Camilo Pessanha

Portugal
1867 // 1926
Poeta

28 Poemas

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Não Sei se Isto é Amor (1)

Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,/ Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo;/ E apesar disso, crê! nunca pensei num lar/ Onde fosses feliz, e eu feliz contigo./ Por ti nunca chorei nen...

Porque o Melhor, Enfim (2)

Porque o melhor, enfim,/ É não ouvir nem ver.../ Passarem sobre mim/ E nada me doer!/ _ Sorrindo interiormente,/ Co'as pálpebras cerradas,/ Às águas da torrente/ Já tão longe passadas. _/ Rixas, tumu...

O Meu Coração Desce (3)

O meu coração desce,/ Um balão apagado.../ _ Melhor fora que ardesse,/ Nas trevas, incendiado./ Na bruma fastidienta./ Como um caixão à cova.../ _ Porque antes não rebenta/ De dor violenta e nova?!/ ...

Violoncelo (4)

Chorai arcadas/ Do violoncelo!/ Convulsionadas,/ Pontes aladas/ De pesadelo.../ De que esvoaçam,/ Brancos, os arcos.../ Por baixo passam,/ Se despedaçam,/ No rio, os barcos./ Fundas, soluçam/ Caudais...

Branco e Vermelho (5)

A dor, forte e imprevista,/ Ferindo-me, imprevista,/ De branca e de imprevista/ Foi um deslumbramento,/ Que me endoidou a vista,/ Fez-me perder a vista,/ Fez-me fugir a vista,/ Num doce esvaimento./ ...

Poema Final (6)

Ó cores virtuais que jazeis subterrâneas,/ _ Fulgurações azuis, vermelhos de hemoptise,/ Represados clarões, cromáticas vesânias,/ No limbo onde esperais a luz que vos batize,/ As pálpebras cerrai, a...

Imagens que Passais pela Retina (7)

Imagens que passais pela retina/ Dos meus olhos, porque não vos fixais?/ Que passais como a água cristalina/ Por uma fonte para nunca mais!.../ Ou para o lago escuro onde termina/ Vosso curso, silent...

Caminho (8)

I/ / Tenho sonhos cruéis; n'alma doente/ Sinto um vago receio prematuro./ Vou a medo na aresta do futuro,/ Embebido em saudades do presente.../ Saudades desta dor que em vão procuro/ Do peito afugent...

Vida (9)

Choveu! E logo da terra humosa/ Irrompe o campo das liliáceas./ Foi bem fecunda, a estação pluviosa!/ Que vigor no campo das liliáceas!/ Calquem. Recalquem, não o afogam./ Deixem. Não calquem. Que tu...

Depois da Luta e Depois da Conquista (10)

Depois da luta e depois da conquista/ Fiquei só! Fora um ato antipático!/ Deserta a Ilha, e no lençol aquático/ Tudo verde, verde, a perder de vista./ Porque vos fostes, minhas caravelas,/ Carregadas...

Quem Rasgou os Meus Lençóis de Linho (11)

Quem poluiu, quem rasgou os meus lençóis de linho,/ Onde esperei morrer, meus tão castos lençóis?/ Do meu jardim exíguo os altos girassóis/ Quem foi que os arrancou e lançou no caminho?/ / Quem quebr...

Se Andava no Jardim (12)

Se andava no jardim/ Que cheiro de jasmim!/ Tão branca do luar!/ ................................../ ................................../ ................................../ Eis tenho-a junto a mim./ ...

Estátua (13)

Cansei-me de tentar o teu segredo:/ No teu olhar sem cor, de frio escalpelo,/ O meu olhar quebrei, a debatê-lo,/ Como a onda na crista dum rochedo./ Segredo dessa alma e meu degredo/ E minha obsessão...

Na Cadeia os Bandidos Presos! (14)

Na cadeia os bandidos presos!/ O seu ar de contemplativos!/ Que é das flores de olhos acesos?!/ Pobres dos seus olhos cativos./ Passeiam mudos entre as grades,/ Parecem peixes num aquário./ _ Campo f...

Em um Retrato (15)

De sob o cômoro quadrangular/ Da terra fresca que me há de inumar,/ E depois de já muito ter chovido,/ Quando a erva alastrar com o olvido,/ Ainda, amigo, o mesmo meu olhar/ Há de ir humilde, atraves...

Canção da Partida (16)

Ao meu coração um peso de ferro/ Eu hei de prender na volta do mar./ Ao meu coração um peso de ferro... Lançá-lo ao mar./ Quem vai embarcar, que vai degredado,/ As penas do amor não queira levar.../ ...

Floriram por Engano as Rosas Bravas (17)

Floriram por engano as rosas bravas/ No inverno: veio o vento desfolhá-las.../ Em que cismas, meu bem? Porque me calas/ As vozes com que há pouco me enganavas?/ Castelos doidos! Tão cedo caístes!.../...

Voz Débil que Passas (18)

Voz débil que passas,/ Que humílima gemes/ Não sei que desgraças.../ Dir-se-ia que pedes./ Dir-se-ia que tremes,/ Unida às paredes,/ Se vens, às escuras,/ Confiar-me ao ouvido/ Não sei que amarguras....

Depois das Bodas de Oiro (19)

Depois das bodas de oiro,/ Da hora prometida,/ Não sei que mal agoiro/ Me anoiteceu a vida.../ Temo de regressar.../ E mata-me a saudade.../ _ Mas de me recordar/ Não sei que dor me invade./ Nem quer...

Lúbrica (20)

Quando a vejo, de tarde, na alameda,/ Arrastando com ar de antiga fada,/ Pela rama da murta despontada,/ A saia transparente de alva seda,/ E medito no gozo que promete/ A sua boca fresca, pequenina,...
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