Álvaro de Campos
(Heterónimo de Fernando Pessoa)

Portugal
n. 15 Out 1890


100 Poemas

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Encostei-me (21)

Encostei-me para trás na cadeira de convés e fechei os olhos, / E o meu destino apareceu-me na alma como um precipício. / A minha vida passada misturou-se com a futura, / E houve no meio um ruído do ...

Tenho uma Grande Constipação (22)

Tenho uma grande constipação, / E toda a gente sabe como as grandes constipações / Alteram todo o sistema do universo, / Zangam-nos contra a vida, / E fazem espirrar até à metafísica. / Tenho o dia p...

Passagem das Horas (23)

Trago dentro do meu coração, / Como num cofre que se não pode fechar de cheio, / Todos os lugares onde estive, / Todos os portos a que cheguei, / Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigia...

Fico Sozinho com o Universo Inteiro (24)

Começa a haver meia-noite, e a haver sossego, / Por toda a parte das coisas sobrepostas, / Os andares vários da acumulação da vida... / Calaram o piano no terceiro andar... / Não oiço já passos no se...

Às Vezes Tenho Idéias Felizes (25)

Às vezes tenho idéias felizes, / Idéias subitamente felizes, em idéias / E nas palavras em que naturalmente se despegam... / / Depois de escrever, leio... / Por que escrevi isto? / Onde fui buscar is...

Esta Velha Angústia (26)

Esta velha angústia, / Esta angústia que trago há séculos em mim, / Transbordou da vasilha, / Em lágrimas, em grandes imaginações, / Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror, / Em grandes emoções s...

Domingo Irei (27)

Domingo irei para as hortas na pessoa dos outros, / Contente da minha anonimidade. / Domingo serei feliz — eles, eles... / Domingo... / Hoje é quinta-feira da semana que não tem domingo... / Nenhum d...

Na Noite Terrível (28)

Na noite terrível, substância natural de todas as noites, / Na noite de insônia, substância natural de todas as minhas noites, / Relembro, velando em modorra incômoda, / Relembro o que fiz e o que po...

Se te Queres Matar (29)

Se te queres matar, por que não te queres matar?/ Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida,/ Se ousasse matar-me, também me mataria.../ Ah, se ousares, ousa!/ De que te serve o quadro su...

Adiamento (30)

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã... / Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã, / E assim será possível; mas hoje não... / Não, hoje nada; hoje não posso. / A persistência confusa da min...

Insónia (31)

Não durmo, nem espero dormir. / Nem na morte espero dormir. / / Espera-me uma insónia da largura dos astros, / E um bocejo inútil do comprimento do mundo. / / Não durmo; não posso ler quando acordo d...

Eu que me Aguente Comigo (32)

Contudo, contudo, / Também houve gládios e flâmulas de cores / Na Primavera do que sonhei de mim. / Também a esperança / Orvalhou os campos da minha visão involuntária, / Também tive quem também me s...

Que Noite Serena! (33)

Que noite serena! / Que lindo luar! / Que linda barquinha / Bailando no mar!/ / Suave, todo o passado — o que foi aqui de Lisboa — me surge... / O terceiro andar das tias, o sossego de outrora, / So...

Dobrada à Moda do Porto (34)

Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo, / Serviram-me o amor como dobrada fria. / Disse delicadamente ao missionário da cozinha / Que a preferia quente, / Que a dobrada (e era à moda do P...

Ao Volante (35)

Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra, / Ao luar e ao sonho, na estrada deserta, / Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco / Me parece, ou me forço um pouco para que me pareça, / Que si...

Ode Marítima (36)

Sozinho, no cais deserto, a esta manhã de Verão, / Olho pro lado da barra, olho pro Indefinido, / Olho e contenta-me ver, / Pequeno, negro e claro, um paquete entrando. / Vem muito longe, nítido, clá...

Sou Lúcido (37)

Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa / Aquele homem mal vestido, pedinte por profissão que se lhe vê na cara, / Que simpatiza comigo e eu simpatizo com ele; / E reciprocamente, num gest...

Vale a Pena Sentir para ao Menos Deixar de Sentir (38)

Vai pelo cais fora um bulício de chegada próxima, / Começam chegando os primitivos da espera, / Já ao longe o paquete de África se avoluma e esclarece. / Vim aqui para não esperar ninguém, / Para ver...

Depus a Máscara (39)

Depus a máscara e vi-me ao espelho. — / Era a criança de há quantos anos. / Não tinha mudado nada... / É essa a vantagem de saber tirar a máscara. / É-se sempre a criança, / O passado que foi / A cri...

Acaso (40)

No acaso da rua o acaso da rapariga loira. / Mas não, não é aquela. / / A outra era noutra rua, noutra cidade, e eu era outro. / Perco-me subitamente da visão imediata, / Estou outra vez na outra cid...
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A Coragem do Sonhador

Sempre que nos assumimos como “sonhadores”, ficamos mais perto de tornar qualquer sonho em realidade e de inspirar quem quer que seja com essa nossa conquista, como tal, é de louvar quem carrega esta...

Os Amigos Nunca São para as Ocasiões

Os amigos nunca são para as ocasiões. São para sempre. A ideia utilitária da amizade, como entreajuda, pronto-socorro mútuo, troca de favores, depósito de confiança, sociedade de desabafos, mete nojo...
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