Antero de Quental

Portugal
18 Abr 1842 // 11 Set 1891
Poeta/Filósofo/Político

91 Poemas

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Só! — Ao Ermita Sósinho na Montanha (1)

Só! — Ao ermita sósinho na montanha/ Visita-o Deus e dá-lhe confiança:/ No mar, o nauta, que o tufão balança,/ Espera um sopro amigo que o céo tenha.../ / Só! — Mas quem se assentou em riba estranha,...

Na Mão de Deus (2)

Na mão de Deus, na sua mão direita,/ Descansou afinal meu coração./ Do palácio encantado da Ilusão/ Desci a passo e passo a escada estreita./ / Como as flores mortais, com que se enfeita/ A ignorânci...

Evolução (3)

Fui rocha em tempo, e fui no mundo antigo/ tronco ou ramo na incógnita floresta.../ Onda, espumei, quebrando-me na aresta/ Do granito, antiquíssimo inimigo.../ / Rugi, fera talvez, buscando abrigo/ N...

Nirvana (4)

Viver assim: sem ciúmes, sem saudades,/ Sem amor, sem anseios, sem carinhos,/ Livre de angústias e felicidades,/ Deixando pelo chão rosas e espinhos;/ / Poder viver em todas as idades;/ Poder andar p...

Com os Mortos (5)

Os que amei, onde estão? Idos, dispersos,/ arrastados no giro dos tufões,/ Levados, como em sonho, entre visões,/ Na fuga, no ruir dos universos.../ / E eu mesmo, com os pés também imersos/ Na corren...

O Palácio da Ventura (6)

Sonho que sou um cavaleiro andante./ Por desertos, por sóis, por noite escura,/ Paladino do amor, busco anelante/ O palácio encantado da Ventura!/ / Mas já desmaio, exausto e vacilante,/ Quebrada a e...

Voz Interior (7)

(A João de Deus)/ / Embebido n'um sonho doloroso,/ Que atravessam fantásticos clarões,/ Tropeçando n'um povo de visões,/ Se agita meu pensar tumultuoso.../ / Com um bramir de mar tempestuoso/ Que até...

Mea Culpa (8)

Não duvido que o mundo no seu eixo/ Gire suspenso e volva em harmonia;/ Que o homem suba e vá da noite ao dia,/ E o homem vá subindo insecto o seixo./ / Não chamo a Deus tirano, nem me queixo,/ Nem c...

Divina Comédia (9)

Erguendo os braços para o céu distante/ E apostrofando os deuses invisíveis,/ Os homens clamam: — «Deuses impassíveis,/ A quem serve o destino triunfante,/ / Porque é que nos criastes?! Incessante/ C...

Logos (10)

Tu, que eu não vejo, e estás ao pé de mim/ E, o que é mais, dentro de mim — que me rodeias/ Com um nimbo de afectos e de idéias,/ Que são o meu princípio, meio e fim.../ / Que estranho ser és tu (se ...

Oceano Nox (11)

Junto do mar, que erguia gravemente/ A trágica voz rouca, enquanto o vento/ Passava como o vôo do pensamento/ Que busca e hesita, inquieto e intermitente,/ / Junto do mar sentei-me tristemente,/ Olha...

Contemplação (12)

Sonho de olhos abertos, caminhando/ Não entre as formas já e as aparências,/ Mas vendo a face imóvel das essências,/ Entre idéias e espíritos pairando.../ / Que é o mundo ante mim? fumo ondeando,/ Vi...

À Virgem Santíssima (13)

Cheia de Graça, Mãe de Misericórdia/ / N'um sonho todo feito de incerteza,/ De nocturna e indizível ansiedade,/ É que eu vi teu olhar de piedade/ E (mais que piedade) de tristeza.../ / Não era...

Ideal (14)

Aquela, que eu adoro, não é feita/ De lírios nem de rosas purpurinas,/ Não tem as formas languidas, divinas/ Da antiga Vénus de cintura estreita.../ / Não é a Circe, cuja mão suspeita/ Compõe filtros...

Solemnia Verba (15)

Disse ao meu coração: Olha por quantos/ Caminhos vãos andámos! Considera/ Agora, desta altura, fria e austera,/ Os ermos que regaram nossos prantos.../ / Pó e cinzas, onde houve flor e encantos!/ E a...

Visão (16)

(A J. M. Eça de Queiroz)/ / Eu vi o Amor — mas nos seus olhos baços/ Nada sorria já: só fixo e lento/ Morava agora ali um pensamento/ De dor sem trégua e de íntimos cansaços./ / Pairava, como espectr...

No Circo (17)

(A João de Deus)/ / Muito longe d'aqui, nem eu sei quando,/ Nem onde era esse mundo, em que eu vivia.../ Mas tão longe... que até dizer podia/ Que enquanto lá andei, andei sonhando.../ / Porque era t...

Mãe... (18)

Mãe — que adormente este viver dorido,/ E me vele esta noite de tal frio,/ E com as mãos piedosas ate o fio/ Do meu pobre existir, meio partido.../ / Que me leve consigo, adormecido,/ Ao passar pelo ...

A um Poeta (19)

Tu que dormes, espírito sereno,/ Posto à sombra dos cedros seculares,/ Como um levita à sombra dos altares,/ Longe da luta e do fragor terreno./ / Acorda! É tempo! O sol, já alto e pleno/ Afugentou a...

Luta (20)

Fluxo e refluxo eterno.../ João de Deus./ / Dorme a noite encostada nas colinas./ Como um sonho de paz e esquecimento/ Desponta a lua. Adormeceu o vento,/ Adormeceram vales e campinas.../ / Mas a mim...
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Pesquisa

Só Há Duas maneiras de se Ter Razão

Quando o público soube que os estudantes de Lisboa, nos intervalos de dizer obscenidades às senhoras que passam, estavam empenhados em moralizar toda a gente, teve uma exclamação de impaciência. Sim ...

Os Dias Zangados São Dias de Amor

Raios partam os dias zangados. Nada há que se possa fazer para fugir deles. Esperam por nós, como credores ajudados por juros injustificáveis, para nos cortarem a fatia do nosso coração que lhes cabe...
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