José de Sousa Saramago

Portugal
16 Nov 1922 // 18 Jun 2010
Escritor [Nobel 1998]

12 Poemas



Química (1)

Sublimemos, amor. Assim as flores/ No jardim não morreram se o perfume/ No cristal da essência se defende./ Passemos nós as provas, os ardores:/ Não caldeiam instintos sem o lume/ Nem o secreto aroma...

No Coração, Talvez (2)

No coração, talvez, ou diga antes:/ Uma ferida rasgada de navalha,/ Por onde vai a vida, tão mal gasta./ Na total consciência nos retalha./ O desejar, o querer, o não bastar,/ Enganada procura da raz...

Intimidade (3)

No coração da mina mais secreta,/ No interior do fruto mais distante,/ Na vibração da nota mais discreta,/ No búzio mais convolto e ressoante,/ / Na camada mais densa da pintura,/ Na veia que no corp...

Não me Peçam Razões... (4)

Não me peçam razões, que não as tenho,/ Ou darei quantas queiram: bem sabemos/ Que razões são palavras, todas nascem/ Da mansa hipocrisia que aprendemos./ / Não me peçam razões por que se entenda/ A ...

As Palavras de Amor (5)

Esqueçamos as palavras, as palavras:/ As ternas, caprichosas, violentas,/ As suaves de mel, as obscenas,/ As de febre, as famintas e sedentas./ / Deixemos que o silêncio dê sentido/ Ao pulsar do meu ...

Demissão (6)

Este mundo não presta, venha outro./ Já por tempo de mais aqui andamos/ A fingir de razões suficientes./ Sejamos cães do cão: sabemos tudo/ De morder os mais fracos, se mandamos,/ E de lamber as mãos...

Aprendamos, Amor (7)

Aprendamos, amor, com estes montes/ Que, tão longe do mar, sabem o jeito/ De banhar no azul dos horizontes./ / Façamos o que é certo e de direito:/ Dos desejos ocultos outras fontes/ E desçamos ao ma...

Alegria (8)

Já ouço gritos ao longe/ Já diz a voz do amor/ A alegria do corpo/ O esquecimento da dor/ / Já os ventos recolheram/ Já o verão se nos oferece/ Quantos frutos quantas fontes/ Mais o sol que nos aquec...

Passado, Presente, Futuro (9)

Eu fui. Mas o que fui já me não lembra:/ Mil camadas de pó disfarçam, véus,/ Estes quarenta rostos desiguais./ Tão marcados de tempo e macaréus./ / Eu sou. Mas o que sou tão pouco é:/ Rã fugida do ch...

Arte de Amar (10)

Metidos nesta pele que nos refuta,/ Dois somos, o mesmo que inimigos./ Grande coisa, afinal, é o suor/ (Assim já o diziam os antigos):/ Sem ele, a vida não seria luta,/ Nem o amor amor./ / José Sa...

Teu Corpo de Terra e Água (11)

Teu corpo de terra e água/ Onde a quilha do meu barco/ Onde a relha do arado/ Abrem rotas e caminho/ / Teu ventre de seivas brancas/ Tuas rosas paralelas/ Tuas colunas teu centro/ Teu fogo de verde p...

Onde a Sombra de Ti (12)

Onde a sombra de ti, o meu perfil/ É linha de certeza. Aí são convergentes/ As vagas circulares, no seu limite/ O ponto rigoroso se propaga./ Aí se reproduz a voz inicial,/ A palavra solar, o laço da...


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O Sustentáculo do Amor

A paz é algo que nenhum homem pode dar a outro. Um dos fins mais importantes para quem arrisca ser quem é será o de construir a sua própria paz. Esta resulta de um trabalho duro de equilíbrio das von...

A Realidade Transfigurada

Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada. O que te direi? te direi os instantes. Exorbito-me e só então é que e...