Eugénio de Andrade

Portugal
19 Jan 1923 // 13 Jun 2005
Poeta

30 Poemas

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Poema à Mãe (1)

No mais fundo de ti,/ eu sei que traí, mãe/ / Tudo porque já não sou/ o retrato adormecido/ no fundo dos teus olhos./ / Tudo porque tu ignoras/ que há leitos onde o frio não se demora/ e noites rumor...

Adeus (2)

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,/ e o que nos ficou não chega/ para afastar o frio de quatro paredes./ Gastámos tudo menos o silêncio./ Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,/ gastámos ...

Urgentemente (3)

É urgente o amor/ É urgente um barco no mar/ / É urgente destruir certas palavras,/ ódio, solidão e crueldade,/ alguns lamentos, muitas espadas./ / É urgente inventar alegria,/ multiplicar os beijos,...

Até Amanhã (4)

Sei agora como nasceu a alegria,/ como nasce o vento entre barcos de papel,/ como nasce a água ou o amor/ quando a juventude não é uma lágrima./ / É primeiro só um rumor de espuma/ à roda do corpo q...

Os Amigos (5)

Os amigos amei/ despido de ternura/ fatigada;/ uns iam, outros vinham,/ a nenhum perguntava/ porque partia,/ porque ficava;/ era pouco o que tinha,/ pouco o que dava,/ mas também só queria/ partilhar...

Procuro-te (6)

Procuro a ternura súbita,/ os olhos ou o sol por nascer/ do tamanho do mundo,/ o sangue que nenhuma espada viu,/ o ar onde a respiração é doce,/ um pássaro no bosque/ com a forma de um grito de alegr...

As Palavras Interditas (7)

Os navios existem, e existe o teu rosto/ encostado ao rosto dos navios./ Sem nenhum destino flutuam nas cidades,/ partem no vento, regressam nos rios./ / Na areia branca, onde o tempo começa,/ uma cr...

O Silêncio (8)

Quando a ternura/ parece já do seu ofício fatigada,/ / e o sono, a mais incerta barca,/ inda demora,/ / quando azuis irrompem/ os teus olhos/ / e procuram/ nos meus navegação segura,/ / é que eu te f...

O Amor (9)

Estou a amar-te como o frio/ corta os lábios./ / A arrancar a raiz/ ao mais diminuto dos rios./ / A inundar-te de facas,/ de saliva esperma lume./ / Estou a rodear de agulhas/ a boca mais vulnerável/...

Outono (10)

O outono vem vindo, chegam melancolias,/ cavam fundo no corpo,/ instalam-se nas fendas; às vezes/ por aí ficam com a chuva/ apodrecendo;/ ou então deixam marcas; as putas,/ difíceis de apagar, de tão...

Retrato Ardente (11)

Entre os teus lábios/ é que a loucura acode/ desce à garganta,/ invade a água./ / No teu peito/ é que o pólen do fogo/ se junta à nascente,/ alastra na sombra./ / Nos teus flancos/ é que a fonte come...

Desde a Aurora (12)

Como um sol de polpa escura/ para levar à boca,/ eis as mãos:/ procuram-te desde o chão,/ / entre os veios do sono/ e da memória procuram-te:/ à vertigem do ar/ abrem as portas:/ / vai entrar o vento...

Nocturno a Duas Vozes (13)

— Que posso eu fazer/ senão beber-te os olhos/ enquanto a noite/ não cessa de crescer?/ / — Repara como sou jovem,/ como nada em mim/ encontrou o seu cume,/ como nenhuma ave/ poisou ainda nos meus ra...

Coração Habitado (14)

Aqui estão as mãos./ São os mais belos sinais da terra./ Os anjos nascem aqui:/ frescos, matinais, quase de orvalho,/ de coração alegre e povoado./ / Ponho nelas a minha boca,/ respiro o sangue, o se...

Labirinto ou Alguns Lugares de Amor (15)

O outono/ por assim dizer/ pois era verão/ forrado de agulhas/ / a cal/ rumorosa/ do sol dos cardos/ / sem outras mãos que lentas barcas/ vai-se aproximando a água/ / a nudez do v...

Litania (16)

O teu rosto inclinado pelo vento;/ a feroz brancura dos teus dentes;/ as mãos, de certo modo, irresponsáveis,/ e contudo sombrias, e contudo transparentes;/ / o triunfo cruel das tuas pernas,/ coluna...

Obscuro Domínio (17)

Amar-te assim desvelado/ entre barro fresco e ardor./ Sorver o rumor das luzes/ entre os teus lábios fendidos./ / Deslizar pela vertente/ da garganta, ser música/ onde o silêncio aflui/ e se concentr...

Sobre o Caminho (18)

Nada/ / nem o branco fogo do trigo/ nem as agulhas cravadas na pupila dos pássaros/ te dirão a palavra/ / Não interrogues não perguntes/ entre a razão e a turbulência da neve/ não há diferença/ / Não...

Pequena Elegia de Setembro (19)

Não sei como vieste,/ mas deve haver um caminho/ para regressar da morte./ / Estás sentada no jardim,/ as mãos no regaço cheias de doçura,/ os olhos pousados nas últimas rosas/ dos grandes e calmos d...

Último Poema (20)

É Natal, nunca estive tão só./ Nem sequer neva como nos versos/ do Pessoa ou nos bosques/ da Nova Inglaterra./ Deixo os olhos correr/ entre o fulgor dos cravos/ e os dióspiros ardendo na sombra./ Que...
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