Carlos de Oliveira

Portugal
1921 // 1981
Escritor

15 Poemas



Carta a Ângela (1)

Para ti, meu amor, é cada sonho/ de todas as palavras que escrever,/ cada imagem de luz e de futuro,/ cada dia dos dias que viver./ / Os abismos das coisas, quem os nega,/ se em nós abertos inda em n...

Sono (2)

Dormir/ mas o sonho/ repassa/ duma insistente dor/ a lembrança/ da vida/ água outra vez bebida/ na pobreza da noite:/ e assim perdido/ o sono/ o olvido/ bates, coração, repetes/ sem querer/ o dia./ /...

Elegia em Chamas (3)

Arde no lar o fogo antigo/ do amor irreparável/ e de súbito surge-me o teu rosto/ entre chamas e pranto, vulnerável:/ / Como se os sonhos outra vez morressem/ no lume da lembrança/ e fosse dos teus o...

Soneto da Chuva (4)

Quantas vezes chorou no teu regaço/ a minha infância, terra que eu pisei:/ aqueles versos de água onde os direi,/ cansado como vou do teu cansaço?/ Virá abril de novo, até a tua/ memória se fartar da...

Acusam-me de Mágoa e Desalento (5)

Acusam-me de mágoa e desalento,/ como se toda a pena dos meus versos/ não fosse carne vossa, homens dispersos,/ e a minha dor a tua, pensamento./ / Hei-de cantar-vos a beleza um dia,/ quando a luz qu...

Tempo (6)

O tempo é um velho corvo/ de olhos turvos, cinzentos./ Bebe a luz destes dias só dum sorvo/ como as corujas o azeite/ dos lampadários bentos./ / E nós sorrimos,/ pássaros mortos/ no fundo dum paul/ d...

Montanha (7)

Sons sob a luz. Mosteiros,/ torres sobrenaturais,/ vibrando fluidamente no ar;/ como? se o fluxo de mica,/ os altos blocos de água,/ cintilam sem rumor./ / Toda esta arquitectura,/ lenta percussão, p...

Infância (8)

Sonhos/ enormes como cedros/ que é preciso/ trazer de longe/ aos ombros/ para achar/ no inverno da memória/ este rumor/ de lume:/ o teu perfume,/ lenha/ da melancolia./ / Carlos de Oliveira, in 'C...

Cantiga do Ódio (9)

O amor de guardar ódios/ agrada ao meu coração,/ se o ódio guardar o amor/ de servir a servidão./ Há-de sentir o meu ódio/ quem o meu ódio mereça:/ ó vida, cega-me os olhos/ se não cumprir a promessa...

Dentes (10)

Os dentes, porque são dentes,/ iniciais. Na espuma,/ porque não são saliva/ estas ondas/ pouco mordentes; este/ sal que sobe quase/ doce; donde?/ / Numa espécie/ de fogo: amor é fogo/ que arde sem se...

Leitura (11)

Quando por fim as árvores/ se tornam luminosas; e ardem/ por dentro pressentindo;/ folha a folha; as chamas/ ávidas de frio:/ nimbos e cúmulos coroam/ a tarde, o horizonte,/ com a sua auréola incande...

Filtro (12)

O poema/ filtra/ cada imagem/ já destilada/ pela distância,/ deixa-a/ mais límpida/ embora/ inadequada/ às coisas/ que tenta/ captar/ no passado/ indiferente./ / Carlos de Oliveira, in 'Micropaisa...

Lágrima (13)

A cada hora/ o frio/ que o sangue leva ao coração/ nos gela como o rio/ do tempo aos derradeiros glaciares/ quando a espuma dos mares/ se transformar em pedra./ / Ah no deserto/ do próprio céu gelado...

Bolor (14)

Os versos/ que te digam/ a pobreza que somos,/ o bolor nas paredes/ deste quarto deserto,/ o orvalho da amargura/ na flor/ de cada sonho/ e o leito desmanchado/ o peito aberto/ a que chamaste/ amor./...

Sonetos do Regresso (15)

I/ / Volto contigo à terra da ilusão,/ mas o lar de meus pais levou-o o vento/ e se levou a pedra dos umbrais/ o resto é esquecimento:/ procurar o amor neste deserto/ onde tudo me ensina a viver só/ ...


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