dia passou desperdiçado!/ Cada hora já morta ao despontar!/ / Nada fiz. O tempo me fugiu/ E à Beleza nem uma estátua erg...

Perfeição (6)

Vejo a Perfeição em sonhos ardentes,/ Beleza divina aos sentidos ligada,/ Cantando ao ouvido em voz olvidada/ Que do peito irrompe em raios candentes/ / Que não posso prender. Seu cabelo vem/ P'lo pe...

Sonhos (7)

Cada dia que passa faz-me pensar/ E reflectir sobre quem ele traiu,/ Que enquanto viveu nada fui ganhar/ Com a lama vil onde a alma caiu./ / Até de meus sonhos a vida me deixa/ Na maré nu, na areia, ...

Homens do Presente (8)

Homens do presente, nada no passado,/ Antes de serdes as coisas que vemos,/ Quem podia ter sabido ou pensado/ Que seríeis hoje aquilo que temos?/ Ah, passantes pela mesma via,/ Quem pôde pensar-vos a...

O Mundo (9)

O mundo, tal como o entendo,/ Não vai além daquilo que o cego/ De cor e sombra pode encontrar/ Na escuridão que é a sua sina;/ Este mundo, imenso e luzente,/ O qual nós viemos herdar/...

Dor Suprema (10)

Um amigo me disse: «O que tu crias/ É sonho e pretensão, tudo fingido;/ O pranto com que a mente sã desvias/ É decerto forçado e pretendido!/ / Em toda a canção e conto que fazes/ Porquê palavra dura...

Fraternidade (11)

Razão não tenho para os homens amar/ Nem eles uma para amar-me têm;/ À sua vileza cego não sei estar/ E toda a vileza também eles vêem./ / Ódio em palavras, por saciar,/ Sabendo já que por todos seri...

Piedade? Não! (12)

Piedade? Não! Não a desejo./ Ela seria escárnio maior,/ Cruel desdém feito gracejo/ Com olhar sério para conter/ A rude graça. Não! A dor/ Eu chore em paz. Deixem doer!/ / Piedade? Não! Escárnio venh...

Soneto de um Céptico (13)

Febo há muito desceu no Ocidente/ Por trás dos montes de rosa tingidos;/ Eu, sofrendo, cerro os olhos doridos/ Olhando o mundo que ante mim se estende./ / Pois pela noite o rio silente desce,/ Oculto...


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