Ricardo Reis
(Heterónimo de Fernando Pessoa)

Portugal
n. 19 Set 1887


128 Poemas

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Põe quanto És no Mínimo que Fazes (1)

Para ser grande, sê inteiro: nada/ Teu exagera ou exclui./ / Sê todo em cada coisa. Põe quanto és/ No mínimo que fazes./ / Assim em cada lago a lua toda/ Brilha, porque ...

Amo o que Vejo (2)

Amo o que vejo porque deixarei/ Qualquer dia de o ver./ Amo-o também porque é./ / No plácido intervalo em que me sinto,/ Do amar, mais que ser,/ Amo o haver tudo e a mim./ / Melhor me não...

Colhe o Dia, porque És Ele (3)

Uns, com os olhos postos no passado,/ Vêem o que não vêem: outros, fitos/ Os mesmos olhos no futuro, vêem/ O que não pode ver-se./ / Por que tão longe ir pôr o que está perto —/ A segurança nossa? Es...

Segue o Teu Destino (4)

Segue o teu destino,/ Rega as tuas plantas,/ Ama as tuas rosas./ O resto é a sombra/ De árvores alheias./ / A realidade/ Sempre é mais ou menos/ Do que nos queremos./ Só nós somos sempre/ Iguais a nó...

Estás Só (5)

Estás só. Ninguém o sabe. Cala e finge./ Mas finge sem fingimento./ Nada 'speres que em ti já não exista,/ Cada um consigo é triste./ Tens sol se há sol, ramos se ramos buscas,/ Sorte se a sorte é da...

Sê Rei de Ti Próprio (6)

Não tenhas nada nas mãos/ Nem uma memória na alma,/ Que quando te puserem/ Nas mãos o óbolo último,/ Ao abrirem-te as mãos/ Nada te cairá./ Que trono te querem dar/ Que Átropos to não tire?/ Que lour...

Quem nos Ama não Menos nos Limita (7)

Não só quem nos odeia ou nos inveja/ Nos limita e oprime; quem nos ama/ Não menos nos limita./ Que os deuses me concedam que, despido/ / De afetos, tenha a fria liberdade/ Dos píncaros sem nada./ Que...

Vive sem Horas (8)

Vive sem horas. Quanto mede pesa,/ E quanto pensas mede./ Num fluido incerto nexo, como o rio/ Cujas ondas são ele,/ Assim teus dias vê, e se te vires/ Passar, como a outrem, cala./ / Ricardo Reis...

O Erro de Querer Ser Igual a Alguém (9)

Aqui, neste misérrimo desterro/ Onde nem desterrado estou, habito,/ Fiel, sem que queira, àquele antigo erro/ Pelo qual sou proscrito./ O erro de querer ser igual a alguém/ Feliz em suma — quanto a s...

Cada um Cumpre o Destino que lhe Cumpre (10)

Cada um cumpre o destino que lhe cumpre,/ E deseja o destino que deseja;/ Nem cumpre o que deseja,/ Nem deseja o que cumpre./ Como as pedras na orla dos canteiros/ O Fado nos dispõe, e ali ficamos;/ ...

Vem Sentar-te Comigo, Lídia, à Beira do Rio (11)

Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio./ Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos/ Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas./ (Enlacemos as mãos.)/ / Depois p...

Não Temos Mais Decerto que o Instante (12)

Atrás não torna, nem, como Orfeu, volve/ Sua face, Saturno./ Sua severa fronte reconhece/ Só o lugar do futuro./ Não temos mais decerto que o instante/ Em que o pensamos certo./ Não o pensemos, pois,...

Por que não Haverá de Mim um Deus? (13)

Se a cada coisa que há um deus compete,/ Por que não haverá de mim um deus?/ Por que o não serei eu?/ É em mim que o deus anima/ Porque eu sinto./ O mundo externo claramente vejo —/ Coisas, homens, s...

Vivo uma Vida que não Quero nem Amo (14)

Súbdito inútil de astros dominantes,/ Passageiros como eu, vivo uma vida/ Que não quero nem amo,/ Minha porque sou ela,/ / No ergástulo de ser quem sou, contudo,/ De em mim pensar me livro, olhando n...

Cada Dia sem Gozo não Foi Teu (15)

Cada dia sem gozo não foi teu/ Foi só durares nele. Quanto vivas/ Sem que o gozes, não vives./ / Não pesa que amas, bebas ou sorrias:/ Basta o reflexo do sol ido na água/ De um charco, se te é grato....

É tão Suave a Fuga deste Dia (16)

É tão suave a fuga deste dia,/ Lídia, que não parece, que vivemos./ Sem dúvida que os deuses/ Nos são gratos esta hora,/ / Em paga nobre desta fé que temos/ Na exilada verdade dos seus corpos/ Nos dã...

Somos Estrangeiros Onde quer que Estejamos (17)

Lídia, ignoramos. Somos estrangeiros/ Onde que quer que estejamos./ / Lídia, ignoramos. Somos estrangeiros/ Onde quer que moremos, tudo é alheio/ Nem fala língua nossa./ Façamos de nós mesmos o retir...

Sei Bem que Nunca Serei Ninguém (18)

Sim, sei bem/ Que nunca serei alguém./ Sei de sobra/ Que nunca terei uma obra./ Sei, enfim,/ Que nunca saberei de mim./ Sim, mas agora,/ Enquanto dura esta hora,/ Este luar, estes ramos,/ Esta paz em...

Tenho Mais Almas que Uma (19)

Vivem em nós inúmeros;/ Se penso ou sinto, ignoro/ Quem é que pensa ou sente./ Sou somente o lugar/ Onde se sente ou pensa./ / Tenho mais almas que uma./ Há mais eus do que eu mesmo./ Existo todavia/...

Quando, Lídia, Vier o Nosso Outono (20)

Quando, Lídia, vier o nosso outono/ Com o inverno que há nele, reservemos/ Um pensamento, não para a futura/ Primavera, que é de outrem,/ Nem para o estio, de quem somos mortos,/ Senão para o que fic...
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O Início do Conhecimento

Um primeiro sinal do início do conhecimento é o desejo de morrer. Esta vida parece insuportável, a outra, intangível. A pessoa já não se envergonha mais de querer morrer, pede para ser levada da velh...

O Bom e o Mau em Todos Nós

Atrever-me-ia a dizer que há alguma coisa de intrinsecamente bom em todos os seres humanos, que, entre outras coisas, tem origem no atributo de consciência social que todos possuímos. E, sim, também ...
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