Ricardo Reis
(Heterónimo de Fernando Pessoa)

Portugal
n. 19 Set 1887


128 Poemas

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Cumpre-te Hoje, não Esperando (21)

Não queiras, Lídia, edificar no spaço/ Que figuras futuro, ou prometer-te/ Amanhã. Cumpre-te hoje, não 'sperando./ Tu mesma és tua vida./ / Não te destines, que não és futura./ Quem sabe se, entre a ...

Breves São os Anos (22)

No breve número de doze meses/ O ano passa, e breves são os anos,/ Poucos a vida dura./ Que são doze ou sessenta na floresta/ Dos números, e quanto pouco falta/ Para o fim do futuro!/ Dois terços já,...

Nunca a Alheia Vontade Cumpras por Própria (23)

Nunca a alheia vontade, inda que grata,/ Cumpras por própria./ Manda no que fazes,/ Nem de ti mesmo servo./ Ninguém te dá quem és./ Nada te mude./ Teu íntimo destino involuntário/ Cumpre alto./ Sê te...

Saudoso já deste Verão que Veio (24)

Saudoso já deste verão que veio,/ Lágrimas para as flores dele emprego/ Na lembrança invertida/ De quando hei de perdê-las./ Transpostos os portais irreparáveis/ De cada ano, me antecipo a sombra/ Em...

Podemos Crer-nos Livres (25)

Aqui, Neera, longe/ De homens e de cidades,/ Por ninguém nos tolher/ O passo, nem vedarem/ A nossa vista as casas,/ Podemos crer-nos livres./ / Bem sei, é flava, que inda/ Nos tolhe a vida o corpo,/ ...

Quer Pouco: Terás Tudo (26)

Quer pouco: terás tudo./ Quer nada: serás livre./ O mesmo amor que tenham/ Por nós, quer-nos, oprime-nos./ / Ricardo Reis, in Odes / Heterónimo de Fernando Pessoa...

Melhor Vida é a Vida que Dura sem Medir-se (27)

Não quero recordar nem conhecer-me./ Somos demais se olhamos em quem somos./ Ignorar que vivemos/ Cumpre bastante a vida./ / Tanto quanto vivemos, vive a hora/ Em que vivemos, igu...

Tão Cedo Passa Tudo quanto Passa (28)

Tão cedo passa tudo quanto passa!/ Morre tão jovem ante os deuses quanto/ Morre! Tudo é tão pouco!/ Nada se sabe, tudo se imagina./ Circunda-te de rosas, ama, bebe/ E cala. O mais é nada./ / Ricar...

Prefiro Rosas, meu Amor, à Pátria (29)

Prefiro rosas, meu amor, à pátria,/ E antes magnólias amo/ Que a glória e a virtude./ / Logo que a vida me não canse, deixo/ Que a vida por mim passe/ Logo que eu fique o mesmo./ / Que importa àquele...

Os Grandes Indiferentes (30)

Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia/ Tinha não sei qual guerra,/ Quando a invasão ardia na cidade/ E as mulheres gritavam,/ Dois jogadores de xadrez jogavam/ O seu jogo contínuo./ / À sombra de ...

Em Tudo quanto Olhei Fiquei em Parte (31)

Tudo que cessa é morte, e a morte é nossa/ Se é para nós que cessa. Aquele arbusto/ Fenece, e vai com ele/ Parte da minha vida./ / Em tudo quanto olhei fiquei em parte./ Com tudo quanto vi, se passa,...

Quanto Faças, Supremamente Faze (32)

Quanto faças, supremamente faze./ Mais vale, se a memória é quanto temos,/ Lembrar muito que pouco./ E se o muito no pouco te é possível,/ Mais ampla liberdade de lembrança/ Te tornará teu dono./ / <...

Cada Coisa a seu Tempo Tem seu Tempo (33)

Cada coisa a seu tempo tem seu tempo./ Não florescem no inverno os arvoredos,/ Nem pela primavera/ Têm branco frio os campos./ / À noite, que entra, não pertence, Lídia,/ O mesmo ardor que o dia nos ...

Quanta Tristeza e Amargura (34)

Quanta tristeza e amargura afoga/ Em confusão a 'streita vida!/ Quanto Infortúnio mesquinho/ Nos oprime supremo!/ Feliz ou o bruto que nos verdes campos/ Pasce, para si mesmo anônimo, e entra/ Na mor...

Uma Após Uma as Ondas Apressadas (35)

Uma Após Uma/ Uma após uma as ondas apressadas/ Enrolam o seu verde movimento/ E chiam a alva 'spuma/ No moreno das praias./ / Uma após uma as nuvens vagarosas/ Rasgam o seu redondo movimento/ E o so...

Nada Nos Falta, porque Nada Somos (36)

Ao longe os montes têm neve ao sol,/ Mas é suave já o frio calmo/ Que alisa e agudece/ Os dardos do sol alto./ / Hoje, Neera, não nos escondamos,/ Nada nos falta, porque nada somos....

Abdica e Sê Rei de Ti Mesmo (37)

Frutos, dão-os as árvores que vivem,/ Não a iludida mente, que só se orna/ Das flores lívidas/ Do íntimo abismo./ / Quantos reinos nos seres e nas cousas/ Te não talhaste imaginário! Quantos,/ Com a ...

Aos que a Felicidade é Sol, Virá a Noite (38)

Quero ignorado, e calmo/ Por ignorado, e próprio/ Por calmo, encher meus dias/ De não querer mais deles./ / Aos que a riqueza toca/ O ouro irrita a pele./ Aos que a fama bafeja/ Embacia-se a vida./ /...

O Passado é o Presente na Lembrança (39)

Se recordo quem fui, outrem me vejo,/ E o passado é o presente na lembrança./ Quem fui é alguém que amo/ Porém somente em sonho./ E a saudade que me aflige a mente/ Não é de mim nem do passado visto,...

Domina ou Cala (40)

Domina ou cala. Não te percas, dando/ Aquilo que não tens./ Que vale o César que serias? Goza/ Bastar-te o pouco que és./ Melhor te acolhe a vil choupana dada/ Que o palácio devido./ / Ricardo Rei...
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