Miguel Torga

Portugal
12 Ago 1907 // 17 Jan 1995
Escritor/Poeta

49 Poemas

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Natal Divino (21)

Natal divino ao rés-do-chão humano,/ Sem um anjo a cantar a cada ouvido./ Encolhido/ À lareira,/ Ao que pergunto/ Respondo/ Com as achas que vou pondo/ Na fogueira./ / O mito apenas velado/ Como um c...

Súplica (22)

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,/ E que nele posso navegar sem rumo,/ Não respondas/ Às urgentes perguntas/ Que te fiz./ Deixa-me ser feliz/ Assim,/ Já tão longe de ti, como de mim./ / Perde-...

Livro de Horas (23)

Aqui, diante de mim,/ Eu, pecador, me confesso/ De ser assim como sou./ Me confesso o bom e o mau/ Que vão ao leme da nau/ Nesta deriva em que vou./ / Me confesso/ Possesso/ De virtudes teologais,/ Q...

Paz (24)

Calado ao pé de ti, depois de tudo,/ Justificado/ Como o instinto mandou,/ Ouço, nesta mudez,/ A força que te dobrou,/ Serena, dizer quem és/ E quem sou./ / Miguel Torga, in 'Diário (1939)'...

Calmaria (25)

Nada!/ Horas e horas neste ponto morto/ Onde caiu agora a minha vida.../ Nem um desejo, ao menos!/ Só instintos pequenos:/ Apetite de cama e de comida!/ / Nem sequer ler um livro/ Ou conversar comigo...

Bilhete (26)

Nada me dês nem peças./ E não meças/ O que podias dar e receber./ Fecha a própria riqueza do teu ser./ / Um de nós era a mais/ À lírica janela.../ Olharam-se os zagais,/ Mas não houve novela./ / A vi...

Clarão (27)

O que isto é, viver!/ Abrir os olhos, ver,/ E ser o nevoeiro que se vê!/ Nevoeiro ao nascer,/ Nevoeiro ao morrer,/ E um destino na mão que se não lê.../ / Miguel Torga, in 'Diário (1942)'...

Pedido (28)

Ama-me sempre, como à flor do lírio/ Bravo e sózinho, a quem a gente quer/ Mesmo já seco na recordação./ Ama-me sempre, cheia da certeza/ De que, lírio que sou da natureza,/ Na minha altura eu brotar...

Vendaval (29)

Meu coração quebrou./ Era um cedro perfeito;/ Mas o vento da vida levantou,/ E aquele prumo do céu caiu direito./ / Nos bons tempos felizes/ Em que ele batia, erguido,/ Desde a rama às raízes/ Era se...

Cântico de Humanidade (30)

Hinos aos deuses, não./ Os homens é que merecem/ Que se lhes cante a virtude./ Bichos que lavram no chão,/ Actuam como parecem,/ Sem um disfarce que os mude./ / Apenas se os deuses querem/ Ser homens...

Da Realidade (31)

Que renda fez a tarde no jardim,/ Que há cedros que parecem de enxoval?/ Como é difícil ver o natural/ Quando a hora não quer!/ Ah! não digas que não ao que os teus olhos/ Colham nos dias de irrealid...

Princípio (32)

Não tenho deuses. Vivo/ Desamparado./ Sonhei deuses outrora,/ Mas acordei./ Agora/ Os acúleos são versos,/ E tacteiam apenas/ A ilusão de um suporte./ Mas a inércia da morte,/ O descanso da vide na r...

Fraternidade (33)

Não me dói nada meu particular./ Peno cilícios da comunidade./ Água dum rio doce, entrei no mar/ E salguei-me no sal da imensidade./ / Dei o sossego às ondas/ Da multidão./ E agora tenho chagas/ No c...

Certeza (34)

Não:/ Nunca saberás quem sou./ Apesar destes beijos que te dou/ E destas ironias que te digo,/ Vou contigo/ Como vou/ Ao lado dum inimigo./ / Miguel Torga, in 'Diário (1936)'...

Exercício Espiritual (35)

Ouço-os de todo o lado./ Eu é que sou assim./ Eu é que sou assado,/ Eu é que sou o anjo revoltado,/ Eu é que não tenho santidade.../ / Quando, afinal, ninguém/ Põe nos ombros a capa da humildade,/ E ...

Pacto (36)

Juro e assino a jura:/ O nosso amor há-de florir/ À tona da mais funda sepultura/ Que a vida nos abrir./ / Miguel Torga, in 'Diário (1944)'...

Requiem por Mim (37)

Aproxima-se o fim./ E tenho pena de acabar assim,/ Em vez de natureza consumada,/ Ruína humana./ Inválido do corpo/ E tolhido da alma./ Morto em todos os órgãos e sentidos./ Longo foi o caminho e des...

História Antiga (38)

Era uma vez, lá na Judeia, um rei./ Feio bicho, de resto:/ Uma cara de burro sem cabresto/ E duas grandes tranças./ A gente olhava, reparava, e via/ Que naquela figura não havia/ Olhos de quem gosta ...

Intimidade (39)

Meu coração tem quantos versos quer;/ É só pulsá-los com medida e rumo./ É só erguer-se a pino a um céu qualquer,/ E desse alado azul cair a prumo./ / Logo se desvanece o negro encanto/ Que os tinha ...

O Poeta (40)

Triste, lá vai à ronda dos segredos/ O maluco que rouba quanto vê./ Branco, do coração aos dedos,/ É todo antenas onde apenas lê./ / Murcha-lhe nos pés o rosmaninho/ E a própria rosa, de o sentir, de...
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Regresso Sempre a Ti

Meu amor A verdade, a trágica verdade, é que cada vez gosto mais de ti, com aquela mansa fúria de que fala o poeta. Desde que te conheço que não tenho olhos para nenhuma outra mulher, milagre que só...

A Criança Dentro de Nós

Todas as crianças, enquanto ainda vivem dentro do seu mistério, estão sempre ocupadas nas suas almas com a única coisa que é importante, que são elas próprias e a sua relação enigmática com o mundo à...
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