Antero de Quental

Portugal
18 Abr 1842 // 11 Set 1891
Poeta/Filósofo/Político

91 Poemas

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Redenção (21)

I/ / Vozes do mar, das árvores, do vento!/ Quando às vezes, n'um sonho doloroso,/ Me embala o vosso canto poderoso,/ Eu julgo igual ao meu vosso tormento.../ / Verbo crepuscular e íntimo alento/ Das ...

Amor Vivo (22)

Amar! mas d'um amor que tenha vida.../ Não sejam sempre tímidos harpejos,/ Não sejam só delirios e desejos/ D'uma douda cabeça escandecida.../ / Amor que vive e brilhe! luz fundida/ Que penetre o meu...

Hino à Razão (23)

Razão, irmã do Amor e da Justiça,/ Mais uma vez escuta a minha prece./ É a voz dum coração que te apetece,/ Duma alma livre só a ti submissa./ / Por ti é que a poeira movediça/ De astros, sóis e mund...

O que Diz a Morte (24)

Deixai-os vir a mim, os que lidaram;/ Deixai-os vir a mim, os que padecem;/ E os que cheios de mágoa e tédio encaram/ As próprias obras vãs, de que escarnecem.../ / Em mim, os Sofrimentos que não sar...

Pequenina (25)

Eu bem sei que te chamam pequenina/ E ténue como o véu solto na dança,/ Que és no juizo apenas a criança,/ Pouco mais, nos vestidos, que a menina.../ / Que és o regato de água mansa e f...

Mors - Amor (26)

Esse negro corcel, cujas passadas/ Escuto em sonhos, quando a sombra desce,/ E, passando a galope, me aparece/ Da noite nas fantásticas estradas,/ / Donde vem ele? Que regiões sagradas/ E terríveis c...

Transcendentalismo (27)

(A J. P. Oliveira Martins)/ / Já sossega, depois de tanta luta,/ Já me descansa em paz o coração./ Caí na conta, enfim, de quanto é vão/ O bem que ao Mundo e à Sorte se disputa./ / Penetrando, com fr...

Tese e Antítese (28)

I/ / Já não sei o que vale a nova idéia,/ Quando a vejo nas ruas desgrenhada,/ Torva no aspecto, à luz da barricada,/ Como bacchante após lúbrica ceia.../ / Sanguinolento o olhar se lhe incendeia;/ R...

Elogio da Morte (29)

I/ / Altas horas da noite, o Inconsciente/ Sacode-me com força, e acordo em susto./ Como se o esmagassem de repente,/ Assim me pára o coração robusto./ / Não que de larvas me povôe a mente/ Esse vácu...

A uma Mulher (30)

Para tristezas, para dor nasceste./ Podia a sorte pôr-te o berço estreito/ N'algum palácio e ao pé de régio leito,/ Em vez d'este areal onde cresceste:/ / Podia abrir-te as flores — com que veste/ As...

Sempre o Futuro, Sempre! e o Presente (31)

Sempre o futuro, sempre! e o presente/ Nunca! Que seja esta hora em que se existe/ De incerteza e de dor sempre a mais triste,/ E só farte o desejo um bem ausente!/ / Ai! que importa o futuro, se inc...

Nox (32)

Noite, vão para ti meus pensamentos,/ Quando olho e vejo, à luz cruel do dia,/ Tanto estéril lutar, tanta agonia,/ E inúteis tantos ásperos tormentos.../ / Tu, ao menos, abafas os lamentos,/ Que se e...

Justitia Mater (33)

Nas florestas solenes há o culto/ Da eterna, íntima força primitiva:/ Na serra, o grito audaz da alma cativa,/ Do coração, em seu combate inulto:/ / No espaço constelado passa o vulto/ Do inominado A...

Nocturno (34)

Espírito que passas, quando o vento/ Adormece no mar e surge a Lua,/ Filho esquivo da noite que flutua,/ Tu só entendes bem o meu tormento.../ / Como um canto longínquo - triste e lento-/ Que voga e ...

Voz de Outono (35)

Ouve tu, meu cansado coração,/ O que te diz a voz da Natureza:/ — «Mais te valera, nú e sem defesa,/ Ter nascido em aspérrima soidão,/ / Ter gemido, ainda infante, sobre o chão/ Frio e cruel da mais ...

Lacrimae Rerum (36)

Noite, irmã da Razão e irmã da Morte,/ Quantas vezes tenho eu interrogado/ Teu verbo, teu oráculo sagrado,/ Confidente e intérprete da Sorte!/ / Aonde são teus sóis, como corte/ De almas inquietas, q...

No Turbilhão (37)

(A Jaime Batalha Reis)/ / No meu sonho desfilam as visões,/ Espectros dos meus próprios pensamentos,/ Como um bando levado pelos ventos,/ Arrebatado em vastos turbilhões.../ / N'uma espiral, de estra...

Abnegação (38)

Chovam lírios e rosas no teu colo!/ Chovam hinos de glória na tua alma!/ Hinos de glória e adoração e calma,/ Meu amor, minha pomba e meu consolo!/ / Dê-te estrelas o céu, flores o solo,/ Cantos e ar...

Anima Mea (39)

Estava a Morte ali, em pé, diante,/ Sim, diante de mim, como serpente/ Que dormisse na estrada e de repente/ Se erguesse sob os pés do caminhante./ / Era de ver a fúnebre bachante!/ Que torvo olhar! ...

Comunhão (40)

Reprimirei meu pranto!... Considera/ Quantos, minh'alma, antes de nós vagaram,/ Quantos as mãos incertas levantaram/ Sob este mesmo céu de luz austera!.../ / — Luz morta! amarga a própria primavera! ...
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A Mulher por quem Esperara tantos Anos

Alguma coisa dentro dele voltou a si. Foi como se, de repente, estivessem efectivamente ali os dois. E, reacendendo a luz, encostou os lábios aos dela e sentiu, enfim, o calor que deles se emitia, e ...

Ser Pontual

Não sou pontual, porque não sinto os sofrimentos da espera. Espero que nem um boi. Porque se eu sinto uma finalidade na minha existência actual, mesmo que seja muito incerta, sinto-me na minha fraque...
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