Jorge Luis Borges

Argentina
1899 // 1986
Escritor

14 Poemas



Sou (1)

Sou o que sabe não ser menos vão/ Que o vão observador que frente ao mudo/ Vidro do espelho segue o mais agudo/ Reflexo ou o corpo do irmão./ Sou, tácitos amigos, o que sabe/ Que a única vingança ou ...

O Apaixonado (2)

Luas, marfins, instrumentos e rosas,/ Traços de Dúrer, lampiões austeros,/ Nove algarismos e o cambiante zero,/ Devo fingir que existem essas coisas./ Fingir que no passado aconteceram/ Persépolis e ...

Os Justos (3)

Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire./ O que agradece que na terra haja música./ O que descobre com prazer uma etimologia./ Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso ...

Não és os Outros (4)

Não há-de te salvar o que deixaram/ Escrito aqueles que o teu medo implora;/ Não és os outros e encontras-te agora/ No meio do labirinto que tramaram/ Teus passos. Não te salva a agonia/ De Jesus ou ...

As Causas (5)

Todas as gerações e os poentes./ Os dias e nenhum foi o primeiro./ A frescura da água na garganta/ De Adão. O ordenado Paraíso./ O olho decifrando a maior treva./ O amor dos lobos ao raiar da alba./ ...

O Suicida (6)

Não restará na noite uma só estrela./ Não restará a noite./ Morrerei e comigo irá a soma/ Do intolerável universo./ Apagarei medalhas e pirâmides,/ Os continentes e os rostos./ Apagarei a acumulação ...

Do que Nada se Sabe (7)

A lua ignora que é tranquila e clara/ E não pode sequer saber que é lua;/ A areia, que é a areia. Não há uma/ Coisa que saiba que sua forma é rara./ As peças de marfim são tão alheias/ Ao abstracto x...

Nostalgia do Presente (8)

Naquele preciso momento o homem disse:/ «O que eu daria pela felicidade/ de estar ao teu lado na Islândia/ sob o grande dia imóvel/ e de repartir o agora/ como se reparte a música/ ou o sabor de um f...

Nem Sequer Sou Poeira (9)

Não quero ser quem sou. A avara sorte/ Quis-me oferecer o século dezassete,/ O pó e a rotina de Castela,/ As coisas repetidas, a manhã/ Que, prometendo o hoje, dá a véspera,/ A palestra do padre ou d...

O Cúmplice (10)

Crucificam-me e eu tenho de ser a cruz e os pregos./ Estendem-me a taça e eu tenho de ser a cicuta./ Enganam-me e eu tenho de ser a mentira./ Incendeiam-me e eu tenho de ser o inferno./ Tenho de louv...

Os Meus Livros (11)

Os meus livros (que não sabem que existo)/ São uma parte de mim, como este rosto/ De têmporas e olhos já cinzentos/ Que em vão vou procurando nos espelhos/ E que percorro com a minha mão côncava./ Nã...

O Remorso (12)

Cometi o pior desses pecados/ Que podem cometer-se. Não fui sendo/ Feliz. Que os glaciares do esquecimento/ Me arrastem e me percam, despiedados./ Plos meus pais fui gerado para o jogo/ Arriscado e t...

Elegia da Lembrança Impossível (13)

O que não daria eu pela memória/ De uma rua de terra com baixos taipais/ E de um alto ginete enchendo a alba/ (Com o poncho grande e coçado)/ Num dos dias da planície,/ Num dia sem data./ O que não d...

Em Memória de Angélica (14)

Quantas vidas possíveis já descansam/ Nesta bem pobre e diminuta morte,/ Quantas vidas possíveis que outra sorte/ Daria ao esquecimento ou à lembrança!/ Quando eu morrer, morrerá um passado;/ Com est...


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