Francisco Joaquim Bingre

Portugal
1763 // 1856
Poeta

40 Poemas

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Água (21)

O líquido delgado e transparente/ Com que o barro amassou o Autor sob'rano,/ Da insigne construção do corpo humano,/ Que temperas do home o fogo ardente!/ / Quando a chama se ateia em continente/ Tu ...

Amar sem Possuir é um Tormento (22)

Se a ti, onde Amor leva o pensamento,/ Meu triste coração levar pudesse,/ Dó terias, cruel, do que padece,/ S'inda em teu peito cabe sentimento./ / Amar sem possuir é um tormento/ Que só quem o supor...

Ao Tempo (23)

Levanta o pano, ó tragador das eras,/ A cena mostra das fatais desditas,/ Pois que no giro das paixões que incitas/ Tragar venturas, vorazmente, esperas./ / Do vário mundo que só nutre feras,/ Co'a t...

Inverno (24)

Já na quarta estação final da vida/ Estou, do triste Inverno rigoroso./ Fustigado do tempo borrascoso,/ Co'a saraiva das asas sacudida./ / Gelada tenho a fronte encanecida,/ O sangue frio, pálido e s...

Paraíso (25)

Sala imensa de luz, que o pavimento/ Uma esmeralda é só, que tem por tecto/ Inteiriça safira, que o Arquitecto/ Supremo abobadou, com sábio invento./ / Trono dum só diamante, em trino assento,/ De qu...

Inferno (26)

Há no centro da Terra ampla caverna,/ Reino imenso dos anjos rebelados,/ Lago horrendo de enxofres inflamados,/ Que acende o sopro da Vingança eterna./ / O seu fogo maldito é sem lucerna,/ Que faz tr...

Juízo (27)

Quando, nos quatro ângulos da Terra,/ Troarem as trombetas ressurgentes,/ Despertadoras dos mortais dormentes,/ Por onde um Deus irado aos homens berra:/ / Prontos, num campo, em apinhada serra,/ Tod...

A Minha Amada Será um Assombro de Beleza (28)

Muitos hão-de julgar que a minha amada/ Será um raro assombro de beleza./ Porém, não é assim, à Natureza/ Ela só deve uma Alma bem formada./ / Os dotes pessoais de que é ornada/ São filhos duma pura ...

Morte não é a Esquálida Caveira (29)

Morte não é a esquálida caveira/ Dura, disforme, seca e carcomida: / Ela um destroço é, uma caída/ Da abreviada, racional carreira./ / De ossos e carne envernizada, inteira,/ Por vida tem a nossa pró...

Conheço o Teu Poder e a Fouce Dura (30)

Conheço o teu poder e a fouce dura/ Que a tua dextra empolga assaz respeito./ Sei que abaixo do sol tudo é sujeito/ A teu poder feroz, tua bravura./ / De Babilónia a torre assaz segura/ De teu golpe ...

O Tempo Gastador de Mil Idades (31)

O Tempo gastador de mil idades,/ Que na décima esfera vive e mora,/ Não descansa co'a Fúria tragadora,/ De exercitar, feroz, suas crueldades./ / Ele destrói as ínclitas cidades,/ As egípcias pirâmide...

Nenhum Mortal no Mundo Satisfeito (32)

Nenhum mortal no mundo satisfeito/ Com sua Sorte está, nunca é contente,/ Pois de mil desatinos enche a mente/ Sem que possa gozar um bem perfeito./ / O soldado deseja o canto estreito/ Da cela do er...

O Sábio não Vai em Grossos Rios (33)

Quão bem aventurado e quão ditoso/ O sábio é, que parco passa a vida/ Medindo, alegre, a entrada co'a saída/ Do Mundo vão, sem medo do invejoso!/ / Quem c'o pouco que tem vive gostoso,/ Cos desejos n...

Princípio de Amores com Marília (34)

Um rácimo ferral engrinaldado/ Com rosas carmesins no seu regaço,/ Tinha Marília um dia, e o pé, c'um laço,/ De fita verde mar lhe tinha atado./ / Eu, de seus magos olhos já tocado,/ Junto dela chegu...

Quem não Ama, Desmente a Natureza (35)

Se a flor namora a flor que lhe é vizinha,/ Se uma palma com outra enlaça os ramos,/ Se nos prados, com cândidos reclamos,/ Namora uma avezinha outra avezinha./ / Se o mundo o seu Autor quando o sust...

Às Cambalhotas Sempre Anda a Través (36)

Às cambalhotas sempre anda a través/ O Mundo, sem poder-se endireitar./ Velho, bêbado e tonto, a cambalear,/ Já não pode suster-se sobre os pés./ / Tudo nele se vê hoje de invés/ Pois seu eixo quebro...

Estio (37)

Saí da Primavera, entrei no Estio/ Das fogosas funções da mocidade./ Nesta estação louçã da minha idade,/ Entreguei-me às paixões, com desvario./ / Qual cavalo rinchão, solto com cio,/ Saltei desenfr...

Primavera (38)

Passei a Primavera de meus anos/ Com maternais desvelos amorosos./ Com meiguices, afagos carinhosos,/ Com mimos de solícitos afanos./ / Desenfaixado dos primeiros panos,/ Pus-me em pé, dei passinhos ...

Morte (39)

Num imenso salão, alto e rotundo,/ De caveiras iguais, ossos sem dono,/ Perpétua habitação de eterno sono/ Que tem por tecto o Céu, por base o mundo:/ / Bem no meio, em silêncio o mais profundo,/ Se ...

Feliz Habitação da Minha Amada (40)

Feliz habitação da minha Amada,/ Ninho de Amor, albergue da Ternura,/ Onde, outro tempo, a próspera Ventura/ Dormia nos meus braços, descuidada./ / Então, minha Alma terna, embriagada,/ Gostava do pr...
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