João de Deus

Portugal
8 Mar 1830 // 11 Jan 1896
Poeta/Pedagogo

Avarento

Puxando um avarento de um pataco
Para pagar a tampa de um buraco
Que tinha já nas abas do casaco,
Levanta os olhos, vê o céu opaco,
Revira-os fulo e dá com um macaco
Defronte, numa loja de tabaco...
Que lhe fazia muito mal ao caco!
                Diz ele então
            Na força da paixão:
— Há casaco melhor que aquela pele?
Trocava o meu casaco por aquele...
          E até a mim... por ele.

                Tinha razão,
                      Quanto a mim.
             Quem não tem coração,
Quem não tem alma de satisfazer
As niquices da civilização,
                Homem não deve ser;
                Seja saguim,
Que escusa tanga, escusa langotim:
                Vá para os matos,
             Já não sofre tratos
A calçar botas, a comprar sapatos;
Viva nas tocas como os nossos ratos,
E coma cocos, que são mais baratos!

João de Deus, in 'Campo de Flores'
// Consultar versos e eventuais rimas




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