Livro de Mágoas

por: Florbela Espanca
Portugal
8 Dez 1894 // 8 Dez 1930
Poetisa

31 Poemas

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Eu (1)

Eu sou a que no mundo anda perdida,/ Eu sou a que na vida não tem norte,/ Sou a irmã do Sonho, e desta sorte/ Sou a crucificada ... a dolorida .../ / Sombra de névoa ténue e esvaecida,/ E que o desti...

De Joelhos (2)

“Bendita seja a Mãe que te gerou.”/ Bendito o leite que te fez crescer/ Bendito o berço aonde te embalou/ A tua ama, pra te adormecer!/ / Bendita essa canção que acalentou/ Da tua vida o doce alvorec...

Vaidade (3)

Sonho que sou a Poetisa eleita,/ Aquela que diz tudo e tudo sabe,/ Que tem a inspiração pura e perfeita,/ Que reúne num verso a imensidade!/ / Sonho que um verso meu tem claridade/ Para encher todo o...

Amiga (4)

Deixa-me ser a tua amiga, Amor,/ A tua amiga só, já que não queres/ Que pelo teu amor seja a melhor,/ A mais triste de todas as mulheres./ / Que só, de ti, me venha mágoa e dor/ O que me importa a mi...

Neurastenia (5)

Sinto hoje a alma cheia de tristeza!/ Um sino dobra em mim Ave-Maria!/ Lá fora, a chuva, brancas mãos esguias,/ Faz na vidraça rendas de Veneza .../ / O vento desgrenhado chora e reza/ Por alma dos q...

Lágrimas Ocultas  (6)

Se me ponho a cismar em outras eras / Em que ri e cantei, em que era querida, / Parece-me que foi noutras esferas, / Parece-me que foi numa outra vida ... / / E a minha triste boca dolorida, / Que da...

A Flor do Sonho (7)

A Flor do Sonho, alvíssima, divina,/ Miraculosamente abriu em mim,/ Como se uma magnólia de cetim/ Fosse florir num muro todo em ruína./ / Pende em meu seio a haste branda e fina/ E não posso entende...

Angústia (8)

Tortura do pensar! Triste lamento!/ Quem nos dera calar a tua voz!/ Quem nos dera cá dentro, muito a sós, / Estrangular a hidra num momento!/ / E não se quer pensar! ... e o pensamento/ Sempre a mord...

Desejos Vãos (9)

Eu queria ser o Mar de altivo porte/ Que ri e canta, a vastidão imensa!/ Eu queria ser a Pedra que não pensa,/ A pedra do caminho, rude e forte!/ / Eu queria ser o Sol, a luz imensa, / O bem do que é...

Noite de Saudade (10)

A Noite vem poisando devagar/ Sobre a Terra, que inunda de amargura .../ E nem sequer a bênção do luar/ A quis tornar divinamente pura .../ / Ninguém vem atrás dela a acompanhar/ A sua dor que é chei...

Sem Remédio (11)

Aqueles que me têm muito amor/ Não sabem o que sinto e o que sou .../ Não sabem que passou, um dia, a Dor/ À minha porta e, nesse dia, entrou./ / E é desde então que eu sinto este pavor,/ Este frio q...

Pequenina (12)

És pequenina e ris ... A boca breve/ É um pequeno idílio cor-de-rosa .../ Haste de lírio frágil e mimosa!/ Cofre de beijos feito sonho e neve!/ / Doce quimera que a nossa alma deve/ Ao Céu que assim ...

A Minha Dor (13)

A minha Dor é um convento ideal/ Cheio de claustros, sombras, arcarias,/ Aonde a pedra em convulsões sombrias/ Tem linhas dum requinte escultural./ / Os sinos têm dobres de agonias/ Ao gemer, comovid...

Mais Triste (14)

É triste, diz a gente, a vastidão/ Do mar imenso! E aquela voz fatal/ Com que ele fala, agita o nosso mal!/ E a Noite é triste como a Extrema-Unção!/ / É triste e dilacera o coração/ Um poente do nos...

Alma Perdida (15)

Toda esta noite o rouxinol chorou,/ Gemeu, rezou, gritou perdidamente!/ Alma de rouxinol, alma da gente,/ Tu és, talvez, alguém que se finou!/ / Tu és, talvez, um sonho que passou,/ Que se fundiu na ...

Para Quê?! (16)

Tudo é vaidade neste mundo vão .../ Tudo é tristeza, tudo é pó, é nada!/ E mal desponta em nós a madrugada,/ Vem logo a noite encher o coração!/ / Até o amor nos mente, essa canção/ Que o nosso peito...

