Mais Populares
Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,/ Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo;/ E apesar disso, crê! nunca pensei num lar/ Onde fosses feliz, e eu feliz contigo./ Por ti nunca chorei nen...
Porque o melhor, enfim,/ É não ouvir nem ver.../ Passarem sobre mim/ E nada me doer!/ _ Sorrindo interiormente,/ Co'as pálpebras cerradas,/ Às águas da torrente/ Já tão longe passadas. _/ Rixas, tumu...
O meu coração desce,/ Um balão apagado.../ _ Melhor fora que ardesse,/ Nas trevas, incendiado./ Na bruma fastidienta./ Como um caixão à cova.../ _ Porque antes não rebenta/ De dor violenta e nova?!/ ...

Poema
Camilo Pessanha Camilo Pessanha Portugal
1867 // 1926 Poeta
  
  
Branco e Vermelho A dor, forte e imprevista,
Ferindo-me, imprevista,
De branca e de imprevista
Foi um deslumbramento,
Que me endoidou a vista,
Fez-me perder a vista,
Fez-me fugir a vista,
Num doce esvaimento.
Como um deserto imenso,
Branco deserto imenso,
Resplandecente e imenso,
Fez-se em redor de mim.

Todo o meu ser, suspenso,
Não sinto já, não penso,
Pairo na luz, suspenso...
Que delícia sem fim!
Na inundação da luz
Banhando os céus a flux,
No êxtase da luz,
Vejo passar, desfila
(Seus pobres corpos nus
Que a distancia reduz,
Amesquinha e reduz
No fundo da pupila)
Na areia imensa e plana
Ao longe a caravana
Sem fim, a caravana
Na linha do horizonte
Da enorme dor humana,
Da insigne dor humana...
A inútil dor humana!
Marcha, curvada a fronte.
Até o chão, curvados,
Exaustos e curvados,
Vão um a um, curvados,
Escravos condenados,
No poente recortados,
Em negro recortados,
Magros, mesquinhos, vis.
A cada golpe tremem
Os que de medo tremem,
E as pálpebras me tremem
Quando o açoite vibra.
Estala! e apenas gemem,
Palidamente gemem,

A cada golpe gemem,
Que os desequilibra.
Sob o açoite caem,
A cada golpe caem,
Erguem-se logo. Caem,
Soergue-os o terror...
Até que enfim desmaiem,
Por uma vez desmaiem!
Ei-los que enfim se esvaem,
Vencida, enfim, a dor...
E ali fiquem serenos,
De costas e serenos.
Beije-os a luz, serenos,
Nas amplas frontes calmas.
Ó céus claros e amenos,
Doces jardins amenos,
Onde se sofre menos,
Onde dormem as almas!
A dor, deserto imenso,
Branco deserto imenso,
Resplandecente e imenso,
Foi um deslumbramento.
Todo o meu ser suspenso,
Não sinto já, não penso,
Pairo na luz, suspenso
Num doce esvaimento.
Ó morte, vem depressa,
Acorda, vem depressa,
Acode-me depressa,
Vem-me enxugar o suor,
Que o estertor começa.
É cumprir a promessa.
Já o sonho começa...
Tudo vermelho em flor...

Camilo Pessanha, in 'Clepsidra'

Tema(s): Dor  Humanidade  Ler outros poemas de Camilo Pessanha 
      Scoop.it

Garantia de Qualidade
O Citador é o maior site de citações, frases, textos e poemas genuínos e devidamente recenseados em língua portuguesa. Desde o ano 2000 que o Citador recolhe counteúdos directamente das fontes bibliográficas, sem recorrer a cópias de outros sites ou contributos duvidosos a partir de terceiros. Tem atenção aos Direitos de Autor.
Pesquisa
© Copyright 2003-2014 Citador - Todos os direitos reservados | webdesign - One Small Step SOBRE O SITE
//