Raul de Carvalho

Portugal
4 Set 1920 // 3 Ago 1984
Poeta

Coração sem Imagens

Deito fora as imagens.
Sem ti, para que me servem
as imagens?

Preciso habituar-me
a substituir-te
pelo vento,
que está em qualquer parte
e cuja direcção
é igualmente passageira
e verídica.

Preciso habituar-me ao eco dos teus passos
numa casa deserta,
ao trémulo vigor de todos os teus gestos
invisíveis,
à canção que tu cantas e que mais ninguém ouve
a não ser eu.

Serei feliz sem as imagens.
As imagens não dão
felicidade a ninguém.

Era mais difícil perder-te,
e, no entanto, perdi-te.

Era mais difícil inventar-te,
e eu te inventei.

Posso passar sem as imagens
assim como posso
passar sem ti.

E hei-de ser feliz ainda que
isso não seja ser feliz.

Raúl de Carvalho, in “Obras de Raul de Carvalho”

// Consultar versos e eventuais rimas

Outros Poemas de Raul de Carvalho:

Pesquisa

Facebook

A verdade é que fomos

A verdade é que fomos/ feitos do mesmo sangue/ violento e humilde/ / A verdade é que temos/ ambos a graça de compreender/ todos os homens e todas as estrelas/ / A verdade é que Deus/ nos ensinou/ que...

Percam para Sempre

Percam para sempre as tuas mãos o jeito de pedir./ Esqueça para sempre a tua boca/ O que disse a rezar./ E os teus olhos nunca mais, nunca mais saibam chorar/ Porque é inútil./ / Faz como os outros f...

Todas as Horas

Todas as horas, todos os minutos,/ São para mim a véspera da partida./ / Preparo-me para a morte, como quem/ Se prepara para a vida./ / Em qualquer parte eu disse que a Beleza/ Não nasce só mas sim a...