Tortura (17)

Tirar dentro do peito a Emoção,/ A lúcida Verdade, o Sentimento!/ – E ser, depois de vir do coração,/ Um punhado de cinza esparso ao vento! .../ / Sonhar um verso de alto pensamento,/ E puro como um ...

A Minha Tragédia (18)

Tenho ódio à luz e raiva à claridade/ Do sol, alegre, quente, na subida./ Parece que a minh’alma é perseguida/ Por um carrasco cheio de maldade!/ / Ó minha vã, inútil mocidade,/ Trazes-me embriagada,...

Ao Vento (19)

O vento passa a rir, torna a passar,/ Em gargalhadas ásperas de demente;/ E esta minh’alma trágica e doente/ Não sabe se há-de rir, se há-de chorar!/ / Vento de voz tristonha, voz plangente,/ Vento q...

Em Busca do Amor (20)

O meu Destino disse-me a chorar:/ “Pela estrada da Vida vai andando,/ E, aos que vires passar, interrogando/ Acerca do Amor, que hás-de encontrar.”/ / Fui pela estrada a rir e a cantar,/ As contas do...

A um Livro (21)

No silêncio de cinzas do meu Ser/ Agita-se uma sombra de cipreste,/ Sombra roubada ao livro que ando a ler,/ A esse livro de mágoas que me deste./ / Estranho livro aquele que escreveste,/ Artista da ...

Velhinha (22)

Se os que me viram já cheia de graça/ Olharem bem de frente em mim,/ Talvez, cheios de dor, digam assim:/ “Já ela é velha! Como o tempo passa! ...”/ / Não sei rir e cantar por mais que faça!/ Ó minha...

Tédio (23)

Passo pálida e triste. Oiço dizer:/ “Que branca que ela é! Parece morta!”/ e eu que vou sonhando, vaga, absorta,/ não tenho um gesto, ou um olhar sequer .../ / Que diga o mundo e a gente o que quiser...

Pior Velhice (24)

Sou velha e triste. Nunca o alvorecer/ Dum riso são andou na minha boca!/ Gritando que me acudam, em voz rouca,/ Eu, náufraga da Vida, ando a morrer!/ / A Vida, que ao nascer, enfeita e touca/ De alv...

Impossível (25)

Disseram-me hoje, assim, ao ver-me triste:/ “Parece Sexta-Feira de Paixão./ Sempre a cismar, cismar de olhos no chão,/ Sempre a pensar na dor que não existe .../ / O que é que tem?! Tão nova e sempre...

As Minhas Ilusões (26)

Hora sagrada dum entardecer/ De Outono, à beira-mar, cor de safira,/ Soa no ar uma invisível lira .../ O sol é um doente a enlanguescer .../ / A vaga estende os braços a suster,/ Numa dor de revolta ...

Dizeres Íntimos (27)

É tão triste morrer na minha idade!/ E vou ver os meus olhos, penitentes/ Vestidinhos de roxo, como crentes/ Do soturno convento da Saudade!/ / E logo vou olhar (com que ansiedade! ...)/ As minhas mã...

Languidez (28)

Tardes da minha terra, doce encanto,/ Tardes duma pureza de açucenas,/ Tardes de sonho, as tardes de novenas,/ Tardes de Portugal, as tardes de Anto,/ / Como eu vos quero e amo! Tanto! Tanto!/ Horas ...

Castelã da Tristeza (29)

Altiva e couraçada de desdém,/ Vivo sozinha em meu castelo: a Dor!/ Passa por ele a luz de todo o amor .../ E nunca em meu castelo entrou alguém!/ / Castelã da Tristeza, vês? ... A quem? .../ – E o m...

Torre de Névoa (30)

Subi ao alto, à minha Torre esguia,/ Feita de fumo, névoas e luar,/ E pus-me, comovida, a conversar/ Com os poetas mortos, todo o dia./ / Contei-lhes os meus sonhos, a alegria/ Dos versos que são meu...

A Maior Tortura (31)

Na vida, para mim, não há deleite./ Ando a chorar convulsa noite e dia .../ E não tenho uma sombra fugidia/ Onde poise a cabeça, onde me deite!/ / E nem flor de lilás tenho que enfeite/ A minha atroz...
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Deixar Andar

«Isto não pode continuar», «Isto tem de mudar» e «Não há saída», com a variante «Não há homens», são com certeza as mais velhas frases da política portuguesa moderna, e as mais repetidas. Também, no...

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