Charles Baudelaire

França
1821 // 1867
Poeta/Escritor/Crítico

30 Poemas

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A Música (1)

A música p'ra mim tem seduções de oceano!/ Quantas vezes procuro navegar,/ Sobre um dorso brumoso, a vela a todo o pano,/ Minha pálida estrela a demandar!/ / O peito saliente, os pulmões distendidos/...

Spleen (2)

Quando o cinzento céu, como pesada tampa,/ Carrega sobre nós, e nossa alma atormenta,/ E a sua fria cor sobre a terra se estampa,/ O dia transformado em noite pardacenta;/ / Quando se muda a terra em...

O Homem e o Mar (3)

Homem livre, o oceano é um espelho fulgente/ Que tu sempre hás-de amar. No seu dorso agitado,/ Como em puro cristal, contemplas, retratado,/ Teu íntimo sentir, teu coração ardente./ / Gostas de te ba...

Tédio (4)

Tenho as recordações d'um velho milenário!/ / Um grande contador, um prodigioso armário,/ Cheiinho, a abarrotar, de cartas memoriais,/ Bilhetinhos de amor, recibos, madrigais,/ Mais segredos não tem ...

O Albatroz (5)

Às vezes no alto mar, distrai-se a marinhagem/ Na caça do albatroz, ave enorme e voraz,/ Que segue pelo azul a embarcação em viagem,/ Num vôo triunfal, numa carreira audaz./ / Mas quando o albatroz s...

Obsessão (6)

Os bosques para mim são como catedrais,/ Com orgãos a ulular, incutindo pavor.../ E os nossos corações, - jazidas sepulcrais,/ De profundis também soluçam, n'um clamor./ / Odeio do oceano as i...

Perfume Exótico (7)

Quando eu a dormitar, num íntimo abandono,/ Respiro o doce olor do teu colo abrasante,/ Vejo desenrolar paisagem deslumbrante/ Na auréola de luz d'um triste sol de outono;/ / Um éden terreal, uma ind...

A Beleza (8)

De um sonho escultural tenho a beleza rara,/ E o meu seio, — jardim onde cultivo a dor,/ Faz despertar no Poeta um vivo e intenso amor,/ Com a eterna mudez do marmor' de Carrara/ / Sou esfinge subtil...

Sepultura d'um Poeta Maldito (9)

Se, em noite horrorosa, escura,/ Um cristão, por piedade,/ te conceder sepultura/ Nas ruínas d'alguma herdade,/ / As aranhas hão-de armar/ No teu coval suas teias,/ E nele irão procriar/ Víboras e ce...

Génio do Mal (10)

Gostavas de tragar o universo inteiro,/ Mulher impura e cruel! Teu peito carniceiro,/ Para se exercitar no jogo singular,/ Por dia um coração precisa devorar./ Os teus olhos, a arder, lembram as gamb...

Os Mochos (11)

Sob os feixos onde habitam,/ Os mochos formam em filas;/ Fugindo as rubras pupilas,/ Mudos e quietos, meditam./ / E assim permanecerão/ Até o Sol se ir deitar/ No leito enorme do mar,/ Sob um sombrio...

Elevação (12)

Por cima dos paúes, das montanhas agrestes,/ Dos rudes alcantis, das nuvens e do mar,/ Muito acima do sol, muito acima do ar,/ Para além do confim dos páramos celestes,/ / Paira o espírito meu com to...

Intangível (13)

Quero-te como quero à abóbada nocturna,/ Ó vazo de tristeza, ó grande taciturna!/ E tanto mais te quero, ó minha bem amada,/ Por te ver a fugir, mostrado-te empenhada/ Em fazer aumentar, irónica, a d...

A Giganta (14)

No tempo em que a Natura, augusta, fecundanta,/ Seres descomunais dava à terra mesquinha,/ Eu quisera viver junto d'uma giganta,/ Como um gatinho manso aos pés d'uma rainha!/ / Gosta de assistir-lhe ...

Correspondências (15)

A natureza é um templo augusto, singular,/ Que a gente ouve exprimir em língua misteriosa;/ Um bosque simbolista onde a árvore frondosa/ Vê passar os mortais, e segue-os com o olhar./ / Como distinto...

Ciganos em Viagem (16)

A tribo que prevê a sina dos viventes/ Levantou arraiais hoje de madrugada;/ Nos carros, as mulher', c'o a torva filharada/ Às costas ou sugando os mamilos pendentes;/ / Ao lado dos carrões, na pedre...

O Morto Prazenteiro (17)

Onde haja caracóis, n'um fecundo torrão,/ Uma grandiosa cova eu mesmo quero abrir,/ Onde repouse em paz, onde possa dormir,/ Como dorme no oceano o livre tubarão./ / Detesto os mausoléus, odeio os mo...

O Inimigo (18)

A mocidade foi-me um temporal bem triste,/ Onde raro brilhou a luz d'um claro dia;/ Tanta chuva caiu, que quase não existe/ Uma flor no jardim da minha fantasia./ / E agora, que alcancei o outono, al...

O Tonel do Rancor (19)

O Rancor é o tonel das Danaidas alvíssimas;/ A Vingança, febril, grandes olhos absortos,/ procura em vão encher-lhes as trevas profundíssimas,/ Constante, a despejar pranto e sangue de mortos./ / O D...

O Ideal (20)

Nunca poderá ser pálida bonequinha,/ Produto sem frescor qual manequim de molas,/ Pés para borzeguins, dedos p'ra castanholas,/ Que há-de satisfazer almas como esta minha./ / Eu deixo a Gavarni, poet...
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