Charles Baudelaire

França
9 Abr 1821 // 31 Ago 1867
Poeta/Escritor/Crítico

30 Poemas

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A Música (1)

A música p'ra mim tem seduções de oceano!/ Quantas vezes procuro navegar,/ Sobre um dorso brumoso, a vela a todo o pano,/ Minha pálida estrela a demandar!/ / O peito saliente, os pulmões distendidos/...

Spleen (2)

Quando o cinzento céu, como pesada tampa,/ Carrega sobre nós, e nossa alma atormenta,/ E a sua fria cor sobre a terra se estampa,/ O dia transformado em noite pardacenta;/ / Quando se muda a terra em...

O Homem e o Mar (3)

Homem livre, o oceano é um espelho fulgente/ Que tu sempre hás-de amar. No seu dorso agitado,/ Como em puro cristal, contemplas, retratado,/ Teu íntimo sentir, teu coração ardente./ / Gostas de te ba...

Tédio (4)

Tenho as recordações d'um velho milenário!/ / Um grande contador, um prodigioso armário,/ Cheiinho, a abarrotar, de cartas memoriais,/ Bilhetinhos de amor, recibos, madrigais,/ Mais segredos não tem ...

O Albatroz (5)

Às vezes no alto mar, distrai-se a marinhagem/ Na caça do albatroz, ave enorme e voraz,/ Que segue pelo azul a embarcação em viagem,/ Num vôo triunfal, numa carreira audaz./ / Mas quando o albatroz s...

Obsessão (6)

Os bosques para mim são como catedrais,/ Com orgãos a ulular, incutindo pavor.../ E os nossos corações, - jazidas sepulcrais,/ De profundis também soluçam, n'um clamor./ / Odeio do oceano as i...

A Beleza (7)

De um sonho escultural tenho a beleza rara,/ E o meu seio, — jardim onde cultivo a dor,/ Faz despertar no Poeta um vivo e intenso amor,/ Com a eterna mudez do marmor' de Carrara/ / Sou esfinge subtil...

Perfume Exótico (8)

Quando eu a dormitar, num íntimo abandono,/ Respiro o doce olor do teu colo abrasante,/ Vejo desenrolar paisagem deslumbrante/ Na auréola de luz d'um triste sol de outono;/ / Um éden terreal, uma ind...

Sepultura d'um Poeta Maldito (9)

Se, em noite horrorosa, escura,/ Um cristão, por piedade,/ te conceder sepultura/ Nas ruínas d'alguma herdade,/ / As aranhas hão-de armar/ No teu coval suas teias,/ E nele irão procriar/ Víboras e ce...

Elevação (10)

Por cima dos paúes, das montanhas agrestes,/ Dos rudes alcantis, das nuvens e do mar,/ Muito acima do sol, muito acima do ar,/ Para além do confim dos páramos celestes,/ / Paira o espírito meu com to...

Génio do Mal (11)

Gostavas de tragar o universo inteiro,/ Mulher impura e cruel! Teu peito carniceiro,/ Para se exercitar no jogo singular,/ Por dia um coração precisa devorar./ Os teus olhos, a arder, lembram as gamb...

O Inimigo (12)

A mocidade foi-me um temporal bem triste,/ Onde raro brilhou a luz d'um claro dia;/ Tanta chuva caiu, que quase não existe/ Uma flor no jardim da minha fantasia./ / E agora, que alcancei o outono, al...

Os Mochos (13)

Sob os feixos onde habitam,/ Os mochos formam em filas;/ Fugindo as rubras pupilas,/ Mudos e quietos, meditam./ / E assim permanecerão/ Até o Sol se ir deitar/ No leito enorme do mar,/ Sob um sombrio...

Intangível (14)

Quero-te como quero à abóbada nocturna,/ Ó vazo de tristeza, ó grande taciturna!/ E tanto mais te quero, ó minha bem amada,/ Por te ver a fugir, mostrado-te empenhada/ Em fazer aumentar, irónica, a d...

A Giganta (15)

No tempo em que a Natura, augusta, fecundanta,/ Seres descomunais dava à terra mesquinha,/ Eu quisera viver junto d'uma giganta,/ Como um gatinho manso aos pés d'uma rainha!/ / Gosta de assistir-lhe ...

Correspondências (16)

A natureza é um templo augusto, singular,/ Que a gente ouve exprimir em língua misteriosa;/ Um bosque simbolista onde a árvore frondosa/ Vê passar os mortais, e segue-os com o olhar./ / Como distinto...

Ciganos em Viagem (17)

A tribo que prevê a sina dos viventes/ Levantou arraiais hoje de madrugada;/ Nos carros, as mulher', c'o a torva filharada/ Às costas ou sugando os mamilos pendentes;/ / Ao lado dos carrões, na pedre...

O Morto Prazenteiro (18)

Onde haja caracóis, n'um fecundo torrão,/ Uma grandiosa cova eu mesmo quero abrir,/ Onde repouse em paz, onde possa dormir,/ Como dorme no oceano o livre tubarão./ / Detesto os mausoléus, odeio os mo...

O Tonel do Rancor (19)

O Rancor é o tonel das Danaidas alvíssimas;/ A Vingança, febril, grandes olhos absortos,/ procura em vão encher-lhes as trevas profundíssimas,/ Constante, a despejar pranto e sangue de mortos./ / O D...

O Ideal (20)

Nunca poderá ser pálida bonequinha,/ Produto sem frescor qual manequim de molas,/ Pés para borzeguins, dedos p'ra castanholas,/ Que há-de satisfazer almas como esta minha./ / Eu deixo a Gavarni, poet...
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Pesquisa

Ver Correr a Esperança

De bruços sobre o lavatório, abro a torneira, tapo o ralo, fico alguns momentos a ver correr a esperança, que vai enchendo aos poucos a bacia. Depois fecho a torneira e, retirando a tampa, vejo-a esc...

Ser Pontual

Não sou pontual, porque não sinto os sofrimentos da espera. Espero que nem um boi. Porque se eu sinto uma finalidade na minha existência actual, mesmo que seja muito incerta, sinto-me na minha fraque...
Inspirações

Amar para Sempre

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