Manuel Maria Barbosa du Bocage

Portugal
15 Set 1765 // 21 Dez 1805
Poeta

36 Poemas

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Lusos Heróis, Cadáveres Cediços (21)

Lusos heróis, cadáveres cediços, / Erguei-vos dentre o pó, sombras honradas, / Surgi, vinde exercer as mãos mirradas / Nestes vis, nestes cães, nestes mestiços./ / Vinde salvar destes pardais castiço...

Por esta Solidão, que não Consente (22)

Por esta solidão, que não consente / Nem do sol, nem da lua a claridade, / Ralado o peito pela saudade/ Dou mil gemidos a Marília ausente: / / De seus crimes a mancha inda recente/ Lava Amor, e triun...

Adamastor Cruel! De Teus Furores (23)

Adamastor cruel! De teus furores/ Quantas vezes me lembro horrorizado!/ Ó monstro! Quantas vezes tens tragado/ Do soberbo Oriente os domadores!/ / Parece-me que entregue a vis traidores/ Estou vendo ...

Aos Mesmos (24)

De insípida sessão no inútil dia/ Juntou-se do Parnaso a galegage;/ Em frase hirsuta, em gótica linguage,/ Belmiro um ditirambo principia. / / Taful que o português não lhe entendia,/ Nem ao resto da...

Gratidão (25)

A minha gratidão te dá meus versos:/ Meus versos, da lisonja não tocados,/ Satélites de Amor, Amor seguindo/ Co'as asas que lhes pôs benigna Fama,/ Qual níveo bando de inocentes pombas,/ Os lares vão...

O Céu, de Opacas Sombras Abafado (26)

O céu, de opacas sombras abafado, / Tornando mais medonha a noite fea, / Mugindo sobre as rochas, que saltea, / O mar, em crespos montes levantado; / / Desfeito em furacões o vento irado;/ Pelos ares...

Raios não Peço ao Criador do Mundo (27)

Raios não peço ao Criador do mundo, / Tormentas não suplico ao rei dos mares, / Vulcões à terra, furacões aos ares, / Negros monstros ao báratro profundo: / / Não rogo ao deus do Amor, que furibundo/...

Cede a Filosofia à Natureza (28)

Tenho assaz conservado o rosto enxuto/ Contra as iras do Fado omnipotente;/ Assaz contigo, ó Sócrates, na mente,/ À dor neguei das queixas o tributo./ / Sinto engelhar-se da constância o fruto,/ Cai ...

Já Sobre o Coche de Ébano Estrelado (29)

Já sobre o coche de ébano estrelado, / Deu meio giro a Noite escura e feia, / Que profundo silêncio me rodeia / Neste deserto bosque, à luz vedado!/ / Jaz entre as folhas Zéfiro abafado, / O Tejo ado...

Autobiografia (30)

De cerúleo gabão não bem coberto, / passeia em Santarém chuchado moço,/ mantido, às vezes, de sucinto almoço, / de ceia casual, jantar incerto; / / dos esbrugados peitos quase aberto,/ versos impinge...

Fiei-me nos Sorrisos da Ventura (31)

Fiei-me nos sorrisos da ventura,/ Em mimos feminis, como fui louco! / Vi raiar o prazer; porém tão pouco / Momentâneo relâmpago não dura: / / No meio agora desta selva escura, / Dentro deste penedo h...

Eu Deliro, Gertrúria, eu Desespero (32)

Eu deliro, Gertrúria, eu desespero/ No inferno de suspeitas e temores./ Eu da morte as angústias e os horrores/ Por mil vezes sem morrer tolero./ / Pelo Céu, por teus olhos te assevero/ Que ferve est...

Ó Trevas, que Enlutais a Natureza (33)

Ó trevas, que enlutais a Natureza,/ Longos ciprestes desta selva anosa,/ Mochos de voz sinistra e lamentosa,/ Que dissolveis dos fados a incerteza;/ / Manes, surgidos da morada acesa/ Onde de horror ...

Aquele, a Quem Mil Bens Outorga o Fado (34)

Aquele, a quem mil bens outorga o Fado, / Desejo com razão da vida amigo / Nos anos igualar Nestor, o antigo,/ De trezentos invernos carregado: / / Porém eu sempre triste, eu desgraçado, / Que só nes...

O Redentor Chorando (35)

Se considero o triste abatimento/ Em que me faz jazer minha desgraça,/ A desesperação me despedaça,/ No mesmo instante, o frágil sofrimento./ / Mas súbito me diz o pensamento,/ Para aplacar-me a dor ...

Meus Olhos, Atentai no Meu Jazigo (36)

Meus olhos, atentai no meu jazigo, / Que o momento da morte está chegado; / Lá soa o corvo, intérprete do fado; / Bem o entendo, bem sei, fala comigo: / / Triunfa, Amor, gloria-te, inimigo; / E tu, q...
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Arrumar os Mortos

É preciso que compreendam: nós não temos competência para arrumarmos os mortos no lugar do eterno. Os nossos defuntos desconhecem a sua condição definitiva: desobedientes, invadem-nos o quotidiano, ...

Eu Acredito na História

Eu acredito na História. Por isso, espero que ela escarre um dia sobre esta época, agoniada de nojo. Será tarde, evidentemente, para que os tartufos de agora sintam o cilindro da justiça a brunir-lhe...
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